Dec
24
2011
Muitas pessoas, que se orgulham de serem “críticas”, condenam a atividade científica por considerá-la um mecanismo de dominação social. A diferença é que eu, quando estou enganado, tenho como reação dizer: “Errei. Vou tentar por outro caminho”. Essas pretensos pensadores críticos, contudo, reagem dizendo, com o dedo em riste: “O conhecimento não existe e você não pode provar que estou errado!”. Eis um exemplo de dogmatismo capaz de provocar risos até em um fanático religioso!
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Dec
24
2011
Eu me lembro de quando parei para pensar seriamente sobre o Paradoxo de Russell pela primeira vez. Fiquei olhando para o livro, em estado de choque: toda a minha concepção intuitiva a respeito dos conjuntos tinha sido demolida. Fiquei maravilhado diante da fragilidade do senso comum. Saí da biblioteca do IMPA e voltei para casa. Naquela tarde, escrevi, no computador, a frase: “Remain Skeptical”. Imprimi e colei, com papel contact, na capa do meu fichário preto, ao lado da frase “I ‘coração’ Math” (onde o ‘coração’ era o gráfico de uma cardióide). Volta e meia, a frase “Remain Skeptical” do meu fichário vem à minha mente. Desde aquela tarde até hoje, afastei-me e aproximei-me desse mandamento inúmeras vezes, em um movimento quase sistólico e diastólico: da crença mais apaixonada à dúvida… também mais apaixonada. Talvez somente uma constante: o amor pelo conhecimento e a necessidade de investigar. Não me arrependo da minha frágil condição humana, que às vezes me torna mais suscetível às emoções do que à razão. É essa suscetibilidade, afinal de contas, o que me leva a explorar as mais diversas possibilidades a fundo. É por isso que assumo posturas como se fossem hipóteses matemáticas, vivendo-as verdadeiramente durante todo o processo de demonstração, para depois talvez descartá-las e substituí-las por novas hipóteses, explorando novos caminhos e diferentes perspectivas. Tal comportamento é geralmente abominado nas áreas ditas Humanas, onde as pessoas muitas vezes confundem “coerência” com “convicção”. É na capacidade de abandonar convicções que reside a maior força da Ciência, pois é graças a essa capacidade que nós, movidos pela curiosidade, percebemos que a realidade é bem mais do que o senso comum e que, ao libertarmos nossa mente desses pesados grilhões, nós, que não passamos de insignificantes grãos de poeira na imensa escala do universo, somos privilegiados por podermos apreciar a verdadeira poesia da natureza.
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Dec
22
2011
Hoje senti a necessidade de pensar sobre minhas posições filosóficas. Não me considero materialista e não defendo a “concretude das certezas”, dado que o próprio conceito de matéria está sujeito a revisões constantes e a sensação de concretude não passa de uma ilusão confortável (sabemos que, em qualquer objeto, existe muito mais espaço vazio do que “matéria sólida”, o que coloca mais uma vez em evidência a pobreza de qualquer filosofia baseada no senso comum).
Mas, apesar de não me considerar materialista, a versão mais sofisticada do materialismo, que é o fisicalismo, é bastante agradável para mim. Considero que estamos sujeitos às leis da natureza e da biologia. Em grande parte, nossas pretensas “ações intencionais” não passam de retórica onanística sobre a nossa própria bioquímica. Assim, a tão famosa “construção social da realidade social” torna-se um grande exercício de auto-convencimento, realizado a posteriori, sobre processos de evolução adaptativa.
Por economia de variáveis, rejeito o dualismo e abraço o monismo. Também rejeito todo tipo de essencialismo, por ser incompatível com o fato da evolução. Apesar de considerar que obedecemos às leis da natureza e da biologia, isso não implica em determinismo: afinal de contas, a segunda lei da termodinâmica arrasou com o universo reversível de Newton.
Não me considero um filósofo (apesar de já ter flertado com a Filosofia). Contudo, meu exercício de hoje serviu para convencer-me de duas coisas: (1) da necessidade de perder uma tarde para definir ou tentar entender melhor minha postura filosófica; (2) da inutilidade disso para o conhecimento científico. Esclareço: fisicalismo, monismo, anti-essencialismo… são apenas termos que definem mais ou menos onde me situo. Mas não tenho convicções filosóficas e estou disposto a abandonar qualquer um desses termos diante de evidências adequadas. Meu único compromisso é com o conhecimento científico (e, portanto, com a lógica e as evidências).
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Dec
21
2011
É incrível como muitas pessoas acreditam que “ter opinião” é suficiente. Lutam pelas suas opiniões como se fossem sagradas, sem dar-se minimamente ao trabalho de sustentá-las com evidências ou argumentos.
Se uma pessoa afirma “eu acho X” e outra pessoa afirma “eu acho Y”, por mais que X e Y sejam incompatíveis, isso não importa: o democratismo (democracia ideologizada em valor) é suficiente para colocar essas duas pessoas em pé de igualdade. Dizer por dizer, isso é o que importa. A sociedade valoriza opiniões vazias pelo mero fato de serem opiniões – não importando se são absurdos lógicos ou se não correspondem a nada que possa existir na realidade.
Vale, portanto, a regra de que todas as opiniões têm de ser respeitadas. Criticar a opinião de alguém é, na prática, um insulto que fere a sensibilidade politicamente correta. Se existe algum critério para comparar opiniões, é a ditadura do senso comum: o que valida uma dada proposição é a concordância da maioria. Mesmo assim, celebrar a pluralidade é mais importante do que acumular conhecimento a respeito de algum assunto. Vivemos em uma época na qual pode-se falar de tudo sem saber de nada, e com autoridade.
Assim, se você “acha” que o Teorema de Pitágoras não é verdadeiro, é seu direito; ou, se você “acha” que porcos podem aprender a voar, isso também é seu direito. Aproveite! A ignorância é de graça!
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Dec
19
2011
Sobre o caso do Yorkshire: posicionando-me contra as crenças, ideologias, religiões e superstições diversas, não considero que os animais humanos sejam “melhores” do que os animais não-humanos. Somos apenas bichinhos e, por mais que alguns encontrem conforto em acreditar no livre-arbítrio, na capacidade de agência, em algum propósito divino para a humanidade, no coelhinho da Páscoa ou na Grande Abóbora, nossas ações e pretensas escolhas apenas obedecem às frias e indiferentes leis da biologia e da natureza. Para os que consideram inadequado indignar-se diante de atos de violência contra animais não-humanos, sendo que há tantas pessoas doentes, passando fome, sofrendo injustiças e assim por diante, respondo: uma coisa não exclui a outra e é possível indignar-se contra TUDO isso ao mesmo tempo, sem falsas hierarquias. Não somos privilegiados, habitamos apenas a periferia de uma galáxia e estamos tão sujeitos à extinção quanto qualquer outra espécie animal.
Esclareço que minha postura não é materialista. A postura materialista é tão dogmática quanto qualquer fanatismo religioso e não disponho de elementos suficientes para afirmar a existência ou inexistência de outras “realidades”. Independente de se algum deus existe ou não, o que questiono é o fato de sermos tão pequenos, mas com uma arrogância do tamanho do universo.
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