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So Don’t Stop

January 24th, 2010 Claudio Tellez 1 comment

Sempre defendi que não há, necessariamente, oposição entre ciência e religião. Afinal de contas, são campos que geralmente (mas não sempre) lidam com temas e questionamentos diferentes. Além disso, as abordagens do cientista e do religioso são distintas. Não é meu objetivo levar esta discussão para o terreno filosófico e para os debates sobre os tipos de conhecimento. É prático – e também muito confortável – simplesmente concordar com Mario Bunge e acreditar na existência de fronteiras entre ciência, religião, arte e assim por diante. Confortável, mas não por isso correto, ainda mais sob o ponto de vista do desenvolvimento histórico das disciplinas e áreas de atividade do ser humano. Ademais, é tentador transformar essa praticidade e conforto em um mecanismo especioso para blindar argumentações. Voltarei a esse tema em um próximo texto.

Hoje, meu objetivo é apenas refletir um pouco sobre o tema sempre polêmico do confronto entre fé e ciência, ou entre ciência e religião. Continuo defendendo, com certas ressalvas, que não há *necessariamente* uma oposição. Porém há certas questões que chamam a atenção tanto de cientistas quanto de religiosos e, sobre essas questões, muitas vezes as abordagens de uns e de outros são criticadas mutuamente. Assim, se considero abominável que ainda haja pessoas tentando impedir o ensino da ciência em escolas, também não me agrada a posição dos que acreditam que a ciência tem por função combater a superstição religiosa. Uma atitude mais razoável para o homem de ciência seria, em todo caso, investigar por que há sentimentos ou experiências religiosas, e que funções esses fenômenos desempenham nos indivíduos e populações.  Qual é, por exemplo, o papel que a religiosidade exerce no equilíbrio entre conflito e cooperação, no estudo da política e da sociedade?

Considero de um otimismo exagerado afirmar que a razão humana não possui limites. Além dos fatores históricos e culturais que condicionam modos de pensar e de argumentar, seria precipitado negar a existência de assuntos que ultrapassam nossas capacidades cognitivas. Dizer que não se crê em uma determinada coisa porque não há evidências levanta, de imediato, duas questões: o que constitui uma evidência e o que significa crer. Pode-se recorrer a crenças para suprir nossas deficiências a respeito do que ainda não pode ser demonstrado ou conhecido por outros meios. Ou pode-se admitir crer em alguma coisa após a satisfação de certas condições. O verbo acreditar encerra, portanto, ambiguidades. Uns podem resguardar-se na crença após o reconhecimento humilde da transcendência e dos limites da razão humana. Outros podem afirmar que só acreditam naquilo que é sustentado por evidências empíricas. A palavra “crença” carrega um sentido distinto quando se trata do religioso que acredita na necessidade da existência de um deus criador para o universo, do cientista que acredita na validade da lei newtoniana da gravidade (nas condições adequadas) ou do matemático que acredita na verdade eterna e imutável do teorema de Pitágoras.

Mesmo que a razão humana não tenha alcance infinito, uma coisa é reconhecer os limites do intelecto humano e outra coisa bem distinta – para não dizer conveniente – é afirmar saber quais são e onde estão esses limites. Afirmar que, a partir de um certo ponto, certos questionamentos ultrapassam o alcance da ciência e passam a pertencer exclusivamente ao domínio da religião constitui um ato de autoridade e uma expressão de arrogância. Assim, se é ingênua a postura do indivíduo que ideologiza a ciência, conferindo-lhe poderes espetaculares e a capacidade de responder a todas as perguntas formuladas e por formular, por sua vez o polemista religioso, que apela a um suposto mandato divino para defender que certas indagações não devem ser permitidas aos cientistas, expressa, no mínimo, ignorância. Trata-se de ignorância tanto no sentido de ausência de conhecimento, quanto como a tentativa de impor uma vontade pela força bruta. Ambos os sentidos da ignorância estão presentes, por exemplo, nas tentativas de proibir o ensino da evolução em certos estados norte-americanos.

Qual é a origem do universo? Essa questão é legítima tanto do ponto de vista científico quanto para o homem que segue uma religião. Porém o cientista, diante da indagação de se conseguiremos ou não responder a essa questão, por mais otimista que seja, não pode afirmar que possui uma resposta definitiva. Pode acreditar que algum dia chegará a saber  - porém trata-se novamente de uma crença, ou melhor, de uma esperança. Através dos avanços na Física e na Cosmologia, podemos aprender cada vez mais sobre a origem do universo, podemos nos aproximar (assintoticamente) da verdade. Atingiremos uma resposta definitiva e absoluta, sem ser através de uma postura dogmática? Dificilmente. Alcançaremos uma verdade científica que esteja acima de qualquer dúvida razoável? Isso é mais plausível.

Por outro lado, diante de uma questão de tal magnitude, podemos nos ver tentados a admitir a necessidade de um ponto de partida bem definido, sem o qual não teríamos uma razão suficiente para parar. Leibniz deparou-se com esse problema e, segundo Ann Druyan, logo abaixo dessa citação de Leibniz, Carl Sagan escreveu: “So don’t stop”.

Diante da imensidão de certas questões, podemos ver-nos tentados a parar e assumir que atingimos o limite de nossas capacidades. Mas como saber se realmente esse é o limite? Como saber se daqui a um, dez ou cinquenta anos não teremos instrumentos (materiais ou não) que possam nos levar um passo mais à frente? Considero mais importante concentrar os esforços na direção de possibilitar esse passo do que gastar energia tentando provar a existência ou inexistência de deus. Pessoalmente, considero mais frutífero investigar por que os seres humanos alimentam crenças e como tais crenças estabelecem relações com outros domínios – tais como a cultura, a política e a sociedade. Considero mais instigante tentar elucidar como e por que determinadas crenças impactam no desenvolvimento de certos sistemas políticos e de modos particulares de relacionamento entre povos distintos. Qual é a origem da crença em um sentido progressivo para a humanidade, da barbárie para a civilização, e como tal crença repercutiu no desenvolvimento do internacional moderno? Que lugar o mito antropocêntrico alimentado por certas religiões, que sustentam a definição e constituição de certas identidades, ocupa nas relações entre as sociedades humanas e a natureza? Como esse mesmo mito atropocêntrico contribui para a afirmação de um determinado entendimento da política? Quais são as implicações éticas desses e de outros questionamentos?

Em certa medida, os problemas que residem na interseção entre ciência, religião e filosofia nos remetem ao foro íntimo. Carl Sagan – um dos maiores defensores do conhecimento científico e um dos principais críticos dos defensores de crenças não-examinadas – afirmava que gostaria que houvesse vida após a morte, para ter a chance de continuar aprendendo e descobrindo. Sagan, em seu ceticismo saudável, sabia que não podia simplesmente descartar a possibilidade de vida após a morte. Mas o fato de que ele gostaria que houvesse essa vida é uma postura pessoal. Outras pessoas posicionam-se de maneira diferente diante desse mesmo assunto. Por exemplo, no momento a possibilidade de vida após a morte causa-me mais angústia do que conforto, pois não me agrada a ideia de ter uma consciência sobrevivente martirizando-se sobre a que acontece ou deixa de acontecer na minha ausência. Mas trata-se de uma preferência totalmente pessoal e contingente, decorrente de uma série de experiências e vivências particulares, e que talvez um dia possa vir a mudar. É uma preferência, não uma crença. Não sei e não tenho como saber o que acontece após a morte, porém, enquanto estiver vivo, diante de todos os questionamentos que me instigam a pesquisar, pretendo seguir apaixonadamente a diretriz de Sagan. I won’t stop.

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