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Um Pedaço de Giz

August 19th, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Encontrei o rascunho de um post muito antigo sobre Matemática. Resolvi reeditá-lo e postá-lo aqui.

Há poucos dias, comentei com um amigo acerca da paixão dos matemáticos pelo giz. Eu mesmo detesto aqueles quadros brancos e as canetinhas fedorentas. Gosto mesmo é de quadros de madeira e de giz.

A sensação de segurar um pedaço de giz entre os dedos é uma das partes mais maravilhosas de ser um matemático. Certa vez, G. K. Chesterton escreveu um belo ensaio intitulado A Piece of Chalk. O giz branco, para Chesterton, é o “most exquisite and essential chalk” porque o branco “is not a mere absence of colour; it is a shining and affirmative thing”. Ele enfatiza ainda que “the chief assertion of religious morality is that white is a colour”. Chesterton não estava escrevendo para matemáticos ou sobre matemáticos; contudo, o tema do giz evoca, para quem é iniciado, um sentido de tradição e, por que não, de religiosidade.

Esse sentido de tradição e religiosidade está presente, por exemplo, na reverência com que os matemáticos se referem aos seus antepassados intelectuais. Diofanto de Alexandria foi um matemático grego do século III e muitos o consideram, sem exagero ou injustiça, o pai da Álgebra. Ele trabalhou com equações algébricas e sobre o que hoje se conhece como teoria dos números, inspirando séculos de devoção aos mistérios mais profundos da Matemática. É importante observar que Fermat escreveu seu famoso Último Teorema na margem de uma página de sua cópia da edição de Bachet (1621) da Aritmética de Diofanto. O Último Teorema de Fermat permaneceu sem demonstração até 1994, quando Andrew Wiles finalmente resolveu o problema.

A Matemática contemporânea oferece diversas áreas instigantes para a pesquisa. Em particular, considero a Geometria Diofantina um dos campos mais excitantes e desafiadores para os matemáticos da atualidade. Só para mencionar um exemplo, a conjectura de Birch–Swinnerton-Dyer sobre curvas elípticas é um dos sete Problemas do Milênio selecionados pelo Clay Mathematics Institute e sua demonstração vale um milhão de dólares, além de proporcionar a imortalidade a seu descobridor.

Desde a época dos gregos antigos, a Aritmética e a Geometria sustentam a verdadeira essência do que é belo na Matemática e seus problemas têm instigado as mentes mais prolíficas e curiosas de todos os tempos. Talvez o aspecto mais humano da aventura matemática relacione-se exatamente com a nossa curiosidade sobre os limites da razão. Os desafios que a Matemática nos coloca testam constantemente esses limites.

Para participar dessa aventura, três qualidades são imprescindíveis: curiosidade, coragem e persistência. Há que ser curioso e questionar criticamente cada passo que se dá, bem como tudo o que se lê. Ao contrário da busca por respostas, a curiosidade deve nos impelir à busca por melhores perguntas. São os questionamentos críticos que fazem a Matemática avançar. Para fazer tais questionamentos, contudo, há que ter (muita!) coragem, por duas razões: a primeira é que muitas vezes devemos colocar em dúvida resultados que aparentemente estão consolidados há séculos. As geometrias não-euclidianas não teriam surgido se matemáticos como Gauss, Lobachevsky e Riemann, entre outros, não tivessem questionado a “autoridade”. A segunda razão é que as questões realmente difíceis, que são as mais instigantes, podem consumir anos e anos de nossas vidas, sem nenhuma garantia de que conseguiremos algum resultado. É por isso, aliás, que a terceira qualidade essencial é a persistência diante das dificuldades (que são muitas).

Além dessas qualidades, é importante reconhecer o trabalho dos que vieram antes de nós, pois é isso o que nos faz sentir parte de algo. Nesse sentido, segurar um pedaço de giz entre os dedos também ajuda.

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