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O tempo é dissonante e implacável

Não importa o quanto precisamos de tempo, pois o tempo não precisa de nós. Podemos acomodar-nos no que pensamos ser o tempo, porém, como escrevi recentemente em uma carta, “vivemos em um ‘presente’ que a todo tempo deixa de ser passado e nunca conclui-se como presente, abre-se incessantemente para o desconhecido do futuro”. Por isso nunca estamos prontos. Por isso não somos perfeitos. Não podemos “ser” perfeitos, porque nossa vida se faz no infectum, na sucessão de ações inacabadas. Assim, mesmo no momento da enunciação, não somos totalmente concluídos. Não se pode viver o perfectum porque o perfectum é apenas uma ilusão.

A realidade desenvolve-se em uma estrutura dinâmica que castiga quem se acomoda em certezas. Pois esse tempo que não precisa de nós, ao contrário de nossa intuição, não se compõe de uma sucessão de segundos. O tempo não é um marco no qual podemos nos esconder e aquietar. O tempo não é absoluto, não flui de maneira constante. O tempo também não é único: ele se dilata e se contrai, dobra-se e imbrica-se com outros tempos, cria perpetuamente novas geometrias. Não devemos, portanto, acomodar-nos em certezas. Devemos estar preparados para o inesperado, para a ruptura, para o abismo da singularidade. O tempo é dissonante e implacável.

Como escrevi naquela mesma carta, “se eu fosse construir um novo pórtico para o templo de Apolo, colocaria uma frase diferente. Em vez de ‘conhece-te a ti mesmo’, escreveria algo como ‘nunca cesses de conhecer-te a ti mesmo’. Porque o processo de autoconhecimento só encontra seu término na morte e desistir de buscar quem somos é, de certa forma, desistir de viver”. O melhor que podemos fazer, em nossa condição imperfeita, é participar da transformação e combater a geração e afirmação de um senso comum que esconde as perguntas mais importantes. Porque essas perguntas incomodam e, quando vêm à superfície, provocam rupturas, destróem convenções e convicções, mostram que há meios de resistir aos sutis mecanismos que colonizam nossas mentes e nos condicionam a reproduzir uma ordem sobre a qual fundam-se, há séculos, a sociedade, a economia, o poder, as normas “oficiais” e nossas convicções morais – que, aliás, até que ponto são verdadeiramente “nossas”?

Podemos ser como Martin Mystère e nunca parar de investigar, ou podemos vender-nos aos seus principais inimigos, os Homens de Negro, que utilizam todos os meios para destruir as diferenças e garantir a perpetuação do establishment. A escolha é nossa, porém o primeiro caminho requer esforço e coragem: não só para dizer o que ninguém quer que seja dito, mas também para operar dentro de nós mesmos e vencer nossos próprios fantasmas.

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  1. Marcela
    May 8th, 2010 at 17:51 | #1

    Brilhante, genial e adorei seu depoimento… O que posso mais falar, amigo? Que você é mais que amigo, é um parente, uma pessoa de uma inteligência fascinante… E como é bom saber valorizar isso nos outros… Como é bom poder enxergar isso em você Claudio.

    Obrigada pela torcida, a cada 10, 15 horas de estudo eu lembro sempre do seu apoio. Lembro que você sempre achou que eu poderia ser “mais”… Difícil a minha escolha de jogar tudo para o ar… E fácil… A cada dia é mais fácil…

  2. Renata Oliveira
    May 20th, 2010 at 12:53 | #2

    Querido Cláudio,

    Com que prazer leio seu texto, não só porque é bem escrito, mas porque fala de temas que sempre me inquietaram e nunca ousei sequer esboçar algumas linhas: tempo, certezas, convicções e tanto mais. “Nunca cesses de conhecer-te a ti mesmo ” é genial! O autoconhecimento é uma elipse nesse mundo das vibrações das supercordas e vc como bom matemático sabe que a intuição guia a razão! É muito bom ser hoje sua leitora e aprender com você!
    Toque mais violão e o mundo com suas palavras!

    • Claudio Tellez
      May 23rd, 2010 at 21:08 | #3

      Querida Renata,

      Muito obrigado! É gratificante saber que minhas palavras fazem alguma diferença neste mundo tão marcado por uma temporalidade moderna linear e sufocante!
      Beijos!
      C.

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