Kronophelgor

May 24th, 2010 Claudio Tellez No comments

… após uma longa descida, Andrin percebeu que a sua jornada tinha chegado ao fim. Esse era, então, o ponto mais baixo do Abismo, o lugar onde ele teria que enfrentar sua prova mais dura. Mas… o lugar estava vazio, escuro, silencioso e frio. A escuridão era tanta que não era mais possível ver a neblina, mas ela preenchia todos os espaços, como as notas de um alaúde. O silêncio, por sua vez, tinha densidade e uma textura quase gelatinosa, enquanto o frio transmitia um sabor situado entre o azedo e o amargo. Andrin percebeu que, nesse lugar, todos os seus sentidos transmitiam experiências discordantes. Ao mesmo tempo, o ferimento provocado pela espada de Helheimr não doía mais. Ele estava pronto e Kronophelgor, seu inimigo, não tardaria a aparecer.

O frio tornou-se subitamente mais intenso. O silêncio foi quebrado por uma profusão de vozes, que pareciam emergir de todas as partes do Abismo ao mesmo tempo, em uma mistura de gemidos, lamentos, gritos de agonia e sussurros. Em meio a milhares de vozes, um nome foi proferido com uma doçura sedutora, em tom quase angelical: Andriiiiiinnnn…

Andrin cerrou os punhos quando sentiu uma respiração morna e fétida roçar-lhe a nuca. Kronophelgor estava com ele, bem às suas costas. Andrin voltou-se para encará-lo e, pela primeira vez, pôde ver a carranca repugnante de seu inimigo. Cuidadosamente, estudou as feições de gárgula de Kronophelgor. Percebeu que seus olhos, vermelhos e brilhantes, pareciam familiares. Onde já os tinha visto? Antes de que pudesse recordar por si só, o demônio respondeu, deixando uma voz suave e cativante fluir por entre seus longos e afiados dentes:

- Em alguns de teus sonhos. Visitei-te algumas vezes, enquanto dormias.

- Sim, agora me recordo. Mas teus olhos e dentes sempre ocupavam a face de alguma pessoa. No último pesadelo em que me visitaste, era a face… nem quero recordar esse sonho! Isso foi…

- … exatamente um ciclo antes da Primeira Agonia.

- Sim. Um ciclo. A data é exata. Então, foste o responsável pela Primeira e pela Segunda Agonia, que ocorreu precisamente um ciclo depois da Primeira.

- Talvez. Humanos são imprevisíveis. Claro, tive a minha participação. Mas “responsável” é uma palavra muito forte.

- De qualquer maneira, isso não importa mais. O que importa é que desci até aqui para te encontrar, desgraçado.

Kronophelgor baixou um pouco a cabeça, ergueu as sobrancelhas e esboçou um sorriso enigmático:

- Desejas entregar-me a alma ou apenas dissolvê-la no vazio do Abismo?

- Desejo o combate.

A resposta de Andrin surpreendeu Kronophelgor, que reagiu com ironia:

- Fraco como estás, humano tolo?

Andrin sorriu e respondeu, com um leve tom de sarcasmo:

- Meu corpo está fraco. Mas não é meu corpo que está aqui. A espada de Helheimr separou minha alma de meu corpo. Caso contrário, eu não teria sobrevivido à queda no Abismo.

- Acaso esperas derrotar-me, alma humana? Mesmo que houvesse a mínima chance de sucesso, de que te adiantaria? Nunca poderás deixar o Abismo.

- Após derrotar-te, usarei teus ossos para escalar as paredes do Abismo. Além disso…

- És mesmo arrogante, criatura imperfeita!

- … além disso, não estou sozinho. Karalynn está na superfície e ela saberá como reunir o que a espada de Helheimr separou.

- Karalynn, a Feiticeira? Ha ha! Ela é apenas uma humana como tu!

- Mas ela conhece os arcanos que ligam o segredo ao mistério.

- Pode ser, pode ser. Mas, primeiro, terás que derrotar-me; depois, precisarás escalar as paredes do Abismo…

- … o que farei usando teus ossos, como já disse. Além disso, Karalynn também me ajudará na subida. Meu único obstáculo, agora, és tu, criatura fétida.

Kronophelgor mostrou mais uma vez os dentes pontiagudos e seus olhos vermelhos começaram a brilhar com mais intensidade.

- Aqui não há mais esperanças, humano estúpido. Bem sabes disso. Como esperas sair?

Andrin sorriu, desta vez com ironia:

- Não esperando. Eu bem sei que aqui embaixo não há mais esperanças. Mas era exatamente o estado que eu precisava atingir. Porque “esperar é desmentir o futuro”. Assim, ao mergulhar no Abismo, deixei para trás toda a esperança. Somente dessa maneira, consegui chegar até aqui e poderei, enfim, enfrentar-te apenas com o que tenho e não em função de algum sonho ou ilusão.

Kronophelgor fitou Andrin com desdém.

- Lá vens novamente com tuas citações de Cioran! “Esperar é desmentir o futuro”. Puah! Besteiras! És humano e não entrarias em um combate, do qual não há possibilidade de sair vencedor, sem esperar alguma recompensa.

- Não espero nada. Faço isto apenas por mim.

- Buscas glória?

- Não.

- Buscas fama?

- Não.

O demônio murmurou alguma coisa, cofiou a barbicha e provocou:

- Mas… e todo aquele esforço para conseguir um lugar no Colégio dos Mestres? Fizeste tudo aquilo por…

- … por mim.

- Tens certeza? – perguntou Kronophelgor, com uma pontada de malícia, continuando a provocação.

- É óbvio! Caso contrário, eu teria optado por algum caminho mais fácil e rápido. Teria ingressado na Guilda dos Mercadores, sabes muito bem que tive essa oportunidade. Ou teria concursado para ocupar algum cargo técnico na Chancelaria. Minha vida teria sido bem mais fácil. Contudo… onde estaria o prazer do desafio, da aventura? Escolhi meu caminho totalmente ciente das dificuldades que teria de enfrentar. Porém é o meu caminho.

Confuso, Kronophelgor retraiu os ombros e grunhiu, com os olhos transbordantes de raiva. Andrin acrescentou:

- Eu sei que desejas confundir-me, Kronophelgor. Assim como confundiste os filósofos clássicos, lançando o pensamento humano na armadilha da dialética. És o Senhor do Tempo e da Mentira.

Kronophelgor suspirou, nostálgico.

- Sim… Platão foi um excelente discípulo…

- Assim como Aristóteles e todos os que vieram depois deles. Somente Maquiavel conseguiu compreender-te e expor um pouco o teu veneno. Mas, nos séculos seguintes, enganaste quase todos os leitores de Maquiavel, de modo a perpetuar teu engodo.

- Vejo que aprendeste muito com Briannus, o Sábio!

- Sim, e também com Naemus, o Bardo. Eles estão visitando o Colégio.

- Responde-me uma coisa, mortal insignificante. Como esperas derrotar-me?

Andrin fitou calmamente o demônio, demorou-se um pouco e respondeu, com serenidade:

- Na verdade, já te derrotei.

- Hein? O que queres dizer com isso? – indagou Kronophelgor, surpreso.

- Quero dizer que cometeste um erro. Quiseste testar meus limites e, com isso, estou no ponto em que não podes causar-me mais dor. Este é realmente o fundo do Abismo. Só podes derrotar-me se eu manifestar o desejo de que carregues minha alma. Porém, como não farei isso, tenho somente duas opções diante de mim: deixar que minha alma adormeça e congele aqui, por toda a eternidade; ou subir. De qualquer forma, perdeste e nunca terás minha alma. Ah, também fiz minha escolha. Voltarei para a superfície.

Kronophelgor contraiu toda a musculatura de seu corpo, abriu as asas e grunhiu.

- Por que vieste até aqui, então? Por que mergulhaste no Abismo? Tolo! Nunca sairás!

- Porque eu precisava conhecer-te. Eu precisava passar por este processo. Só assim descobri que não moravas em minhas entranhas, como eu pensava. Agora sei que posso matar-te sem infligir-me dano algum, pois estás fora de mim. Mas tive que descer até aqui para encontrar-te. Para sair, como já disse, utilizarei teus ossos e Karalynn me ajudará com sua corda.

- …

- Creio que nós já terminamos aqui e anseio por subir. Prepara-te, demônio! Porque agora morrerás!

- …

Andrin rapidamente empunhou sua katar de diamante e desferiu três vigorosos golpes em Kronophelgor. Um corte vertical para matar o tempo, um corte horizontal para matar o espaço e uma estocada no ponto de encontro entre o tempo e o espaço. O demônio estremeceu, emitiu um guincho estridente, cambaleou e tombou aos pés de Andrin. Em seguida, o guerreiro retirou dois ossos pontiagudos das asas de Kronophelgor e, sereno, começou a escalar, lentamente, a parede do Abismo.

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Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate

May 21st, 2010 Claudio Tellez 2 comments

Gustave Doré, “Dante and Virgil approaching the entrance to Hell”.

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Meditação sobre a pesquisa

May 19th, 2010 Claudio Tellez 6 comments

O que faz um texto tornar-se um “clássico”? O teste principal é colocado pelo tempo – em todas as suas contrações e dilatações, contorções e esvaziamentos. A Ilíada e a Odisséia de Homero são clássicos porque levantam questões e suscitam debates até hoje. Quando a obra, mesmo escrita em seu momento, consegue transcender o seu momento, consegue criar-se e recriar-se na duração, ganhando uma vida própria, isso a torna uma obra clássica.

O Príncipe, de Maquiavel, é um clássico da teoria política porque ainda hoje podemos lê-lo e descobrir coisas novas, que nos acrescentam não somente mais conhecimento sobre como era a vida em Florença no tempo e contexto de Maquiavel, mas coisas que nos fazem repensar as categorias de pensamento e os conceitos que orientam nossas reflexões contemporâneas sobre a vida política.

Uma obra clássica não é só a que se perpetua, mas a que se renova, a que permite novas interpretações, variações sobre um tema, criar ornamentações – que nada mais são do que improvisações – sobre um baixo contínuo sobre o qual as harmonias se constróem, seja horizontalmente (na forma melódica) ou verticalmente (na forma de acordes).

Quem deseja continuar no mundo da pesquisa e produção de conhecimento, precisa exercitar a criatividade. Um belo e estimulante exercício é trabalhar sobre os textos clássicos, procurar sentir como eles nos provocam, como mexem com nosso pensamento e até mesmo com nossas reações fisiológicas. É a partir desses movimentos que começamos não só a “ler” os clássicos, mas a “criar”, a fazer a pesquisa acontecer.
 
Grande parte do que é produzido na Disciplina, hoje em dia, nunca alcançará o status de clássico. Porque para produzir um texto clássico, o autor trabalha o pensamento à exaustão, busca esgotar o tema. É da impossibilidade desse esgotamento – que só se atinge pela busca insistente – que o tema resiste ao esgotamento. Mas há que criar essa tensão, ela não emerge sem um esforço construtivo e, ao mesmo tempo, contemplativo.

Com raríssimas exceções, os intelectuais da atualidade são preguiçosos. Preferem rotular-se, definir-se como seguidores desde ou daquele grande filósofo ou teórico; tornam-se hábeis aplicadores das ideias de outros. Ou então utilizam-se da retórica de forma desonesta, para criar e manipular legiões de seguidores, envenenando-os com a ferocidade de seu fanatismo, consumindo-os com sua intransigência ideológica, petrificando-os com o teatro de sua convicção.

Criar exige esforço e honestidade. Acima de tudo, honestidade voltada para o interior. Por isso, exige também muita coragem, pois requer olhar para dentro de si o tempo todo, questionar as próprias convicções, enfrentar fantasmas que, muitas vezes, não queremos enfrentar. Criar requer lidar com nossas paixões, nossas angústias, os movimentos da alma que nos colocam diante do agonismo de nossa condição humana. Requer não somente olhar para o abismo, mas nele atirar-se – sem nenhuma certeza de retorno.

São palavras de Emil Cioran: “Pensar deveria ser como a meditação musical. Será que algum filósofo buscou levar o pensamento aos seus limites, assim como Bach ou Beethoven desenvolvem e exaurem um tema musical?” É um conselho valioso que se desdobra em reflexões não sobre quem somos, mas sobre quem temos sido e quais são nossas aspirações. Quem pretende seguir a carreira acadêmica, não deve vê-la apenas como uma carreira, mas sim como um projeto de vida, que deve manter-se mediante a dedicação e a paixão. A vida acadêmica é, antes de mais nada, uma escolha de vida. Uma vida que deve ser incessantemente cultivada, pois articula dois elementos fundamentais que devem ser constantemente alimentados: a curiosidade e a criatividade. E onde estão os alimentos? Não somente nos textos, sejam clássicos (indispensáveis!) ou não. Os alimentos estão em toda parte.

O ato de pesquisar – e, portanto, de mergulhar no abismo interior para colocar-se diante do mundo – exige abrir novos canais de percepção, novos meios de apreensão intelectual, novas maneiras de atualizar-se e reatualizar-se no real e no irreal. Onde estão, portanto, os alimentos para a curiosidade e a criatividade? Na contemplação de um belo quadro, na apreciação meditativa de uma peça musical; nos contrastes, na tensão entre consonâncias e dissonâncias, sem a certeza de que haverá resolução; nas razões que levaram um determinado pintor a selecionar determinados pigmentos, a escolher certas combinações de cores, a explorar diversos jogos de luzes e sombras.

O importante é perseguir incessantemente o crescimento e o enriquecimento, abrindo os olhos e a alma para tudo o que nos cerca. A pesquisa não é apenas uma atividade investigativa. Ela é, acima de tudo, um exercício de admiração.

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O tempo é dissonante e implacável

May 8th, 2010 Claudio Tellez 3 comments

Não importa o quanto precisamos de tempo, pois o tempo não precisa de nós. Podemos acomodar-nos no que pensamos ser o tempo, porém, como escrevi recentemente em uma carta, “vivemos em um ‘presente’ que a todo tempo deixa de ser passado e nunca conclui-se como presente, abre-se incessantemente para o desconhecido do futuro”. Por isso nunca estamos prontos. Por isso não somos perfeitos. Não podemos “ser” perfeitos, porque nossa vida se faz no infectum, na sucessão de ações inacabadas. Assim, mesmo no momento da enunciação, não somos totalmente concluídos. Não se pode viver o perfectum porque o perfectum é apenas uma ilusão.

A realidade desenvolve-se em uma estrutura dinâmica que castiga quem se acomoda em certezas. Pois esse tempo que não precisa de nós, ao contrário de nossa intuição, não se compõe de uma sucessão de segundos. O tempo não é um marco no qual podemos nos esconder e aquietar. O tempo não é absoluto, não flui de maneira constante. O tempo também não é único: ele se dilata e se contrai, dobra-se e imbrica-se com outros tempos, cria perpetuamente novas geometrias. Não devemos, portanto, acomodar-nos em certezas. Devemos estar preparados para o inesperado, para a ruptura, para o abismo da singularidade. O tempo é dissonante e implacável.

Como escrevi naquela mesma carta, “se eu fosse construir um novo pórtico para o templo de Apolo, colocaria uma frase diferente. Em vez de ‘conhece-te a ti mesmo’, escreveria algo como ‘nunca cesses de conhecer-te a ti mesmo’. Porque o processo de autoconhecimento só encontra seu término na morte e desistir de buscar quem somos é, de certa forma, desistir de viver”. O melhor que podemos fazer, em nossa condição imperfeita, é participar da transformação e combater a geração e afirmação de um senso comum que esconde as perguntas mais importantes. Porque essas perguntas incomodam e, quando vêm à superfície, provocam rupturas, destróem convenções e convicções, mostram que há meios de resistir aos sutis mecanismos que colonizam nossas mentes e nos condicionam a reproduzir uma ordem sobre a qual fundam-se, há séculos, a sociedade, a economia, o poder, as normas “oficiais” e nossas convicções morais – que, aliás, até que ponto são verdadeiramente “nossas”?

Podemos ser como Martin Mystère e nunca parar de investigar, ou podemos vender-nos aos seus principais inimigos, os Homens de Negro, que utilizam todos os meios para destruir as diferenças e garantir a perpetuação do establishment. A escolha é nossa, porém o primeiro caminho requer esforço e coragem: não só para dizer o que ninguém quer que seja dito, mas também para operar dentro de nós mesmos e vencer nossos próprios fantasmas.

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A melhor lição de Rocky Balboa

May 1st, 2010 Claudio Tellez No comments

“You stopped being you. You let people stick a finger in your face and tell you you’re no good. And when things got hard, you started looking for something to blame, like a big shadow. Let me tell you something you already know. The world ain’t all sunshine and rainbows. It’s a very mean and nasty place and I don’t care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there permanently if you let it. You, me, or nobody is gonna hit as hard as life. But it ain’t about how hard ya hit. It’s about how hard you can get it and keep moving forward. How much you can take and keep moving forward. That’s how winning is done! Now if you know what you’re worth then go out and get what you’re worth. But ya gotta be willing to take the hits, and not pointing fingers saying you ain’t where you wanna be because of him, or her, or anybody! Cowards do that and that ain’t you! You’re better than that! (…) But until you start believing in yourself, ya ain’t gonna have a life.” (Rocky Balboa)

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Confissões

April 26th, 2010 Claudio Tellez 8 comments

Tenho uma camiseta muito antiga, com os dizeres: “O que é um rebelde? Um homem que sabe dizer não”. A frase é de Albert Camus. Na época em que comprei essa camiseta, eu apenas curtia Camus e adorei a frase. Não precisei analisar nada e nem situar Camus nos debates intelectuais de sua época. Eu conhecia Camus, mas apenas achei a camiseta legal, com um desenho de um camelo e essa citação.

Às vezes, criamos complicações onde elas não existem. Ficamos sérios demais, procurando sempre mais profundidade em coisas cujo verdadeiro significado, às vezes, está na superfície, bem diante de nossos olhos. Há que saber, é claro, exercitar o pensamento. Mas também há que exercitar outras formas de intelecção que transcendem o limiar do racional. O ato da apreensão estética exige abrir a imaginação, deixar a criatividade correr solta. Exige, enfim, aproveitar o que se faz pelo momento em si e não pelas inúmeras interpretações inteligentes possíveis.

É através do desprendimento da mera razão que conseguimos atualizar, na consciência, os significados mais sutis e mais importantes das coisas que nos cercam. O conhecimento racional é apenas uma segunda etapa que depende totalmente do sucesso da primeira, aquela etapa na qual nossos sentidos são simplesmente impregnados de formas, sons e cores. Contudo, para aproveitar intensamente a primeira etapa, devemos estar orientados não a “conhecer” racionalmente, mas apenas a sentir, a contemplar e a aproveitar as coisas da vida apenas pelo que elas são, e não pelo que desejamos enquadrar em nossas categorias de pensamento.

Na contemplação serena, não é o intelecto que se move; ele é movido, é tocado. O mundo dos debates e das disputas cria uma necessidade artificial de afirmação e de superação, como se tudo se resumisse ao desenvolvimento de técnicas mais precisas e adequadas para a afirmação de um determinado ponto de vista em detrimento de outros que também têm, em si e por si, o seu valor. Admitir esse valor, abandonando o afã de impor ao Outro o que somos e o que pensamos, é uma forma de reconhecer o Outro. Nem tudo é cálculo e é na tecnicidade do pensamento calculativo que destruímos, aos poucos, a capacidade de contemplar serenamente o Outro que diante de nós se desdobra com suas próprias percepções, experiências, modos de sentir e de existir. O vício do pensamento racional-técnico-calculativo nos afasta não somente da experiência enriquecedora do con-viver com o Outro; ele também nos afasta de nossa própria identidade, termina por tornar-nos mais mecânicos, mais frios, mais distantes da própria essência que nos define; passamos, assim, a menosprezar as pequenas coisas que carregam, em si, os maiores significados.

Essa é uma das razões para que eu tenha me afastado do mundo das polêmicas. A outra razão é que não consigo compactuar com a desonestidade de pessoas que, em nome de um ideal revestido com um verniz de justiça e liberdade, na verdade avançam projetos de exaltação de um tipo de individualidade moderna que só sobrevive mediante o distanciamento e a caracterização do externo como inimigo a ser controlado ou, no fracasso do controle, simplesmente eliminado. O controle e a exceção são subjacentes aos discursos que prometem virtude e liberdade. São promessas vazias, que escondem meios de imposição e de dominação, através de uma progressiva e virulenta colonização moral.

Afastei-me das polêmicas porque elas estavam me fazendo mal, matando quem eu realmente sou. Aqui, recordo Deleuze: “Every time someone puts an objection to me, I want to say: ‘OK, OK, let’s go on to something else.’ Objections have never contributed anything.” Não há sentido na disputa se o objetivo não é o enriquecimento mútuo. Esse objetivo, contudo, é impossível quando um dos lados aferra-se a uma visão monolítica do mundo e das coisas, amparando-se em uma suposta autoridade dotada de validade universal.

Quando procuramos nos resgatar e nos reencontrar, às vezes encontramos coisas que não queremos ver. Porém é um processo importante se queremos não mais deixar de lado tudo o que é realmente importante. A música, por exemplo, sempre esteve presente na minha vida. Porém, concentrado demais em procurar a perfeição em tudo o que faço, parei de me divertir com a música e comecei a buscar apenas o aprimoramento da técnica. O violão não é só violão erudito; é o violão que anima danças, cantos e festas. Quero continuar tocando música clássica, claro, mas porque eu GOSTO e não porque quero ser tecnicamente perfeito. Quero me divertir também, apenas contemplar, relaxar na serenidade, curtir as músicas pelo que elas são e curtir outras músicas também. O mesmo vale para tudo na vida. Por mais que as vicissitudes da vida nos endureçam, nem tudo pode ser seriedade e trabalho. As vicissitudes são inevitáveis, há que enfrentá-las, mas não podemos fazer da vida um eterno exercício de resolução de problemas. Nem tudo é sério, nem tudo é analisável. O mais importante é o que pede apenas contemplação serena. Nunca mais esquecerei disso.

Agora sei que quem eu sou na verdade nunca morreu. Entusiasmei-me pelas coisas erradas, gastei anos e muita energia produzindo para quem me seduziu através de discursos que falavam de virtude, de liberdade e de valores universais e perenes. Deixei-me colonizar por tantas mentiras e falsidades que cheguei até a esquecer, durante muito tempo, de quem eu realmente sou e das coisas que realmente são importantes para mim. Há dez anos, eu escrevia colocando no papel como eu realmente via o mundo e como eu me sentia com relação às coisas que causam indignação e revolta a qualquer ser humano que tenha um mínimo de sensibilidade. Claro, eu era mais solto, mais relaxado, não tinha tantas preocupações e responsabilidades. Mas não posso mais permitir que essas preocupações e contratempos destruam o que existe de melhor em mim, não vou permitir. Eu sei que acabei por me acomodar e comecei a enterrar o meu verdadeiro Eu, esse Eu que sofre quando colocado diante do sofrimento do mundo, esse Eu que cria um blog para tentar fazer alguma coisa por tantos animais abandonados que padecem nas ruas, esse Eu que se preocupa com questões de natureza ecológica, não do ponto de vista dos estéreis debates intelectuais da atualidade, mas de uma perspectiva total e naturalmente humana. Eu sei que errei, mas estou disposto a me redescobrir e a reparar meu erro.

Acredito que ainda sou assim, por isso esta confissão. Faz parte de um doloroso processo de redescoberta e renascimento. Nem tudo é análise e comentário intelectual. Eu também sei simplesmente aproveitar a vida por tudo o que ela tem a oferecer. Eu sei apenas apreciar uma música, sem criticar aquela nota desafinada no meio da interpretação. Sei beber uma cerveja no calçadão durante o por-do-sol, contemplando o mar, sentindo-me tão pequeno na imensidão do universo e ao mesmo tempo tão grandioso por participar deste milagre único que é a vida. Sei me divertir de maneira espontânea, natural, apenas sendo humano, apenas sendo uma pessoa, com qualidades e defeitos, com sentimentos e emoções.

Não… eu não esqueci de quem Sou de verdade. Ainda sinto as mesmas coisas que eu sabia sentir há dez anos, ainda gosto das mesmas coisas que me faziam feliz. Por isso nunca mais permitirei que todos esses vampiros que andam por aí, corrompendo almas e destruindo vidas, destruam o que tenho de mais valioso: a minha humanidade, a minha capacidade de me preocupar com o sofrimento de outras pessoas e animais, a minha própria condição humana que me faz, como humano, ser capaz de contemplar e curtir todas as pequenas coisas que constróem significados tão grandes! Tudo aquilo que para mim era importante há dez anos, ainda é hoje. Eu só não estava me permitindo ver isso.

Um rebelde é um homem que sabe dizer não. Pois eu digo não. É um não necessário para renascer e para recuperar essa espontaneidade que me fazia lutar por tudo aquilo em que acreditei e em que ainda acredito.

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O Fio Condutor

February 24th, 2010 Claudio Tellez 2 comments

No livro Surely You’re Joking, Mr. Feynman, que mencionei também em meu post anterior, Feynman relata uma experiência que teve com alguns matemáticos, na época em que estudou em Princeton. Ele desafiou-os a enunciarem teoremas, em termos que ele pudesse entender, e ele seria capaz de dizer, imediatamente, se os teoremas eram verdadeiros ou falsos.

Um matemático aceitou o desafio e disse algo como: “Imagine que você tem uma laranja. Você a corta em um número finito de partes, depois coloca tudo junto de volta, e ela é tão grande quanto o Sol”.

Cauteloso, Feynman ainda perguntou: “Sem buracos?” O matemático respondeu: “Sim, sem buracos”. Sem titubear, Feynman afirmou que isso era impossível e, portanto, FALSO.

Os matemáticos comemoraram. Afinal de contas, o matemático tinha enunciado um conhecido – e verdadeiro – teorema topológico. Contudo, Feynman manteve sua convicção e insistiu em que o enunciado era falso. Por que? Porque o matemático disse que tratava-se de uma LARANJA. O matemático contava com a condição de continuidade. Com essa condição, o teorema é válido para uma esfera enquanto objeto matemático, mas não para a superfície de uma laranja no mundo real. Uma laranja é claramente um objeto físico e Feynman observou que não seria possível cortá-la em pedaços mais finos do que seus átomos.

Por que resolvi contar esse episódio da vida de Feynman? Porque vivenciei algo parecido na época em que fiz graduação em Matemática. Mas foi em uma prova de Física III, no Ciclo Básico. Não lembro de todos os detalhes da questão, mas tinha a ver com o campo magnético gerado por uma corrente elétrica em um fio condutor. Lembro, sim, que no enunciado estava bem claro que tratava-se de um fio condutor (logo, um objeto físico, concreto). Na primeira parte da questão, havia um desenho mais ou menos assim:

A questão pedia para calcular o campo magnético em um ponto próximo à porção semicircular do fio. Ok, isso era tranquilo. Mas o segundo item da questão dizia: “Agora, suponha que o trecho do fio entre os pontos A e B seja reto”, e pedia para calcular alguma outra coisa.

Qual foi meu raciocínio? Ora, estou diante de um fio condutor. Um objeto físico. Possivelmente de cobre, sei lá. Para que o trecho entre os pontos A e B da figura seja reto, tenho que “esticar” esse fio. Logo, a distância entre os pontos A e B (um dado relevante para o problema) é dado pelo comprimento do semicírculo representado na figura. Essa distância vale, portanto, metade do comprimento de um círculo, ou seja, pi vezes o raio. Utilizei esse valor como distância, fiz as contas e cheguei a um resultado.

Quando veio a nota, uma surpresa. Perdi alguns décimos (um ou dois, se não me engano) porque utilizei pi vezes o raio como a distância entre A e B. Todos os demais alunos – TODOS – utilizaram simplesmente 2R (duas vezes o raio). Isto é, eles imaginaram a situação abaixo, na qual a distância entre A e B está representada pela linha pontilhada:

Com essa situação, utilizando o valor 2R como distância, as contas ficavam mais fáceis. Com o valor que eu utilizei, pi vezes R, as contas eram um pouquinho mais complicadas, mas nada do outro mundo. Esperava-se, contudo, que os alunos optassem pela “interpretação” mais fácil, mesmo que ela “evaporasse” um belo pedaço do fio, atropelando a própria Natureza que os físicos se propõem a estudar e entender.

Argumentei com o professor que, se a questão tratava de um fio condutor, um objeto físico concreto, para que o trecho em questão fosse reto, seria necessário esticar o fio. Ele concordou. Sim, meu raciocínio estava certo. Contudo, ele manteve a posição e disse que diminuiu a minha nota porque TODO MUNDO fez do outro jeito!

Ou seja: o que importa não é a Física e nem o raciocínio, mas sim a opinião da maioria, árbitro supremo e absoluto de um certo entendimento de como deve ser a “formação científica” no Brasil.

Ao premiar os estudantes que aplicaram mecanicamente uma fórmula, sem parar para pensar na situação física descrita pelo problema, meu professor contribuiu para reproduzir uma patologia que Feynman observou na ocasião de sua primeira visita ao Brasil, no início da década de 1950. Feynman horrorizou-se ao perceber que os alunos não pensavam, apenas memorizavam e repetiam o que as “autoridades” diziam nos livros. Cito textualmente um trecho da página 192 do meu exemplar de Surely You’re Joking, Mr. Feynman:

After a lot of investigation, I finally figured out that the students had memorized everything, but they didn’t know what anything meant.

 

Feynman também percebeu que, caso alguém desconfiasse que havia algo errado e fizesse perguntas, o próprio “sistema” se encarregaria de colocar as coisas no lugar. Cito, da página 194:

It was a kind of one-upmanship, where nobody knows what’s going on, and they’d put the other one down as if they *did* know. They all fake that they know, and if one student admits for a moment that something is confusing by asking a question, the others take a high-handed attitude, acting as if it’s not confusing at all, telling him that he’s wasting their time.

 

Admiro Feynman não só como o grande físico que ele foi, mas também pela sua honestidade. Ele sempre dizia o que pensava. Assim, ao final de sua visita, em uma palestra sobre as suas experiências, ele afirmou que nenhuma ciência estava sendo ensinada no Brasil. Isso na década de 1950. Será que a situação, hoje, é muito diferente? Volto ao episódio da minha prova de Física III. Meu raciocínio estava correto. Eu estava pensando como um físico. Ou, pelo menos, como acho (e continuo achando) que um físico deve pensar. Acredito que Feynman, se estivesse vivo, concordaria comigo.

Eu sei que não se pode generalizar e nem é essa a minha intenção. Estou ciente de que hoje, no Brasil, há muita gente competente fazendo ciência. Também estou ciente de que, em muitas universidades, há professores excelentes que realmente se esforçam para estimular o pensamento crítico e o desenvolvimento do raciocínio de seus alunos nas disciplinas científicas. Não possuo elementos suficientes para afirmar que tais casos não passam de exceções. Apenas posso relatar uma experiência pessoal, algo que aconteceu comigo e que ilustra uma situação muito semelhante à que Feynman denunciou há quase 60 anos.

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Surely You were right, Mr. Feynman!

February 20th, 2010 Claudio Tellez No comments

Como conciliar duas ou mais naturezas? O problema da polimatia é que, muitas vezes, somos tentados a querer construir pontes ao invés de simplesmente apreciar a beleza de cada área em separado. O que importa, no fim das contas, é o prazer que vem da curiosidade, a irreverência de brincar com o conhecimento, a vontade de aprender sempre um pouco mais. Mas a dificuldade reside em saber lidar com o sentimento de culpa: “estou aqui, *perdendo um tempo precioso* lendo um livro de divulgação sobre biologia evolutiva, quando eu poderia estar avançando em minhas pesquisas sobre teoria política internacional”. Perdendo tempo? Será? Durante a leitura de O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, tive vários pequenos insights a respeito do que é estar no mundo e, em última análise, sobre o que é fazer política. Longe de ser perda de tempo, foi um acréscimo à minha vida acadêmica “formal” (por assim dizer). Se esses insights serão aproveitados ou não, só o tempo dirá. De qualquer maneira, ampliei um pouco mais a minha caixa de ferramentas.

Durante os anos em que estudei Matemática, fui acusado mais de uma vez – direta e indiretamente – de falta de foco. Isso me fazia sentir mal. Eu pensava que havia algum *problema* comigo, talvez algo que devesse ser tratado, para que eu conseguisse, finalmente, desenvolver a capacidade de manter o foco na ginástica mental das disciplinas da graduação e mostrasse, assim, os resultados que eram esperados dos bacharelandos em Matemática. Depressão? TDAH? Hoje posso dizer que, felizmente, nunca tive uma situação financeira confortável, que me permitisse pagar consultas com os psiquiatras da moda e comprar os remédios mais badalados nas comunidades do Orkut. Felizmente mesmo. Caso contrário, talvez hoje eu precisasse tomar ritalinas e modafinis sempre que quisesse usar o cérebro para qualquer coisa – desde fazer palavras cruzadas até estudar textos simples.

Como resolvi o problema? Simples. Explorando outras áreas, fazendo disciplinas tais como Grego, Latim e Filosofia da Linguagem e, finalmente, decidindo cursar uma segunda faculdade – Relações Internacionais – no tempo livre que eu tinha à noite. Comecei a estudar RI “para ver qual é” e optei por RI porque o curso oferecia uma diversidade enorme de disciplinas: Política, Sociologia, História, Economia, Antropologia… Assim, decidi que seria um curso bom para ampliar meus horizontes. Terminei Matemática, mas gostei tanto de RI que resolvi fazer um mestrado. Continuei gostando tanto que meu próximo passo é o doutorado. Mantive o foco, para quem vê de fora. Gosto de RI e dedico-me com vontade aos meus estudos e às minhas pesquisas. Mas continuo gostando de Física, Matemática, Filosofia e assim por diante. Continuo acompanhando o que acontece no mundo das ciências naturais. Não perdi a capacidade de sentir algo especial quando olho para o céu estrelado ou para o formato da teia de uma aranha.

Hoje em dia, está na moda dizer-se portador de algum transtorno: TOC, TDAH, depressão, esquizofrenia, bipolaridade… a lista só aumenta! Conheço gente que tem orgulho de se dizer bipolar. Só quem já passou pela experiência de conviver com um bipolar sabe que não há nenhum orgulho nisso. Só quem experimentou de leve o que é depressão sabe que ela não encerra nenhum glamour. Também conheço gente que afirma de peito em riste ser portador de TOC, em grande parte por causa do seriado Monk. Hoje, já há quem alimente o desejo secreto de ser esquizofrênico, parece que por causa de uma certa novela. Tudo isso me faz suspeitar seriamente de quem se esconde atrás de um rótulo psiquiátrico para não fazer aquilo a que se propõe. Quando a dificuldade aumenta, é natural sentir um pouco de medo. Pode-se seguir em frente, reagindo a esse medo, ou pode-se optar pelo caminho mais fácil: auto-declarar-se incapaz e ir brincar de outra coisa.

Claro, às vezes posso fazer julgamentos errados. Às vezes a pessoa pode realmente ter algum transtorno e precisar de acompanhamento médico. Cada caso é um caso, mas isso não me impede de questionar: quantos desses casos não serão produtos de uma indústria que se alimenta da proliferação de doenças imaginárias e que, para isso, conta com a fiel ajuda de sua amiga mídia? Quantos desses diagnósticos – para quem usa essa desculpa – não são dados por profissionais que, consciente ou inconscientemente, participam da reprodução desse processo?

Uma das razões para acusar alguém de falta de foco é a própria incapacidade de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Não estou usando o termo “incapacidade”, aqui, no sentido pejorativo. Há pessoas que são de Exatas, há pessoas que são de Humanas. Na maioria dos casos, quem é de Exatas enfrenta dificuldades para entender o que fazem as pessoas que são de Humanas e vice-versa. Acontece que há algumas pessoas, bem poucas por sinal, que conseguem lidar muito bem com Humanas e Exatas ao mesmo tempo. Pois bem, quem tem facilidade para se desenvolver apenas dentro de uma área costuma  não entender essas pessoas e acha mais fácil acusá-las de superficialidade ou falta de foco. Na verdade, ser polímata não é ser disperso. Tampouco significa entender apenas superficialmente vários assuntos. O polímata é aquele sujeito que consegue desenvolver com profundidade duas ou mais áreas que, para a maioria das pessoas, são inconciliáveis. Em uma era que pressiona pela especialização, é difícil aceitar que ainda há mentes renascentistas!

Muitas vezes, apanho-me a pensar em meios de conciliar minha paixão pelas ciências exatas – especialmente a Física – com o meu trabalho acadêmico em teoria de Relações Internacionais. A existência de pontes ajudaria, sem dúvida, a lidar com o sentimento de culpa que descrevi no primeiro parágrafo. Mas há uma boa dose de incompreensão, de parte de muitos acadêmicos da minha disciplina, com respeito ao que é a ciência contemporânea. O rótulo de “positivista” é aplicado, a meu ver, de maneira muito leviana. Do outro lado, os que pretendem defender um ideal científico para a disciplina baseiam-se, muitas vezes, em uma compreensão de ciência cujo prazo de validade já expirou há muito tempo.

Quantas vezes já não escutei por aí que aplicar uma abordagem científica ao estudo das sociedades humanas implica necessariamente em reducionismo e limita o pensamento crítico? Muitas vezes, isso é de fato o que acontece. O desespero por achar covering laws ou formular modelos capazes de realizar previsões com mais precisão em um ambiente extremamente complexo pode levar, sem dúvida, a uma postura reducionista. Mas o problema não está na ciência e sim, *mais uma vez*, no (mau) uso que fazem dela. Pois a própria ciência não sobrevive sem o exercício do pensamento crítico e reflexivo, sem o questionamento incessante, sem a curiosidade e o ceticismo que encontramos em mestres como Richard Feynman ou Carl Sagan. Por que uma dada interpretação deve ser considerada como definitiva? Sempre é possível questionar mais e mais e mais! Não é necessário parar! Não é necessário estabelecer, arbitrariamente, um ponto de partida. Sempre pode-se fazer mais perguntas e refletir sobre as respostas existentes: por que tais respostas parecem confortáveis e para quem elas proporcionam conforto? Quais são os ideais e as ideologias favorecidas por essas respostas? Há mais pontos de vista que podem ser levados em consideração? Quais são as consequências de aceitar essas respostas e, com elas, a autoridade de quem as formulou? A prática científica, ao contrário do que reza o senso comum, enriquece-se quando o pesquisador leva em consideração a historicidade e a contingência.

Pontes são importantes, mas não fundamentais. Relendo Surely you’re joking, Mr. Feynman!, um livro que traz vários episódios sobre a vida de Richard Feynman, aprendi que ele tinha uma curiosidade insaciável. Feynman foi um dos maiores físicos do século XX (na minha opinião, “o” maior de todos). Porém ele nunca manteve uma postura ascética com respeito à Física e a sua curiosidade o levou a investigar um pouco em Biologia, a aprender sobre o comportamento de formigas, a inventar maneiras de abrir cofres e cadeados, a fazer um documentário sobre Tuva, a tocar tambores bongo e a decifrar códigos maias. Ele não tentou “juntar tudo isso” para auxiliar seu trabalho em Física. Não teve a intenção de descobrir uma relação entre os tambores bongo e a eletrodinâmica quântica, por exemplo. Ele apenas sentia prazer em fazer todas essas coisas. Ele gostava de diversificar, de ampliar incessantemente seus horizontes, de alimentar a sua curiosidade com relação a praticamente tudo. Sem dúvida, tal postura diante da vida contribuiu para o seu prêmio Nobel em Física e para a excelência que demonstrou em sua área principal. Ele nunca deixou a mente enferrujar.

Às vezes, é possível fazer grandes descobertas nas florestas que existem entre os feudos do conhecimento. Às vezes é até possível construir pontes que ligam dois ou mais feudos. Mas aprendi com Feynman que não é necessário fazer disso o objetivo da vida. O importante é manter viva a curiosidade, brincar com o conhecimento, questionar sem parar, desenvolver um ceticismo saudável, procurar novos ângulos para velhas questões e explorar aquilo que nos dá prazer. Assim, a questão não é como conciliar duas ou mais naturezas, mas sim como vivê-las ao máximo. Surely You were right, Mr. Feynman!

 

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Kiki

February 4th, 2010 Claudio Tellez 13 comments

Para mim, um gato não é apenas um gato. É um ser vivo que merece respeito. Não compartilho da ideia arrogante de que um certo criador resolveu fazer um universo enorme apenas para nós, de que tudo o que existe na natureza são apenas recursos que temos o direito de explorar ao nosso bel-prazer, por uma espécie de mandato divino. Que mandato divino é esse? Nada mais do que um meticuloso mecanismo desenhado para gerar certas estruturas de controle e de exceção – um mecanismo que garante a sobrevivência de certas ordens, mesmo apesar de grandes transformações históricas. Um mecanismo, enfim, que sobrevive às próprias mudanças na concepção de cosmos e de natureza.

A Revolução Científica, nesse sentido, não foi o início da visão antropocêntrica e da deterioração da relação entre as sociedades humanas e o restante da natureza. Claro, o surgimento de novas técnicas e mecanismos de controle forneceu todo um arsenal que resultou na instrumentalização da ciência. Mas, por trás disso tudo, há algo mais profundo. Algo que sobreviveu às transformações do século XVI e que, posteriormente, sobreviveu inclusive ao racionalismo iluminista. Esse fator mais profundo é a crença na superioridade absoluta do ser humano: seja pela capacidade racional de investigar e inventar meios de controlar a natureza, adaptando o seu meio a ele, ao invés de adaptando-se ao meio, ou seja por historinhas a respeito de uma hierarquia entre o criador e a criação, na qual o homem ocupa uma confortável – e muito conveniente – posição intermediária.

Esse antropocentrismo orienta para a utilização indiscriminada de recursos naturais. E, mesmo quando falam em “desenvolvimento sustentável”, o foco continua sendo, na maior parte das vezes, o ser humano, e não a harmonização, a busca pelo equilíbrio. Esse antropocentrismo, seja pela ideologização da razão (racionalismo), seja pela superstição religiosa (que ainda sobrevive!), tem como resultado o tratamento arrogante que damos às espécies animais não-humanas. Touradas para o prazer de um bando de ignorantes que sentem delírios quase orgásticos quando testemunham o “espetáculo” de um touro sendo massacrado lentamente na arena. Caça indiscriminada. Gorilas sendo utilizados, em regiões da África, como alvos para treinamento de guerrilheiros. Militantes estrangeiros que, no sul do Chile, no início da década de 1970, praticavam tiro ao alvo em cachorros. Tudo isso e muito mais, sem contar as atrocidades que testemunhamos em nosso cotidiano mais imediato: abandono de animais, maus tratos, imbecis degenerados que se divertem jogando milho no meio de avenidas movimentadas apenas para terem o prazer de ver um monte de pombos morrendo atropelados e assim por diante.

Isso tudo é maldade, pura e simples. É mal absoluto, por mais que torções linguísticas tentem relativizá-lo. Qualquer explição que tente eliminar ou minimizar a culpa dessas aberrações monstruosas que ocupam a  pele de humanos é pura hipocrisia. Não vou falar em natureza humana, em um elemento de maldade presente na genética de toda a nossa espécie. Isso seria uma generalização descabida. Mas não tenho dúvidas de que há um forte fator cultural e que esse fator tem sido alimentado pela concepção (que não é comum a todas as sociedades humanas) de que todos os animais foram criados para que façamos com eles o que nós desejamos, já que eles estão mais distantes de “deus” e, nós, muito convenientemente, mais próximos.

Esse antropocentrismo está na origem de muitos males. Está na afirmação de um certo tipo de subjetividade. Está no desenho de diversas instituições políticas. Está presente nas discussões contemporâneas sobre as questões ambientais. É um antropocentrismo que ganhou fundamentação teológica há muitos e muitos séculos, há milênios, e que, como um verdadeiro câncer, tem gerado metástases que passam imperceptíveis até para os defensores da separação igreja x Estado. Essa visão antropocêntrica continuará emperrando qualquer iniciativa de cooperação internacional referente aos problemas ambientais da atualidade. É uma visão que continuará fazendo vítimas inocentes por todo o mundo. Sim, é um câncer, uma doença. E se esse câncer, se essa doença tiver realmente origem em um deus vingativo que, para manifestar seu poder, resolve castigar um homem que perde a fé descontado em um bichinho inocente, fazendo um animalzinho agonizar e morrer, então esse é um deus que não merece o meu respeito. Prefiro deixar essa questão em aberto, através de um saudável agnosticismo, e concentrar-me mais na arrogância humana como a origem desse câncer.

Podemos ter racionalidade, podemos ter a capacidade de investigar sobre o mundo e a natureza, sobre as células e sobre o cosmos… Mas será que realmente *aprendemos* alguma coisa, já que continuamos repetindo um erro atrás do outro? Somos apenas mais uma espécie animal que habita este planeta. Uma espécie entre muitas. A nossa racionalidade e inventividade compensam nossa falta de força física, nossa falta de resistência ao frio e calor extremos, nossa ridícula estrutura muscular. Mas somos apenas mais uma espécie animal e, se acreditamos que somos “melhores”, bom, pelo menos que essa crença não decorra de delírios religiosos, superstições e outros contos da carochina. Temos, sim, o potencial para melhorar. Porém só o desenvolveremos quando assumirmos nossa responsabilidade, quando abandonarmos a lógica da competição a todo custo, quando tivermos uma preocupação real com a importância de harmonizar a relação entre as sociedades humanas e o ambiente natural não-humano. Isso requer cooperação, colaboração, diálogo. Isso requer abandonar os paroquialismos infantis e começar a estabelecer conversas entre as ciências humanas/sociais e as naturais. Isso requer deixar de lado intermináveis brigas epistemológicas e buscar pontos de interseção que podem dar bons frutos. Finalmente, isso requer abandonar o racionalismo ingênuo (que é uma ideologia), o cientificismo (que confere autoridade praticamente dogmática à ciência) e resgatar a razão, o ceticismo saudável, o pensamento crítico e a curiosidade investigativa.

Na segunda-feira, dia 01 de fevereiro, às 20:00h, perdi a minha gatinha Kiki. Não nego que este post tem uma forte carga emotiva, por causa do momento, mas esclareço que venho pensando nessas questões há bastante tempo. Não tenho mais a minha amiga, a minha gatinha companheira, nunca mais vou ouvir o seu miado, nunca mais vou sentir a patinha dela encostando na minha perna para pedir água ou comida. Ela se foi e, com ela, uma grande parte da minha alegria. Apesar de eu ainda não querer acreditar, sei que ela não está mais comigo. Sinto muita falta dela e sei que sempre vou sentir essa falta, esse vazio. Porque foi uma gatinha sempre muito amada, muito querida. Um certo imbecil, defensor das liberdades individuais, adepto dessa esquizofrênica auto-intitulada direita liberal-conservadora judaico-cristã, certa vez comentou em um antigo blog meu, sugerindo que uma certa instituição teria todo o “direito”, pelo princípio “sagrado” da propriedade privada, de fazer o que quisesse com os animais abandonados no campus dessa instituição (inclusive envenená-los). Esse excremento humano jamais conseguiria entender o que estou sentindo pela perda da Kiki. Porque indivíduos assim não têm a capacidade de compreender sentimentos humanos se não for através de uma lente embrutecida por ideologias perversas. Pessoas assim, que me provocam um profundo nojo, mostram apenas que não conseguem raciocinar a não ser em termos de cálculos mercadológicos e supertições religiosas atrasadas que sustentam um determinado conceito fajuto de propriedade – um conceito em nome do qual diversas atrocidades têm sido justificadas. Pessoas que tiveram seus cérebros lavados dessa maneira e que  tratam animais como meros objetos criados por um suposto deus para que façamos com eles o que bem quisermos merecem apenas o meu desprezo. Aliás, merecem coisa muito pior, mas aí entro no terreno do impublicável.

Felizmente, quero distância de gente assim, de pessoas que colocam a militância acima da investigação honesta, de pessoas que subjugam todas as formas de vida – inclusive as humanas – às dinâmicas do mercado. O mesmo se aplica aos que defendem a compatibilidade entre essas ideologias e o foco na pessoa humana, porque no fim das contas essa posição esconde (de maneira inclusive mais hipócrita) o mesmo antropocentrismo, o mesmo umbiguismo, o mesmo ideologismo superficial e barato, a mesma crença supersticiosa em que tudo o que existe tem por finalidade e por vontade divina satisfazer os desejos dos seres humanos, privilegiados hierarquicamente  em uma pretensa criação. Esclareço logo que esse  privilégio não decorre, nessas ideologias doentias, de processos de adaptação e engenhosidade ao longo de milhões de anos. Isso seria um pouco mais palatável (porém  incorreto em termos evolutivos e científicos, por misturar um juízo de valor com um processo biológico e por conferir um sentido progressivo à evolução, o que é uma distorção infeliz do darwinismo). Essa ideia antropocêntrica decorre, a meu ver principalmente, de uma complexa e elaborada teologia política.

A Kiki sempre me deu muita alegria com o jeitinho dela. Sempre foi amiga, companheira, fiel. Muito ao contrário do bando de gente falsa que conheci durante a minha vida. Prezo e respeito muito mais a Kiki e outros animais do que certos aproveitadores, falsos gurus egocêntricos e ongueiros baratos que propagam as suas ideologias de morte e perversão, enganando, mentindo, manipulando e aprimorando a falsidade e a malandragem. A malandragem e a esperteza, por sinal, são as armas dos incompetentes. Cometi muitos e muitos erros na minha vida, mas tenho certeza de ter cometido um grandioso acerto: ter aberto meus olhos a toda a podridão que essas pessoas e seus movimentos representam.

Este post está inflamado, eu sei. O momento é de dor, mas, repito, tenho ponderado sobre o que estou escrevendo há muitos meses, aliás, há alguns anos. Se escrevo só agora é porque sei que devo isso à Kiki. Devo a ela, por tudo o que ela me deu de alegria, pelo privilégio que tive por ela ter me aceitado durante sete anos. A minha homenagem à minha amada Kiki é justamente deixar claro que sempre vou me opor a toda a perversão que sustenta um determinado modo de pensar, infelizmente muito difundido ainda na atualidade. Porque a Kiki teve uma vida boa comigo, nunca deixei que lhe faltasse nada, sempre lhe dei muito carinho, muito amor. Ela foi uma gatinha muito querida, que teve um bom lar, ao invés de ter morrido espancada ou evenenada por idiotas que pensam tal como o dejeto humano que mencionei alguns parágrafos acima. Mas há muitos outros animais sofrendo maus tratos, sendo abandonados todos os dias, sendo envenenados por criminosos covardes que confiam na impunidade endêmica que caracteriza estas tristes  latitudes. Nunca vou deixar de me opor a tudo isso. Nunca vou deixar de estudar e denunciar como o processo de constituição do sujeito moderno, como a formação da modernidade política, carrega em seu bojo essa arrogância antropocêntrica que causa tanta dor e sofrimento. Eu devo isso à Kiki. Ela não foi apenas uma gata. Foi uma amiga. Uma amiga fiel e sincera. Nunca foi falsa, como muitas pessoas que se aproximam oferecendo projetos e promessas mirabolantes mas que, na verdade, destilam pura falsidade e hipocrisia por todos os poros.

Sinto saudades da Kiki. Sempre sentirei. Descanse em paz, minha amada amiguinha. Você sempre foi muito especial e sempre significará muito para mim. Aprendi muito mais com você do que com tanta gentalha metida a intelectual que serve apenas para espalhar mais podridão, morte e desespero pelo mundo. Você, Kiki, sempre foi muito melhor do que muita gente. Tenho certeza disso. Obrigado pelo privilégio de ter convivido com você por sete anos.

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Onde está a ciência?

January 28th, 2010 Claudio Tellez 1 comment
É isso o que me faz perguntar: onde está a ciência? Pelo menos na televisão, ela faz muita falta. Sinto saudades da minha infância, quando eu passava horas e horas assistindo à série Cosmos, de Carl Sagan. Ou descobrindo o oceano com Jacques Cousteau. Apesar dos recursos tecnológicos, os programas televisivos da atualidade não chegam aos pés dos programas que me fizeram gostar de ciência desde criança!
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