A poesia da natureza

Eu me lembro de quando parei para pensar seriamente sobre o Paradoxo de Russell pela primeira vez. Fiquei olhando para o livro, em estado de choque: toda a minha concepção intuitiva a respeito dos conjuntos tinha sido demolida. Fiquei maravilhado diante da fragilidade do senso comum. Saí da biblioteca do IMPA e voltei para casa. Naquela tarde, escrevi, no computador, a frase: “Remain Skeptical”. Imprimi e colei, com papel contact, na capa do meu fichário preto, ao lado da frase “I ‘coração’ Math” (onde o ‘coração’ era o gráfico de uma cardióide). Volta e meia, a frase “Remain Skeptical” do meu fichário vem à minha mente. Desde aquela tarde até hoje, afastei-me e aproximei-me desse mandamento inúmeras vezes, em um movimento quase sistólico e diastólico: da crença mais apaixonada à dúvida… também mais apaixonada. Talvez somente uma constante: o amor pelo conhecimento e a necessidade de investigar. Não me arrependo da minha frágil condição humana, que às vezes me torna mais suscetível às emoções do que à razão. É essa suscetibilidade, afinal de contas, o que me leva a explorar as mais diversas possibilidades a fundo. É por isso que assumo posturas como se fossem hipóteses matemáticas, vivendo-as verdadeiramente durante todo o processo de demonstração, para depois talvez descartá-las e substituí-las por novas hipóteses, explorando novos caminhos e diferentes perspectivas. Tal comportamento é geralmente abominado nas áreas ditas Humanas, onde as pessoas muitas vezes confundem “coerência” com “convicção”. É na capacidade de abandonar convicções que reside a maior força da Ciência, pois é graças a essa capacidade que nós, movidos pela curiosidade, percebemos que a realidade é bem mais do que o senso comum e que, ao libertarmos nossa mente desses pesados grilhões, nós, que não passamos de insignificantes grãos de poeira na imensa escala do universo, somos privilegiados por podermos apreciar a verdadeira poesia da natureza.


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