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Archive for July, 2009

Fim das dúvidas

July 24th, 2009 Claudio Tellez No comments

Se eu ainda tinha alguma dúvida sobre o meu lugar no espectro teórico da disciplina de RI, hoje isso foi definitivamente resolvido. Depois da intervenção de Mike Shapiro durante a minha apresentação, agora sei perfeitamente onde me situo na disciplina. :-)

Notas Breves

July 22nd, 2009 Claudio Tellez No comments
As útimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Tive pouco tempo para o blogue, infelizmente. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.
1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de querer ler mais e mais antes de começar a escrever qualquer coisa…
2. … o que não significa, é claro, que devemos parar de ler. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.
3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!
4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.
5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.
6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar de uma identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.
7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam, nessa interação, são as de caráter filosófico.
8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.
9. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.
10. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.
11. O wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.

As últimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Infelizmente, tive pouco tempo para o blogue. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.

1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de quase sempre querer ler mais e mais antes de começar a colocar minhas ideias no papel…

2. … o que não significa, é claro, que devemos cortar as leituras! Há que ser seletivo e priorizar o pensamento sobre a leitura, mas isso não é a mesma coisa que ser preguiçoso. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.

3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi imediatamente o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!

4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.

5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.

6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar da minha identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha própria identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.

7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam são as de caráter filosófico. Não estou interessado em modelinhos ou em fazer contas. Já há suficientes economistas, engenheiros e calculadoras. Sempre gostei dos problemas que a Matemática coloca para o pensamento mas nunca me senti atraído pelo impulso à musculação cerebral e ao treino de habilidades quase circenses para manipular técnicas de demonstração. Há quem goste de resolver problemas, eu prefiro criá-los.

8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.

9. Detalhe: paguei USD 14,00 só para citar um trecho de Anil’s Ghost no meu paper. Explico: li o livro em português – foi publicado aqui com o título medonho de “Bandeiras Pálidas” ([ironia]tudo a ver com Anil’s Ghost, sem dúvida![/ironia]). Como seria bizarro eu mesmo traduzir o trecho em questão do português para o inglês, acabei pagando por uma edição eletrônica do original. O que eu não faço para bater no cosmopolitismo!

10. Já tenho um inimigo para a minha dissertação: o R2P.

11. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.

12. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.

13. O Wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.

Categories: Breves, Reflexões, Vida acadêmica Tags:

Além das Analogias Matemáticas

July 5th, 2009 Claudio Tellez No comments
No paper Political Sociology and the Problem of the International (Millennium, v. 35, n. 3, p. 725-739, 2007), Didier Bigo e R. B.
J. Walker exploram diversas analogias topológicas para discutir o tema das fronteiras e a distinção entre interno e externo na
vida social e política. A Topologia é uma área da matemática que estuda as propriedades dos espaços geométricos e, nesse sentido,
é mais fundamental do que a geometria, já que duas figuras geométricas diferentes podem ser indistinguíveis sob o ponto de vista
topológico. É por isso que um topólogo não consegue distinguir entre uma rosquinha e uma xícara de café (já que uma pode ser
transformada na outra de forma contínua).

No paper Political Sociology and the Problem of the International (Millennium, v. 35, n. 3, p. 725-739, 2007), Didier Bigo e R. B. J. Walker exploram diversas analogias topológicas para discutir o tema das fronteiras e a distinção entre interno e externo na vida social e política. A Topologia é uma área da matemática que estuda as propriedades dos espaços geométricos e, nesse sentido, é mais fundamental do que a geometria, já que duas figuras geométricas diferentes podem ser indistinguíveis sob o ponto de vista topológico. É por isso que um topólogo não consegue distinguir entre uma rosquinha e uma xícara de café (pois uma pode ser transformada, de forma contínua, na outra e vice-versa).

As analogias propostas por Walker e Bigo mostram que os objetos topológicos não servem somente para o deleite dos matemáticos ou para o estudo de certas questões em Cosmologia e Física Teórica. Aliás, a Topologia tem fascinado pensadores de diversas áreas. Lacan, por exemplo, utilizou superfícies topológicas para estudar processos em psicanálise e o problema da identidade e diferença. Borges, só para dar outro exemplo, insere diversas ideias matemáticas em seu conto de sabor místico “La Biblioteca de Babel”, utilizando em particular vários conceitos geométricos e topológicos na descrição das formas da Biblioteca.

A Topologia, por lidar com formas geométricas e suas transformações, leva aos limites as nossas faculdades imaginativas e presta-se para estabelecer analogias em diversas áreas do conhecimento. Contudo, é possível transcender as analogias e lidar de forma direta com diversas questões teóricas em Relações Internacionais a partir de conceitos e resultados matemáticos. A violência cartográfica e suas implicações na construção de identidades políticas, por exemplo, pode expressar-se por meio de classes de equivalência que particionam o mapa. Trata-se de uma descrição que sintetiza a essência da criação dos espaços políticos e que abre a perspectiva de utilizar o formalismo algébrico para estudar, de maneira relacional, as interações entre o Self e os Outros nas concepções da modernidade.

Grande parte da disciplina de RI ainda não saiu do balde de Newton, no sentido de que o entendimento de um espaço “sempre similar e imóvel” e um tempo que “flui de maneira equânime, sem relação com qualquer coisa externa” (nas palavras do próprio Newton) é o que sustenta uma forma específica de interpretar o mundo e de produzir conhecimento. É a descrição newtoniana do espaço e do tempo que alimenta, afinal de contas, a percepção da possibilidade de alcançar leis gerais que descrevem todo o conhecimento passado e futuro a partir do estado do sistema em um dado momento.

A visão newtoniana de espaço e de tempo, contudo, não é consensual. Para diversos povos da Mesoamérica, por exemplo, a própria cosmogonia indicava uma organização espaço-temporal ao mesmo tempo integrada e cíclica, baseada no cultivo da planta sagrada – o milho. À época dos Descobrimentos, enquanto os europeus tratavam separadamente os mapas geográficos e os calendários, os maias e astecas representavam, em seus códices, de maneira simultânea, tanto a organização do espaço quanto o seu entendimento geométrico do fluxo temporal. O códice Fejérváry-Mayer, por exemplo, descreve o tempo e o espaço em estreita relação com a economia e a organização política, através de uma cuidadosa articulação mitológico-cosmogônica em torno do milho e de outros elementos mágico-religiosos contidos no Popol Vuh – o livro sagrado.

Assim, a existência de diferentes concepções de espaço-temporalidade, ou seja, de diversos entendimentos da geometria/topologia do espaço e do tempo, representa um desafio não somente ao estudo das relações políticas e sociais entre diferentes povos, mas também à própria prática etnográfica. Para fazer uma reflexão auto-crítica a partir da perspectiva do Outro, há que transcender os pré-conceitos que informam nosso entendimento do espaço e do tempo; para superar o imaginário político da modernidade ocidental e vislumbrar, a partir de uma postura crítica, alternativas às formas vigentes de organização política, há que questionar as bases do arcabouço newtoniano-kantiano que reproduz um determinado ideal de cientificidade e que limita a imaginação teórica somente às duas possibilidades que se expressam no debate entre cosmopolitas e comunitaristas.

Para autores como Inayatullah e Blaney, essa limitação poderia ser superada questionando a “lógica das linhas retas” que sustenta o princípio moderno da soberania e o entendimento tradicional do conceito de propriedade. Para tanto, em International Relations and the Problem of Difference (2004), eles chamam a atenção para a importância de investigar concepções espaciais alternativas, baseadas na heterogeneidade, sobreposição e relatividade. Uma dessa concepções, que infelizmente não foi trabalhada pelos autores e que se opõe frontalmente à visão newtoniana predominante na disciplina de RI, aparece em Leibniz, que entendia o espaço como sendo construído a partir de situações posicionais puras e das relações entre os elementos nele contidos e o tempo como uma ordem relativa de sucessões. A partir de sua ontologia espaço-temporal relacional e de suas investigações lógico-filosóficas, Leibniz deu início ao campo da Topologia (que chamava de analysis situs) e antecipou, em mais de dois séculos, o estudo da complexidade computacional e da teoria algorítmica da informação (para mais informações a esse respeito, recomendo a palestra Leibniz, Complexity and Incompleteness, de Greg Chaitin). Trata-se, portanto, de um pensador que deveria ser mais explorado na disciplina de RI.

A Matemática tem muito a contribuir para a disciplina de RI e não pretendo esgotar o tema neste post. Já há uma utilização corriqueira de resultados da Estatística, da Teoria dos Jogos e de vários modelos baseados em equações diferenciais, porém teóricos de orientação mais crítica, preocupados com a complexidade cultural e com a importância de um tratamento mais antropológico da disciplina também podem beneficiar-se de resultados da Matemática. Aproveitar esse potencial e ir além das analogias, contudo, requer uma maior abertura, de parte dos pensadores humanísticos e sociais, para com a misteriosa gramática da Matemática, que costuma assustar muitos não-iniciados. Isso também requer lidar com a Matemática a partir de uma perspectiva mais reflexiva e menos atlética, investindo mais esforços no aprofundamento de questões filosóficas do que na resolução mecânica e repetitiva de problemas.