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Leituras e traduções

December 16th, 2009 Claudio Tellez No comments

O lado ruim de estar de férias é a tendência a desordenar as leituras. Tenho aproveitado, é claro, para ler algumas coisas de ficção. Para mim, livros de ficção são, de certa forma, livros de trabalho (devido à minha inclinação para a estética como um caminho para a teoria de RI). Porém escolher livros a esmo não traz bons resultados.

Estou terminando de reler Scientific Man and Power Politics, de Hans J. Morgenthau. Para mim, é o melhor livro de Morgenthau. Pretendo fazer uma breve resenha e postar no blog assim que terminar. Ao mesmo tempo, resolvi ler alguns manuais de metodologia (Asti Vera, Domingos Salvador e Umberto Eco), já que estou entrando no clima do publish or perish. Pretendo reler Sertillanges (sempre inspirador e, apesar da inclinação espiritual, reflete o lado espartano da vida intelectual, algo que me agrada) e estou atrás de um livro de Fernand van Steenberghen, intitulado (em francês) Directives pour la confection d’une monographie scientifique avec applications concrètes aux recherches sur la philosophie médiévale. A biblioteca da PUC tem somente outros livros desse autor, todos localizados no maldito depósito externo.

Estou penando para ler O Número de Deus, de José Luis Corral, porém estou convencido de que o problema não é o autor, e sim a tradução. Li outras coisas de Corral, em espanhol, e é um autor bastante agradável. Contudo, a versão brasileira publicada pela Relume Dumará está cansativa e muito travada, não flui. Pode ser birra da minha parte, já que o espanhol é a minha língua nativa e raramente – muito raramente mesmo – leio autores hispânicos em português. Só no caso de absoluta e total falta de acesso ao original, o que, infelizmente, é o caso.

Sempre penso no problema das traduções. Umberto Eco e Asti Vera são bem claros quanto à importância de trabalhar com os autores em suas línguas originais. Pode-se objetar que tal postura limita enormemente a quantidade de autores aos quais temos acesso. Não tenho dúvidas quanto a isso, porém não se trata de abarcar todo o conhecimento universal, e sim de trabalhar com alguma área específica. Assim, o especialista em filosofia antiga não tem muita escolha e o aprendizado do grego é parte importante de sua formação. Quem deseja trabalhar com o pensamento árabe medieval não tem como escapar da língua árabe. A alternativa não representa a ingênua comodidade de lidar com as traduções dos estudiosos consagrados; representa a limitação de ter que trabalhar com as *interpretações* de tais estudiosos. Assim, se o autor X é considerado o “melhor” tradutor de Platão, a ideia não é ter a pretensão de dominar o grego melhor do que ele; trata-se de ter consciência de que toda tradução é, também, uma interpretação e, portanto, envolve escolhas, contextos, idiossincrasias e inclinações. X pode ser considerado o “melhor” tradutor, porém isso não faz dele, necessariamente, o mais adequado para alguma finalidade específica do trabalho investigativo.

Claro, se o objetivo não é mergulhar na profundidade de um determinado assunto ou autor, mas sim obter um verniz de cultura, aí sim não há necessidade alguma de dedicar-se ao aprendizado de outras línguas. Também não há necessidade de “perder tempo” lendo as obras dos autores (mesmo traduzidas). Os livros de bolso, como aqueles da coleção de autores em 90 minutos, são suficientes.

O ponto não é dominar as outras línguas com a profundidade de um filólogo. Trata-se de ter um conhecimento instrumental suficiente que permita, com o auxílio de um bom dicionário, trabalhar com os originais. Os tradutores consagrados e os principais comentadores não são, de forma alguma, dispensáveis. O estudioso deve trabalhar com esse material, porém o contato com as fontes originais é fundamental. Neste aspecto, estou de acordo com Bernard Lonergan, que deixa bem clara a importância de, no trabalho hermenêutico, aprender a língua do texto que se pretende interpretar. É claro que alguns textos praticamente não exigem esforço hermenêutico – Lonergan recorre ao exemplo dos Elementos de Euclides, uma obra cujas dificuldades de compreensão residem mais no leitor do que na obra em si. Textos bíblicos, por outro lado, mesmo que utilizem uma linguagem bem mais simples do que Euclides, representam um manancial inesgotável de interpretações, muitas delas contraditórias. Basta passear pelas estantes de qualquer biblioteca de Teologia para dar-se conta da quantidade de livros dedicados aos mais diversos pontos de vista sobre os Evangelhos.

Ao lado dos textos bíblicos, que são a maior preocupação para Lonergan, acrescento que a maior parte das obras filosóficas exigem um esforço hermenêutico. Dessa maneira, o trabalho com a língua original torna-se necessário. Diante da objeção de que o aprendizado de uma língua nova significa perder um tempo que poderia ser aproveitado com outras leituras, pode-se responder que: (1) não se trata de aprender a língua com finalidades comunicativas; o objetivo não é falar e escrever em alemão, ou grego, ou latim, mas sim obter o conhecimento gramatical mínimo e saber trabalhar com as ferramentas necessárias para ter acesso aos textos; (2) o aprendizado de uma língua específica representa um enriquecimento cultural e, nesse sentido, não constitui perda de tempo; (3) abdicar do estudo da língua e “aproveitar o tempo” para ler mais traduções significa uma perda de tempo maior ainda, porque fazer um trabalho medíocre e incompleto, isso sim é desperdiçar esforço intelectual; (4) depois do “General Will”, minha namorada não confia mais em traduções.

A ideia de que servir-se de um bom tradutor é suficiente reflete a visão ingênua de que a linguagem é apenas um meio, um instrumento transparente, que realiza a mediação entre o leitor e o conteúdo do texto. Afirmar que a ideia é a mesma, independente da linguagem em que ela se expressa, satisfaz apenas superficialmente. Há uma relação mais delicada entre a linguagem e o contexto cultural, entre a linguagem e a estruturação do pensamento do autor. Isso se perde quando lida-se com relações de equivalência entre as linguagens. Desconsiderar/desprezar a relação linguagem-lógica-cultura, a partir da ideia de que há apenas um padrão válido de raciocínio e da crença na instrumentalidade da linguagem é manifestar etnocentrismo cognitivo.

Pode-se objetar que, por mais que nos dediquemos ao aprendizado da outra língua, isso não significa aprender a pensar em outra cultura. É verdade. Porém permite ter uma proximidade maior com essa outra cultura, o que já é uma vantagem. Além disso, mesmo que a *nossa* tradução seja apenas *mais uma* tradução, mesmo que ela seja infinitamente inferior às traduções dos estudiosos consagrados, ela apresenta outra vantagem: foi realizada tendo em mente o *nosso objetivo específico*. Nesse aspecto, ela é infinitamente superior mesmo às traduções mais reverenciadas e sacramentadas.

Concluindo, se o objetivo é realmente dominar um determinado assunto, não há lugar para a preguiça. A busca por atalhos pode ser um hábito cultural, a lei do menor esforço pode satisfazer ao utilitarista enrustido, porém ad astra per aspera ainda é o único lema que deve orientar quem pretende dedicar-se à vida intelectual.

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