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Não mais do que o necessário

June 27th, 2009 Claudio Tellez 2 comments

Um de meus livros prediletos é “A Vida Intelectual”, do frei dominicano Antonin-Gilbert Sertillanges (1863-1948). Trata-se de um conjunto de conselhos e orientações dedicados ao intelectual cristão, porém seu conteúdo acrescenta valor a pessoas de todos os credos e ideologias que reconhecem, no caminho do conhecimento e da intelectualidade, a sua verdadeira vocação.

Em uma dada passagem, tratando do tema dos hábitos de leitura, Sertillanges aconselha que deve-se ler pouco. Como assim, ler pouco? Tal afirmação provoca, naturalmente, um sentimento de perplexidade. Afinal de contas, a imagem que costuma representar o intelectual é a de uma pessoa mergulhada em toneladas de livros, insaciável por conhecimento, quase um asceta.

O ponto a que Sertillanges chama a atenção é que a acumulação de conhecimento, apesar de importante, não é o principal. Pensar é mais importante do que ler. O que desejamos, afinal de contas, é produzir mais conhecimento, abrir novas perspectivas, explorar outras formas de ver e interpretar o mundo. Mais do que respostas, o intelectual é ávido por novas perguntas, por trazer à tona os questionamentos negligenciados (de maneira intencional ou não). Só que as perguntas não caem do céu, não vêm mastigadas nas páginas dos livros. Assim, se há um elemento que deve ser constante, é a crítica. É através da reflexão crítica que abre-se a possibilidade de dar som aos silêncios que existem nas entrelinhas dos textos e nos quais, sem o devido cuidado, corremos o risco de acomodar o pensamento para legitimar, às vezes sem perceber, determinadas expressões de autoridade.

Para exercitar a capacidade crítica, há que abandonar a lógica de acumulação, o desejo guloso de querer saber tudo sobre tudo e, em seu lugar, abraçar uma lógica de profundidade. Ao invés de contar a leitura em páginas por minuto, ou livros por dia, a atitude deve ser a de esmiuçar um texto cuidadosamente selecionado, dialogar o tempo todo com o autor, formular perguntas nos momentos certos e fazer anotações exaustivas (não é por acaso que os livros têm margens, mesmo quando elas não são suficientes para conter certos teoremas importantes). Meus livros, por exemplo, são repletos de marcas, anotações, símbolos herméticos, esquemas, referências a outros textos e, é claro, manchas de café.

Não se trata, na verdade, de ler “pouco”. Trata-se de ler o que for necessário para, a partir daí, produzir ideias próprias, buscando a parcimônia e o equilíbrio entre a acumulação e a produção. Assim, deve-se trabalhar sobre a matéria-prima suficiente que permita exercitar mais a atividade criativa do que o vício reprodutivo. É sábia a Lei de Balu: “Não mais do que o necessário”.

Como era a produção acadêmica dos nossos antepassados, quando não havia internet e nem tecnologias tais como a reprodução digital e a xerografia? Para utilizar alguma ideia de algum autor, uma condição prévia era ter acesso à obra. Isso implicava em um deslocamento físico e envolvia passar horas e horas em alguma biblioteca. Assim, o tempo devia ser muito bem aproveitado, para evitar a necessidade de voltar à biblioteca para trabalhar o mesmo livro. Havia, portanto, uma relação muito mais cuidadosa e orgânica com a produção intelectual. Ao mesmo tempo, os autores eram mais ousados: arriscavam dar a cara a tapas, colocar suas proprias ideias em discussão. Hoje, existe uma tendência a proteger qualquer afirmação atrás de uma verdadeira barricada de citações, como se quantidade de autores fosse critério de validade argumentativa. Ora, desde quando uma ideia é boa apenas porque uma multidão acredita nela? Isso me faz lembrar de uma certa prova de Física III, quando perdi um décimo porque intepretei a questão de maneira correta, mas a maioria da turma entendeu diferente.

Como produzo um texto atualmente? Primeiro, brota uma ideia. Nem me preocupo em explorá-la, vou logo a alguma ferramenta de busca e jogo duas ou três palavras-chave, para ver se o que pensei “faz sentido”. A seguir, faço um rápido mapeamento dos 27.892 resultados que essa ferramenta fornece em menos de 5 segundos, seleciono quinze ou vinte textos que podem servir e, após uma leitura muito rápida desse material, consigo dez autores que suportam a minha ideia. Em menos de duas horas,  produzo três parágrafos, repletos de citações e bem fechados contra críticas e contra-argumentos.

Como seria, contudo, a minha produção acadêmica sem essa muleta da internet? Para produzir os mesmos três parágrafos, eu gastaria pelo menos uma semana e duas bombinhas de asma na biblioteca, só para fazer um primeiro levantamento bibliográfico, a partir do qual eu identificaria dois ou três autores cruciais para o meu tema. Se eu tivesse a sorte de encontrar os livros nessa biblioteca e não do outro lado do mundo, gastaria pelo menos mais dois ou três dias para fazer uma leitura muito cuidadosa desse material e coletar extensas anotações. Após mais alguns dias pensando exaustivamente sobre os autores trabalhados, eu produziria meus três parágrafos, relacionando as ideias desses autores à minha própria ideia e acrescentando meus comentários e contribuições. Só que não seriam os mesmos parágrafos que faço em uma tarde de pesquisas na internet. Haveria muito mais “de mim” nesse texto e, nesse sentido, ele seria muito mais rico – apesar de conter menos referências. Seria, ao mesmo tempo, um texto muito mais aberto ao diálogo e a receber críticas. Ora, mas isso não é bom?

Claro, com o aumento progressivo da produção de conhecimento, hoje em dia precisamos ter uma base bem mais ampla a partir da qual começar a produzir. Mas há que tomar o cuidado de não sacrificar o pensamento autônomo no altar das benemesses tecnológicas. É possível aproveitar as facilidades proporcionadas pela tecnologia e pelo acesso à informação, porém sem esquecer de que elas não devem estragar o exercício da capacidade intelectual individual e, acima de tudo, não devem minar a reflexão crítica. Para tanto, é importante fazer um trabalho de reeducação, pois estamos cada vez mais acomodados nas facilidades proporcionadas pelo intenso fluxo de conhecimento e informações. Diante de uma dada pergunta de investigação, é sem dúvida importante saber o que os três ou quatro autores mais importantes sobre esse tema têm a dizer, porém mais importante ainda é colocar-se diante de uma pergunta auxiliar: “E eu, o que EU tenho a dizer sobre isso?”

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