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Surely You were right, Mr. Feynman!

February 20th, 2010 Claudio Tellez No comments

Como conciliar duas ou mais naturezas? O problema da polimatia é que, muitas vezes, somos tentados a querer construir pontes ao invés de simplesmente apreciar a beleza de cada área em separado. O que importa, no fim das contas, é o prazer que vem da curiosidade, a irreverência de brincar com o conhecimento, a vontade de aprender sempre um pouco mais. Mas a dificuldade reside em saber lidar com o sentimento de culpa: “estou aqui, *perdendo um tempo precioso* lendo um livro de divulgação sobre biologia evolutiva, quando eu poderia estar avançando em minhas pesquisas sobre teoria política internacional”. Perdendo tempo? Será? Durante a leitura de O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, tive vários pequenos insights a respeito do que é estar no mundo e, em última análise, sobre o que é fazer política. Longe de ser perda de tempo, foi um acréscimo à minha vida acadêmica “formal” (por assim dizer). Se esses insights serão aproveitados ou não, só o tempo dirá. De qualquer maneira, ampliei um pouco mais a minha caixa de ferramentas.

Durante os anos em que estudei Matemática, fui acusado mais de uma vez – direta e indiretamente – de falta de foco. Isso me fazia sentir mal. Eu pensava que havia algum *problema* comigo, talvez algo que devesse ser tratado, para que eu conseguisse, finalmente, desenvolver a capacidade de manter o foco na ginástica mental das disciplinas da graduação e mostrasse, assim, os resultados que eram esperados dos bacharelandos em Matemática. Depressão? TDAH? Hoje posso dizer que, felizmente, nunca tive uma situação financeira confortável, que me permitisse pagar consultas com os psiquiatras da moda e comprar os remédios mais badalados nas comunidades do Orkut. Felizmente mesmo. Caso contrário, talvez hoje eu precisasse tomar ritalinas e modafinis sempre que quisesse usar o cérebro para qualquer coisa – desde fazer palavras cruzadas até estudar textos simples.

Como resolvi o problema? Simples. Explorando outras áreas, fazendo disciplinas tais como Grego, Latim e Filosofia da Linguagem e, finalmente, decidindo cursar uma segunda faculdade – Relações Internacionais – no tempo livre que eu tinha à noite. Comecei a estudar RI “para ver qual é” e optei por RI porque o curso oferecia uma diversidade enorme de disciplinas: Política, Sociologia, História, Economia, Antropologia… Assim, decidi que seria um curso bom para ampliar meus horizontes. Terminei Matemática, mas gostei tanto de RI que resolvi fazer um mestrado. Continuei gostando tanto que meu próximo passo é o doutorado. Mantive o foco, para quem vê de fora. Gosto de RI e dedico-me com vontade aos meus estudos e às minhas pesquisas. Mas continuo gostando de Física, Matemática, Filosofia e assim por diante. Continuo acompanhando o que acontece no mundo das ciências naturais. Não perdi a capacidade de sentir algo especial quando olho para o céu estrelado ou para o formato da teia de uma aranha.

Hoje em dia, está na moda dizer-se portador de algum transtorno: TOC, TDAH, depressão, esquizofrenia, bipolaridade… a lista só aumenta! Conheço gente que tem orgulho de se dizer bipolar. Só quem já passou pela experiência de conviver com um bipolar sabe que não há nenhum orgulho nisso. Só quem experimentou de leve o que é depressão sabe que ela não encerra nenhum glamour. Também conheço gente que afirma de peito em riste ser portador de TOC, em grande parte por causa do seriado Monk. Hoje, já há quem alimente o desejo secreto de ser esquizofrênico, parece que por causa de uma certa novela. Tudo isso me faz suspeitar seriamente de quem se esconde atrás de um rótulo psiquiátrico para não fazer aquilo a que se propõe. Quando a dificuldade aumenta, é natural sentir um pouco de medo. Pode-se seguir em frente, reagindo a esse medo, ou pode-se optar pelo caminho mais fácil: auto-declarar-se incapaz e ir brincar de outra coisa.

Claro, às vezes posso fazer julgamentos errados. Às vezes a pessoa pode realmente ter algum transtorno e precisar de acompanhamento médico. Cada caso é um caso, mas isso não me impede de questionar: quantos desses casos não serão produtos de uma indústria que se alimenta da proliferação de doenças imaginárias e que, para isso, conta com a fiel ajuda de sua amiga mídia? Quantos desses diagnósticos – para quem usa essa desculpa – não são dados por profissionais que, consciente ou inconscientemente, participam da reprodução desse processo?

Uma das razões para acusar alguém de falta de foco é a própria incapacidade de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Não estou usando o termo “incapacidade”, aqui, no sentido pejorativo. Há pessoas que são de Exatas, há pessoas que são de Humanas. Na maioria dos casos, quem é de Exatas enfrenta dificuldades para entender o que fazem as pessoas que são de Humanas e vice-versa. Acontece que há algumas pessoas, bem poucas por sinal, que conseguem lidar muito bem com Humanas e Exatas ao mesmo tempo. Pois bem, quem tem facilidade para se desenvolver apenas dentro de uma área costuma  não entender essas pessoas e acha mais fácil acusá-las de superficialidade ou falta de foco. Na verdade, ser polímata não é ser disperso. Tampouco significa entender apenas superficialmente vários assuntos. O polímata é aquele sujeito que consegue desenvolver com profundidade duas ou mais áreas que, para a maioria das pessoas, são inconciliáveis. Em uma era que pressiona pela especialização, é difícil aceitar que ainda há mentes renascentistas!

Muitas vezes, apanho-me a pensar em meios de conciliar minha paixão pelas ciências exatas – especialmente a Física – com o meu trabalho acadêmico em teoria de Relações Internacionais. A existência de pontes ajudaria, sem dúvida, a lidar com o sentimento de culpa que descrevi no primeiro parágrafo. Mas há uma boa dose de incompreensão, de parte de muitos acadêmicos da minha disciplina, com respeito ao que é a ciência contemporânea. O rótulo de “positivista” é aplicado, a meu ver, de maneira muito leviana. Do outro lado, os que pretendem defender um ideal científico para a disciplina baseiam-se, muitas vezes, em uma compreensão de ciência cujo prazo de validade já expirou há muito tempo.

Quantas vezes já não escutei por aí que aplicar uma abordagem científica ao estudo das sociedades humanas implica necessariamente em reducionismo e limita o pensamento crítico? Muitas vezes, isso é de fato o que acontece. O desespero por achar covering laws ou formular modelos capazes de realizar previsões com mais precisão em um ambiente extremamente complexo pode levar, sem dúvida, a uma postura reducionista. Mas o problema não está na ciência e sim, *mais uma vez*, no (mau) uso que fazem dela. Pois a própria ciência não sobrevive sem o exercício do pensamento crítico e reflexivo, sem o questionamento incessante, sem a curiosidade e o ceticismo que encontramos em mestres como Richard Feynman ou Carl Sagan. Por que uma dada interpretação deve ser considerada como definitiva? Sempre é possível questionar mais e mais e mais! Não é necessário parar! Não é necessário estabelecer, arbitrariamente, um ponto de partida. Sempre pode-se fazer mais perguntas e refletir sobre as respostas existentes: por que tais respostas parecem confortáveis e para quem elas proporcionam conforto? Quais são os ideais e as ideologias favorecidas por essas respostas? Há mais pontos de vista que podem ser levados em consideração? Quais são as consequências de aceitar essas respostas e, com elas, a autoridade de quem as formulou? A prática científica, ao contrário do que reza o senso comum, enriquece-se quando o pesquisador leva em consideração a historicidade e a contingência.

Pontes são importantes, mas não fundamentais. Relendo Surely you’re joking, Mr. Feynman!, um livro que traz vários episódios sobre a vida de Richard Feynman, aprendi que ele tinha uma curiosidade insaciável. Feynman foi um dos maiores físicos do século XX (na minha opinião, “o” maior de todos). Porém ele nunca manteve uma postura ascética com respeito à Física e a sua curiosidade o levou a investigar um pouco em Biologia, a aprender sobre o comportamento de formigas, a inventar maneiras de abrir cofres e cadeados, a fazer um documentário sobre Tuva, a tocar tambores bongo e a decifrar códigos maias. Ele não tentou “juntar tudo isso” para auxiliar seu trabalho em Física. Não teve a intenção de descobrir uma relação entre os tambores bongo e a eletrodinâmica quântica, por exemplo. Ele apenas sentia prazer em fazer todas essas coisas. Ele gostava de diversificar, de ampliar incessantemente seus horizontes, de alimentar a sua curiosidade com relação a praticamente tudo. Sem dúvida, tal postura diante da vida contribuiu para o seu prêmio Nobel em Física e para a excelência que demonstrou em sua área principal. Ele nunca deixou a mente enferrujar.

Às vezes, é possível fazer grandes descobertas nas florestas que existem entre os feudos do conhecimento. Às vezes é até possível construir pontes que ligam dois ou mais feudos. Mas aprendi com Feynman que não é necessário fazer disso o objetivo da vida. O importante é manter viva a curiosidade, brincar com o conhecimento, questionar sem parar, desenvolver um ceticismo saudável, procurar novos ângulos para velhas questões e explorar aquilo que nos dá prazer. Assim, a questão não é como conciliar duas ou mais naturezas, mas sim como vivê-las ao máximo. Surely You were right, Mr. Feynman!

 

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