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Archive for May, 2010

Kronophelgor

May 24th, 2010 Claudio Tellez No comments

… após uma longa descida, Andrin percebeu que a sua jornada tinha chegado ao fim. Esse era, então, o ponto mais baixo do Abismo, o lugar onde ele teria que enfrentar sua prova mais dura. Mas… o lugar estava vazio, escuro, silencioso e frio. A escuridão era tanta que não era mais possível ver a neblina, mas ela preenchia todos os espaços, como as notas de um alaúde. O silêncio, por sua vez, tinha densidade e uma textura quase gelatinosa, enquanto o frio transmitia um sabor situado entre o azedo e o amargo. Andrin percebeu que, nesse lugar, todos os seus sentidos transmitiam experiências discordantes. Ao mesmo tempo, o ferimento provocado pela espada de Helheimr não doía mais. Ele estava pronto e Kronophelgor, seu inimigo, não tardaria a aparecer.

O frio tornou-se subitamente mais intenso. O silêncio foi quebrado por uma profusão de vozes, que pareciam emergir de todas as partes do Abismo ao mesmo tempo, em uma mistura de gemidos, lamentos, gritos de agonia e sussurros. Em meio a milhares de vozes, um nome foi proferido com uma doçura sedutora, em tom quase angelical: Andriiiiiinnnn…

Andrin cerrou os punhos quando sentiu uma respiração morna e fétida roçar-lhe a nuca. Kronophelgor estava com ele, bem às suas costas. Andrin voltou-se para encará-lo e, pela primeira vez, pôde ver a carranca repugnante de seu inimigo. Cuidadosamente, estudou as feições de gárgula de Kronophelgor. Percebeu que seus olhos, vermelhos e brilhantes, pareciam familiares. Onde já os tinha visto? Antes de que pudesse recordar por si só, o demônio respondeu, deixando uma voz suave e cativante fluir por entre seus longos e afiados dentes:

- Em alguns de teus sonhos. Visitei-te algumas vezes, enquanto dormias.

- Sim, agora me recordo. Mas teus olhos e dentes sempre ocupavam a face de alguma pessoa. No último pesadelo em que me visitaste, era a face… nem quero recordar esse sonho! Isso foi…

- … exatamente um ciclo antes da Primeira Agonia.

- Sim. Um ciclo. A data é exata. Então, foste o responsável pela Primeira e pela Segunda Agonia, que ocorreu precisamente um ciclo depois da Primeira.

- Talvez. Humanos são imprevisíveis. Claro, tive a minha participação. Mas “responsável” é uma palavra muito forte.

- De qualquer maneira, isso não importa mais. O que importa é que desci até aqui para te encontrar, desgraçado.

Kronophelgor baixou um pouco a cabeça, ergueu as sobrancelhas e esboçou um sorriso enigmático:

- Desejas entregar-me a alma ou apenas dissolvê-la no vazio do Abismo?

- Desejo o combate.

A resposta de Andrin surpreendeu Kronophelgor, que reagiu com ironia:

- Fraco como estás, humano tolo?

Andrin sorriu e respondeu, com um leve tom de sarcasmo:

- Meu corpo está fraco. Mas não é meu corpo que está aqui. A espada de Helheimr separou minha alma de meu corpo. Caso contrário, eu não teria sobrevivido à queda no Abismo.

- Acaso esperas derrotar-me, alma humana? Mesmo que houvesse a mínima chance de sucesso, de que te adiantaria? Nunca poderás deixar o Abismo.

- Após derrotar-te, usarei teus ossos para escalar as paredes do Abismo. Além disso…

- És mesmo arrogante, criatura imperfeita!

- … além disso, não estou sozinho. Karalynn está na superfície e ela saberá como reunir o que a espada de Helheimr separou.

- Karalynn, a Feiticeira? Ha ha! Ela é apenas uma humana como tu!

- Mas ela conhece os arcanos que ligam o segredo ao mistério.

- Pode ser, pode ser. Mas, primeiro, terás que derrotar-me; depois, precisarás escalar as paredes do Abismo…

- … o que farei usando teus ossos, como já disse. Além disso, Karalynn também me ajudará na subida. Meu único obstáculo, agora, és tu, criatura fétida.

Kronophelgor mostrou mais uma vez os dentes pontiagudos e seus olhos vermelhos começaram a brilhar com mais intensidade.

- Aqui não há mais esperanças, humano estúpido. Bem sabes disso. Como esperas sair?

Andrin sorriu, desta vez com ironia:

- Não esperando. Eu bem sei que aqui embaixo não há mais esperanças. Mas era exatamente o estado que eu precisava atingir. Porque “esperar é desmentir o futuro”. Assim, ao mergulhar no Abismo, deixei para trás toda a esperança. Somente dessa maneira, consegui chegar até aqui e poderei, enfim, enfrentar-te apenas com o que tenho e não em função de algum sonho ou ilusão.

Kronophelgor fitou Andrin com desdém.

- Lá vens novamente com tuas citações de Cioran! “Esperar é desmentir o futuro”. Puah! Besteiras! És humano e não entrarias em um combate, do qual não há possibilidade de sair vencedor, sem esperar alguma recompensa.

- Não espero nada. Faço isto apenas por mim.

- Buscas glória?

- Não.

- Buscas fama?

- Não.

O demônio murmurou alguma coisa, cofiou a barbicha e provocou:

- Mas… e todo aquele esforço para conseguir um lugar no Colégio dos Mestres? Fizeste tudo aquilo por…

- … por mim.

- Tens certeza? – perguntou Kronophelgor, com uma pontada de malícia, continuando a provocação.

- É óbvio! Caso contrário, eu teria optado por algum caminho mais fácil e rápido. Teria ingressado na Guilda dos Mercadores, sabes muito bem que tive essa oportunidade. Ou teria concursado para ocupar algum cargo técnico na Chancelaria. Minha vida teria sido bem mais fácil. Contudo… onde estaria o prazer do desafio, da aventura? Escolhi meu caminho totalmente ciente das dificuldades que teria de enfrentar. Porém é o meu caminho.

Confuso, Kronophelgor retraiu os ombros e grunhiu, com os olhos transbordantes de raiva. Andrin acrescentou:

- Eu sei que desejas confundir-me, Kronophelgor. Assim como confundiste os filósofos clássicos, lançando o pensamento humano na armadilha da dialética. És o Senhor do Tempo e da Mentira.

Kronophelgor suspirou, nostálgico.

- Sim… Platão foi um excelente discípulo…

- Assim como Aristóteles e todos os que vieram depois deles. Somente Maquiavel conseguiu compreender-te e expor um pouco o teu veneno. Mas, nos séculos seguintes, enganaste quase todos os leitores de Maquiavel, de modo a perpetuar teu engodo.

- Vejo que aprendeste muito com Briannus, o Sábio!

- Sim, e também com Naemus, o Bardo. Eles estão visitando o Colégio.

- Responde-me uma coisa, mortal insignificante. Como esperas derrotar-me?

Andrin fitou calmamente o demônio, demorou-se um pouco e respondeu, com serenidade:

- Na verdade, já te derrotei.

- Hein? O que queres dizer com isso? – indagou Kronophelgor, surpreso.

- Quero dizer que cometeste um erro. Quiseste testar meus limites e, com isso, estou no ponto em que não podes causar-me mais dor. Este é realmente o fundo do Abismo. Só podes derrotar-me se eu manifestar o desejo de que carregues minha alma. Porém, como não farei isso, tenho somente duas opções diante de mim: deixar que minha alma adormeça e congele aqui, por toda a eternidade; ou subir. De qualquer forma, perdeste e nunca terás minha alma. Ah, também fiz minha escolha. Voltarei para a superfície.

Kronophelgor contraiu toda a musculatura de seu corpo, abriu as asas e grunhiu.

- Por que vieste até aqui, então? Por que mergulhaste no Abismo? Tolo! Nunca sairás!

- Porque eu precisava conhecer-te. Eu precisava passar por este processo. Só assim descobri que não moravas em minhas entranhas, como eu pensava. Agora sei que posso matar-te sem infligir-me dano algum, pois estás fora de mim. Mas tive que descer até aqui para encontrar-te. Para sair, como já disse, utilizarei teus ossos e Karalynn me ajudará com sua corda.

- …

- Creio que nós já terminamos aqui e anseio por subir. Prepara-te, demônio! Porque agora morrerás!

- …

Andrin rapidamente empunhou sua katar de diamante e desferiu três vigorosos golpes em Kronophelgor. Um corte vertical para matar o tempo, um corte horizontal para matar o espaço e uma estocada no ponto de encontro entre o tempo e o espaço. O demônio estremeceu, emitiu um guincho estridente, cambaleou e tombou aos pés de Andrin. Em seguida, o guerreiro retirou dois ossos pontiagudos das asas de Kronophelgor e, sereno, começou a escalar, lentamente, a parede do Abismo.

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Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate

May 21st, 2010 Claudio Tellez 2 comments

Gustave Doré, “Dante and Virgil approaching the entrance to Hell”.

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Meditação sobre a pesquisa

May 19th, 2010 Claudio Tellez 6 comments

O que faz um texto tornar-se um “clássico”? O teste principal é colocado pelo tempo – em todas as suas contrações e dilatações, contorções e esvaziamentos. A Ilíada e a Odisséia de Homero são clássicos porque levantam questões e suscitam debates até hoje. Quando a obra, mesmo escrita em seu momento, consegue transcender o seu momento, consegue criar-se e recriar-se na duração, ganhando uma vida própria, isso a torna uma obra clássica.

O Príncipe, de Maquiavel, é um clássico da teoria política porque ainda hoje podemos lê-lo e descobrir coisas novas, que nos acrescentam não somente mais conhecimento sobre como era a vida em Florença no tempo e contexto de Maquiavel, mas coisas que nos fazem repensar as categorias de pensamento e os conceitos que orientam nossas reflexões contemporâneas sobre a vida política.

Uma obra clássica não é só a que se perpetua, mas a que se renova, a que permite novas interpretações, variações sobre um tema, criar ornamentações – que nada mais são do que improvisações – sobre um baixo contínuo sobre o qual as harmonias se constróem, seja horizontalmente (na forma melódica) ou verticalmente (na forma de acordes).

Quem deseja continuar no mundo da pesquisa e produção de conhecimento, precisa exercitar a criatividade. Um belo e estimulante exercício é trabalhar sobre os textos clássicos, procurar sentir como eles nos provocam, como mexem com nosso pensamento e até mesmo com nossas reações fisiológicas. É a partir desses movimentos que começamos não só a “ler” os clássicos, mas a “criar”, a fazer a pesquisa acontecer.
 
Grande parte do que é produzido na Disciplina, hoje em dia, nunca alcançará o status de clássico. Porque para produzir um texto clássico, o autor trabalha o pensamento à exaustão, busca esgotar o tema. É da impossibilidade desse esgotamento – que só se atinge pela busca insistente – que o tema resiste ao esgotamento. Mas há que criar essa tensão, ela não emerge sem um esforço construtivo e, ao mesmo tempo, contemplativo.

Com raríssimas exceções, os intelectuais da atualidade são preguiçosos. Preferem rotular-se, definir-se como seguidores desde ou daquele grande filósofo ou teórico; tornam-se hábeis aplicadores das ideias de outros. Ou então utilizam-se da retórica de forma desonesta, para criar e manipular legiões de seguidores, envenenando-os com a ferocidade de seu fanatismo, consumindo-os com sua intransigência ideológica, petrificando-os com o teatro de sua convicção.

Criar exige esforço e honestidade. Acima de tudo, honestidade voltada para o interior. Por isso, exige também muita coragem, pois requer olhar para dentro de si o tempo todo, questionar as próprias convicções, enfrentar fantasmas que, muitas vezes, não queremos enfrentar. Criar requer lidar com nossas paixões, nossas angústias, os movimentos da alma que nos colocam diante do agonismo de nossa condição humana. Requer não somente olhar para o abismo, mas nele atirar-se – sem nenhuma certeza de retorno.

São palavras de Emil Cioran: “Pensar deveria ser como a meditação musical. Será que algum filósofo buscou levar o pensamento aos seus limites, assim como Bach ou Beethoven desenvolvem e exaurem um tema musical?” É um conselho valioso que se desdobra em reflexões não sobre quem somos, mas sobre quem temos sido e quais são nossas aspirações. Quem pretende seguir a carreira acadêmica, não deve vê-la apenas como uma carreira, mas sim como um projeto de vida, que deve manter-se mediante a dedicação e a paixão. A vida acadêmica é, antes de mais nada, uma escolha de vida. Uma vida que deve ser incessantemente cultivada, pois articula dois elementos fundamentais que devem ser constantemente alimentados: a curiosidade e a criatividade. E onde estão os alimentos? Não somente nos textos, sejam clássicos (indispensáveis!) ou não. Os alimentos estão em toda parte.

O ato de pesquisar – e, portanto, de mergulhar no abismo interior para colocar-se diante do mundo – exige abrir novos canais de percepção, novos meios de apreensão intelectual, novas maneiras de atualizar-se e reatualizar-se no real e no irreal. Onde estão, portanto, os alimentos para a curiosidade e a criatividade? Na contemplação de um belo quadro, na apreciação meditativa de uma peça musical; nos contrastes, na tensão entre consonâncias e dissonâncias, sem a certeza de que haverá resolução; nas razões que levaram um determinado pintor a selecionar determinados pigmentos, a escolher certas combinações de cores, a explorar diversos jogos de luzes e sombras.

O importante é perseguir incessantemente o crescimento e o enriquecimento, abrindo os olhos e a alma para tudo o que nos cerca. A pesquisa não é apenas uma atividade investigativa. Ela é, acima de tudo, um exercício de admiração.

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O tempo é dissonante e implacável

May 8th, 2010 Claudio Tellez 3 comments

Não importa o quanto precisamos de tempo, pois o tempo não precisa de nós. Podemos acomodar-nos no que pensamos ser o tempo, porém, como escrevi recentemente em uma carta, “vivemos em um ‘presente’ que a todo tempo deixa de ser passado e nunca conclui-se como presente, abre-se incessantemente para o desconhecido do futuro”. Por isso nunca estamos prontos. Por isso não somos perfeitos. Não podemos “ser” perfeitos, porque nossa vida se faz no infectum, na sucessão de ações inacabadas. Assim, mesmo no momento da enunciação, não somos totalmente concluídos. Não se pode viver o perfectum porque o perfectum é apenas uma ilusão.

A realidade desenvolve-se em uma estrutura dinâmica que castiga quem se acomoda em certezas. Pois esse tempo que não precisa de nós, ao contrário de nossa intuição, não se compõe de uma sucessão de segundos. O tempo não é um marco no qual podemos nos esconder e aquietar. O tempo não é absoluto, não flui de maneira constante. O tempo também não é único: ele se dilata e se contrai, dobra-se e imbrica-se com outros tempos, cria perpetuamente novas geometrias. Não devemos, portanto, acomodar-nos em certezas. Devemos estar preparados para o inesperado, para a ruptura, para o abismo da singularidade. O tempo é dissonante e implacável.

Como escrevi naquela mesma carta, “se eu fosse construir um novo pórtico para o templo de Apolo, colocaria uma frase diferente. Em vez de ‘conhece-te a ti mesmo’, escreveria algo como ‘nunca cesses de conhecer-te a ti mesmo’. Porque o processo de autoconhecimento só encontra seu término na morte e desistir de buscar quem somos é, de certa forma, desistir de viver”. O melhor que podemos fazer, em nossa condição imperfeita, é participar da transformação e combater a geração e afirmação de um senso comum que esconde as perguntas mais importantes. Porque essas perguntas incomodam e, quando vêm à superfície, provocam rupturas, destróem convenções e convicções, mostram que há meios de resistir aos sutis mecanismos que colonizam nossas mentes e nos condicionam a reproduzir uma ordem sobre a qual fundam-se, há séculos, a sociedade, a economia, o poder, as normas “oficiais” e nossas convicções morais – que, aliás, até que ponto são verdadeiramente “nossas”?

Podemos ser como Martin Mystère e nunca parar de investigar, ou podemos vender-nos aos seus principais inimigos, os Homens de Negro, que utilizam todos os meios para destruir as diferenças e garantir a perpetuação do establishment. A escolha é nossa, porém o primeiro caminho requer esforço e coragem: não só para dizer o que ninguém quer que seja dito, mas também para operar dentro de nós mesmos e vencer nossos próprios fantasmas.

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A melhor lição de Rocky Balboa

May 1st, 2010 Claudio Tellez No comments

“You stopped being you. You let people stick a finger in your face and tell you you’re no good. And when things got hard, you started looking for something to blame, like a big shadow. Let me tell you something you already know. The world ain’t all sunshine and rainbows. It’s a very mean and nasty place and I don’t care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there permanently if you let it. You, me, or nobody is gonna hit as hard as life. But it ain’t about how hard ya hit. It’s about how hard you can get it and keep moving forward. How much you can take and keep moving forward. That’s how winning is done! Now if you know what you’re worth then go out and get what you’re worth. But ya gotta be willing to take the hits, and not pointing fingers saying you ain’t where you wanna be because of him, or her, or anybody! Cowards do that and that ain’t you! You’re better than that! (…) But until you start believing in yourself, ya ain’t gonna have a life.” (Rocky Balboa)

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