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Confissões

Tenho uma camiseta muito antiga, com os dizeres: “O que é um rebelde? Um homem que sabe dizer não”. A frase é de Albert Camus. Na época em que comprei essa camiseta, eu apenas curtia Camus e adorei a frase. Não precisei analisar nada e nem situar Camus nos debates intelectuais de sua época. Eu conhecia Camus, mas apenas achei a camiseta legal, com um desenho de um camelo e essa citação.

Às vezes, criamos complicações onde elas não existem. Ficamos sérios demais, procurando sempre mais profundidade em coisas cujo verdadeiro significado, às vezes, está na superfície, bem diante de nossos olhos. Há que saber, é claro, exercitar o pensamento. Mas também há que exercitar outras formas de intelecção que transcendem o limiar do racional. O ato da apreensão estética exige abrir a imaginação, deixar a criatividade correr solta. Exige, enfim, aproveitar o que se faz pelo momento em si e não pelas inúmeras interpretações inteligentes possíveis.

É através do desprendimento da mera razão que conseguimos atualizar, na consciência, os significados mais sutis e mais importantes das coisas que nos cercam. O conhecimento racional é apenas uma segunda etapa que depende totalmente do sucesso da primeira, aquela etapa na qual nossos sentidos são simplesmente impregnados de formas, sons e cores. Contudo, para aproveitar intensamente a primeira etapa, devemos estar orientados não a “conhecer” racionalmente, mas apenas a sentir, a contemplar e a aproveitar as coisas da vida apenas pelo que elas são, e não pelo que desejamos enquadrar em nossas categorias de pensamento.

Na contemplação serena, não é o intelecto que se move; ele é movido, é tocado. O mundo dos debates e das disputas cria uma necessidade artificial de afirmação e de superação, como se tudo se resumisse ao desenvolvimento de técnicas mais precisas e adequadas para a afirmação de um determinado ponto de vista em detrimento de outros que também têm, em si e por si, o seu valor. Admitir esse valor, abandonando o afã de impor ao Outro o que somos e o que pensamos, é uma forma de reconhecer o Outro. Nem tudo é cálculo e é na tecnicidade do pensamento calculativo que destruímos, aos poucos, a capacidade de contemplar serenamente o Outro que diante de nós se desdobra com suas próprias percepções, experiências, modos de sentir e de existir. O vício do pensamento racional-técnico-calculativo nos afasta não somente da experiência enriquecedora do con-viver com o Outro; ele também nos afasta de nossa própria identidade, termina por tornar-nos mais mecânicos, mais frios, mais distantes da própria essência que nos define; passamos, assim, a menosprezar as pequenas coisas que carregam, em si, os maiores significados.

Essa é uma das razões para que eu tenha me afastado do mundo das polêmicas. A outra razão é que não consigo compactuar com a desonestidade de pessoas que, em nome de um ideal revestido com um verniz de justiça e liberdade, na verdade avançam projetos de exaltação de um tipo de individualidade moderna que só sobrevive mediante o distanciamento e a caracterização do externo como inimigo a ser controlado ou, no fracasso do controle, simplesmente eliminado. O controle e a exceção são subjacentes aos discursos que prometem virtude e liberdade. São promessas vazias, que escondem meios de imposição e de dominação, através de uma progressiva e virulenta colonização moral.

Afastei-me das polêmicas porque elas estavam me fazendo mal, matando quem eu realmente sou. Aqui, recordo Deleuze: “Every time someone puts an objection to me, I want to say: ‘OK, OK, let’s go on to something else.’ Objections have never contributed anything.” Não há sentido na disputa se o objetivo não é o enriquecimento mútuo. Esse objetivo, contudo, é impossível quando um dos lados aferra-se a uma visão monolítica do mundo e das coisas, amparando-se em uma suposta autoridade dotada de validade universal.

Quando procuramos nos resgatar e nos reencontrar, às vezes encontramos coisas que não queremos ver. Porém é um processo importante se queremos não mais deixar de lado tudo o que é realmente importante. A música, por exemplo, sempre esteve presente na minha vida. Porém, concentrado demais em procurar a perfeição em tudo o que faço, parei de me divertir com a música e comecei a buscar apenas o aprimoramento da técnica. O violão não é só violão erudito; é o violão que anima danças, cantos e festas. Quero continuar tocando música clássica, claro, mas porque eu GOSTO e não porque quero ser tecnicamente perfeito. Quero me divertir também, apenas contemplar, relaxar na serenidade, curtir as músicas pelo que elas são e curtir outras músicas também. O mesmo vale para tudo na vida. Por mais que as vicissitudes da vida nos endureçam, nem tudo pode ser seriedade e trabalho. As vicissitudes são inevitáveis, há que enfrentá-las, mas não podemos fazer da vida um eterno exercício de resolução de problemas. Nem tudo é sério, nem tudo é analisável. O mais importante é o que pede apenas contemplação serena. Nunca mais esquecerei disso.

Agora sei que quem eu sou na verdade nunca morreu. Entusiasmei-me pelas coisas erradas, gastei anos e muita energia produzindo para quem me seduziu através de discursos que falavam de virtude, de liberdade e de valores universais e perenes. Deixei-me colonizar por tantas mentiras e falsidades que cheguei até a esquecer, durante muito tempo, de quem eu realmente sou e das coisas que realmente são importantes para mim. Há dez anos, eu escrevia colocando no papel como eu realmente via o mundo e como eu me sentia com relação às coisas que causam indignação e revolta a qualquer ser humano que tenha um mínimo de sensibilidade. Claro, eu era mais solto, mais relaxado, não tinha tantas preocupações e responsabilidades. Mas não posso mais permitir que essas preocupações e contratempos destruam o que existe de melhor em mim, não vou permitir. Eu sei que acabei por me acomodar e comecei a enterrar o meu verdadeiro Eu, esse Eu que sofre quando colocado diante do sofrimento do mundo, esse Eu que cria um blog para tentar fazer alguma coisa por tantos animais abandonados que padecem nas ruas, esse Eu que se preocupa com questões de natureza ecológica, não do ponto de vista dos estéreis debates intelectuais da atualidade, mas de uma perspectiva total e naturalmente humana. Eu sei que errei, mas estou disposto a me redescobrir e a reparar meu erro.

Acredito que ainda sou assim, por isso esta confissão. Faz parte de um doloroso processo de redescoberta e renascimento. Nem tudo é análise e comentário intelectual. Eu também sei simplesmente aproveitar a vida por tudo o que ela tem a oferecer. Eu sei apenas apreciar uma música, sem criticar aquela nota desafinada no meio da interpretação. Sei beber uma cerveja no calçadão durante o por-do-sol, contemplando o mar, sentindo-me tão pequeno na imensidão do universo e ao mesmo tempo tão grandioso por participar deste milagre único que é a vida. Sei me divertir de maneira espontânea, natural, apenas sendo humano, apenas sendo uma pessoa, com qualidades e defeitos, com sentimentos e emoções.

Não… eu não esqueci de quem Sou de verdade. Ainda sinto as mesmas coisas que eu sabia sentir há dez anos, ainda gosto das mesmas coisas que me faziam feliz. Por isso nunca mais permitirei que todos esses vampiros que andam por aí, corrompendo almas e destruindo vidas, destruam o que tenho de mais valioso: a minha humanidade, a minha capacidade de me preocupar com o sofrimento de outras pessoas e animais, a minha própria condição humana que me faz, como humano, ser capaz de contemplar e curtir todas as pequenas coisas que constróem significados tão grandes! Tudo aquilo que para mim era importante há dez anos, ainda é hoje. Eu só não estava me permitindo ver isso.

Um rebelde é um homem que sabe dizer não. Pois eu digo não. É um não necessário para renascer e para recuperar essa espontaneidade que me fazia lutar por tudo aquilo em que acreditei e em que ainda acredito.

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  1. Gerusa
    April 26th, 2010 at 19:43 | #1

    Tá parecendo um adolescente. Que bom! ;)

    • Claudio Tellez
      April 26th, 2010 at 19:51 | #2

      É, eu nunca deveria ter me esquecido disso! :-)
      Às vezes deixamos de fazer tantas coisas por acreditarmos que só vale a pena gastar o tempo com coisas “importantes”. E as verdadeiras coisas importantes acabam ficando para trás. Mas, na nossa essência, não morremos. Apenas adormecemos. ;-)

  2. Count von Krolock
    April 26th, 2010 at 21:02 | #3

    Beware with me, my friend, I will return with the “vampire’s gang of the permnent things”…

    • Claudio Tellez
      April 26th, 2010 at 21:50 | #4

      Cuidado com isso de vampiro, Alex… daqui a pouco você vai começar a usar pó de arroz no rosto e batom nos lábios…

  3. Juliana Mansur
    April 30th, 2010 at 21:17 | #5

    É sempre bom o despertar!
    O desapontar, o deixar-se ser humano-divino.
    Meu sadik Claúdio, Mabrouk.
    Que Deus o conserve na plenitude de sua infinita bondade.

    Bauci kbireh,
    Ju

    • Claudio Tellez
      May 1st, 2010 at 23:48 | #6

      Muito obrigado, minha amiga! :-)

  4. Renata Oliveira
    May 20th, 2010 at 13:23 | #7

    Muitas afinidades, amigo!
    Um dos meus autores preferidos na adolescência – e até hoje – é Albert Camus. Li “A Queda” sei lá quantas vezes……Pra mim é um autor que fala disso: opa, espera ai, este não sou eu…..onde esta a minha humanidade, onde eu a deixei, onde foi que a perdi? Onde cai? E espera a chance da retomada porque olha pra si e sabe da sua sombra, de que ele mesmo é também vampiro. A partir desse não quero isso, levanta e sai como Rocky Balboa! pedra bruta, cheio de humanidade, endorfinado de alegria e empoderamento da vida, rebelde, dizendo não pro resto e Sim para o que ele realmente É!ahahahahaha , bjos

    • Claudio Tellez
      May 23rd, 2010 at 21:10 | #8

      Querida Renata,

      Albert Camus diz coisas muito relevantes para a nossa vida. Por isso ele é sempre atual. Devemos sempre nos afirmar e reafirmar, descobrir e redescobrir. Porque a acomodação é o caminho mais fácil, assim como também o das frivolidades. Mas poucos têm a coragem de olhar para dentro de si e perceber que há muito por descobrir.

      Beijos!
      C.

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