Meditação sobre a pesquisa
O que faz um texto tornar-se um “clássico”? O teste principal é colocado pelo tempo – em todas as suas contrações e dilatações, contorções e esvaziamentos. A Ilíada e a Odisséia de Homero são clássicos porque levantam questões e suscitam debates até hoje. Quando a obra, mesmo escrita em seu momento, consegue transcender o seu momento, consegue criar-se e recriar-se na duração, ganhando uma vida própria, isso a torna uma obra clássica.
O Príncipe, de Maquiavel, é um clássico da teoria política porque ainda hoje podemos lê-lo e descobrir coisas novas, que nos acrescentam não somente mais conhecimento sobre como era a vida em Florença no tempo e contexto de Maquiavel, mas coisas que nos fazem repensar as categorias de pensamento e os conceitos que orientam nossas reflexões contemporâneas sobre a vida política.
Uma obra clássica não é só a que se perpetua, mas a que se renova, a que permite novas interpretações, variações sobre um tema, criar ornamentações – que nada mais são do que improvisações – sobre um baixo contínuo sobre o qual as harmonias se constróem, seja horizontalmente (na forma melódica) ou verticalmente (na forma de acordes).
Quem deseja continuar no mundo da pesquisa e produção de conhecimento, precisa exercitar a criatividade. Um belo e estimulante exercício é trabalhar sobre os textos clássicos, procurar sentir como eles nos provocam, como mexem com nosso pensamento e até mesmo com nossas reações fisiológicas. É a partir desses movimentos que começamos não só a “ler” os clássicos, mas a “criar”, a fazer a pesquisa acontecer.
Grande parte do que é produzido na Disciplina, hoje em dia, nunca alcançará o status de clássico. Porque para produzir um texto clássico, o autor trabalha o pensamento à exaustão, busca esgotar o tema. É da impossibilidade desse esgotamento – que só se atinge pela busca insistente – que o tema resiste ao esgotamento. Mas há que criar essa tensão, ela não emerge sem um esforço construtivo e, ao mesmo tempo, contemplativo.
Com raríssimas exceções, os intelectuais da atualidade são preguiçosos. Preferem rotular-se, definir-se como seguidores desde ou daquele grande filósofo ou teórico; tornam-se hábeis aplicadores das ideias de outros. Ou então utilizam-se da retórica de forma desonesta, para criar e manipular legiões de seguidores, envenenando-os com a ferocidade de seu fanatismo, consumindo-os com sua intransigência ideológica, petrificando-os com o teatro de sua convicção.
Criar exige esforço e honestidade. Acima de tudo, honestidade voltada para o interior. Por isso, exige também muita coragem, pois requer olhar para dentro de si o tempo todo, questionar as próprias convicções, enfrentar fantasmas que, muitas vezes, não queremos enfrentar. Criar requer lidar com nossas paixões, nossas angústias, os movimentos da alma que nos colocam diante do agonismo de nossa condição humana. Requer não somente olhar para o abismo, mas nele atirar-se – sem nenhuma certeza de retorno.
São palavras de Emil Cioran: “Pensar deveria ser como a meditação musical. Será que algum filósofo buscou levar o pensamento aos seus limites, assim como Bach ou Beethoven desenvolvem e exaurem um tema musical?” É um conselho valioso que se desdobra em reflexões não sobre quem somos, mas sobre quem temos sido e quais são nossas aspirações. Quem pretende seguir a carreira acadêmica, não deve vê-la apenas como uma carreira, mas sim como um projeto de vida, que deve manter-se mediante a dedicação e a paixão. A vida acadêmica é, antes de mais nada, uma escolha de vida. Uma vida que deve ser incessantemente cultivada, pois articula dois elementos fundamentais que devem ser constantemente alimentados: a curiosidade e a criatividade. E onde estão os alimentos? Não somente nos textos, sejam clássicos (indispensáveis!) ou não. Os alimentos estão em toda parte.
O ato de pesquisar – e, portanto, de mergulhar no abismo interior para colocar-se diante do mundo – exige abrir novos canais de percepção, novos meios de apreensão intelectual, novas maneiras de atualizar-se e reatualizar-se no real e no irreal. Onde estão, portanto, os alimentos para a curiosidade e a criatividade? Na contemplação de um belo quadro, na apreciação meditativa de uma peça musical; nos contrastes, na tensão entre consonâncias e dissonâncias, sem a certeza de que haverá resolução; nas razões que levaram um determinado pintor a selecionar determinados pigmentos, a escolher certas combinações de cores, a explorar diversos jogos de luzes e sombras.
O importante é perseguir incessantemente o crescimento e o enriquecimento, abrindo os olhos e a alma para tudo o que nos cerca. A pesquisa não é apenas uma atividade investigativa. Ela é, acima de tudo, um exercício de admiração.



Hoi Claudio
O que se passa com a tua conta no Facebook?
Beijinho
Natya
Olá Natya,
Mandei um e-mail para você explicando… ;-)
Beijos!!!
Tellez, adorei o texto. Obrigado por te lembrado de mim e partilhado suas ideias comigo.
Amigo, o que houve com o seu Facebook?
bjs Margot
Olá Margot!
Que bom que você gostou!
Deletei a minha conta. Razões pessoais. Mas continuo por aqui, com o blog. E sempre por e-mail! :-)
Beijos!
C.
Grata pela partilha de tão belo texto pleno de sensibilidade e tendo como perspectiva uma forma muito especial de visualizar a arte no seu todo.
Beijinhos amistosos, Claudio
Agradeço pela apreciação e pelo carinho! :-)
Beijinhos,
Claudio