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Archive for October, 2009

Uma nota longa

October 1st, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Começarei esta reflexão contando uma pequena história.

Eu estava dentro de um ônibus, esperando o motorista chegar, sem nada para ler. O ar condicionado estava ligado, as janelas obviamente estavam fechadas e, de repente, uma borboleta entrou pela porta.

Logo depois, uma criança entrou no ônibus, seguida pela mãe. Ao passar pela roleta, exclamou: “Olha, mãe, uma borboleta! Vou lá matar!”

Senti imediatamente a raiva se acumulando, em um ponto logo abaixo do meu umbigo.

Assim que o moleque passou por mim, falei bem alto: “Ô garoto, essa borboleta te fez alguma coisa por acaso?”

Ele não respondeu. Mas a mãe saiu em sua defesa: “Olha, ninguém merece uma borboleta dentro do ônibus.”

Ao que respondi imediatamente: “É? E ela vai fazer o quê, vai te picar por acaso?”

A mulher ficou sem graça e apanhou a borboleta, tentando ser cuidadosa. Ela me entregou o inseto, murmurando que seria impossível tirá-lo de lá.

Fui até o cobrador, expliquei a situação e ele abriu um pouco a sua janela. Problema resolvido. Podia ter acabado aí. Mas as pessoas dificilmente aproveitam as oportunidades de manter a boca fechada. Logo que voltei para o meu lugar, a mulher resolveu comentar: “Não precisava disso tudo, que besteira.”

Olhei para ela e respondi: “Olha, se uma pessoa não aprende a respeitar a vida enquanto ainda é criança, depois vira bandido e não sabe por que.”

Nesse momento, todas as pessoas começaram a olhar para a cara dela. Eu fiquei apenas sentado e comecei a olhar pela janela. Não aconteceu mais nada.

***

Por que agi assim? Talvez pelo peso das circunstâncias. Ou por estar questionando, à luz da minha vida presente, escolhas que fiz no passado. Como pode uma cultura que verdadeiramente valoriza a vida, em todas as suas formas, levar ao vazio moral, ao relativismo e ao niilismo? Tal acusação acaso não parte de uma outra cultura, que arroga ao ser humano o direito – por mandato divino – de vida e morte sobre todas as criaturas? Por acaso o cultivo da tolerância implica necessariamente no relativismo, enquanto a imposição de uma única forma legítima de pensamento representa o único caminho válido para a “salvação”?

Seria fácil atribuir determinadas posturas e preconceitos à pura e simples ignorância. Contudo, tais posturas e preconceitos derivam de elementos culturais e de interpretações morais que sustentam ordenamentos políticos, que legitimam práticas, que demarcam – em nome de um certo ideal de civilização – as fronteiras de uma humanidade comum, a partir da imediata definição de quem não merece pertencer a tal humanidade.

Claro, as fronteiras dessa “humanidade” abrigam tanto os justos quanto os que se divertem praticando tiro ao alvo em uma cadela, tanto as pessoas que trabalham para o bem de sua família quanto o meliante que atira em um bebê. São apenas exemplos isolados, estou ciente disso, mas é a partir da acomodação de diversas contradições internas que uma certa visão do mundo e do ser humano consegue perpetuar-se. Dessa maneira, os exemplos citados, assim como muitos outros, passam a fazer parte de algo maior, passam a refletir problemas muito mais profundos.

Felizmente, sempre é tempo de mudar, de querer retornar ao centro, de procurar o equilíbrio entre a força e a suavidade e de perceber que nunca estamos fora do tempo e do contexto. Sempre é tempo de admitir os próprios erros, tirar a venda dos olhos e voltar a buscar a perfeição em tudo o que fazemos. Sempre é tempo de não desistir e de não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.

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Mais notas breves

October 1st, 2009 Claudio Tellez 2 comments

As últimas semanas têm sido atribuladas. Para resumir:

1. Mudei mais uma vez. Estou cansado disso. O lado bom é que, se nada mais der certo, posso abrir uma empresa de mudanças.

2. Estou na metade da dissertação, porém o prazo é curto. Pretendo fechar o segundo capítulo nos próximos dias.

3. O início da modernidade é, de fato, um período fascinante para quem tem inclinações teóricas.

4. Estou relendo Musashi.

5. Estou trabalhando o meu pessimismo, mas acho que não vou conseguir.

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