Yorkshire
Sobre o caso do Yorkshire: posicionando-me contra as crenças, ideologias, religiões e superstições diversas, não considero que os animais humanos sejam “melhores” do que os animais não-humanos. Somos apenas bichinhos e, por mais que alguns encontrem conforto em acreditar no livre-arbítrio, na capacidade de agência, em algum propósito divino para a humanidade, no coelhinho da Páscoa ou na Grande Abóbora, nossas ações e pretensas escolhas apenas obedecem às frias e indiferentes leis da biologia e da natureza. Para os que consideram inadequado indignar-se diante de atos de violência contra animais não-humanos, sendo que há tantas pessoas doentes, passando fome, sofrendo injustiças e assim por diante, respondo: uma coisa não exclui a outra e é possível indignar-se contra TUDO isso ao mesmo tempo, sem falsas hierarquias. Não somos privilegiados, habitamos apenas a periferia de uma galáxia e estamos tão sujeitos à extinção quanto qualquer outra espécie animal.
Esclareço que minha postura não é materialista. A postura materialista é tão dogmática quanto qualquer fanatismo religioso e não disponho de elementos suficientes para afirmar a existência ou inexistência de outras “realidades”. Independente de se algum deus existe ou não, o que questiono é o fato de sermos tão pequenos, mas com uma arrogância do tamanho do universo.


December 21st, 2011 at 6:48 pm
Se as “escolhas” apenas obedecem às leis da física e da biologia, o ato de matar o cachorrinho indefeso é, ele também, mera consequência dessas leis. Por que ficar indignado contra esse evento que foi mera consequência de leis naturais?
Faz tanto sentido quanto ficar indignado com a erupção de um vulcão, que aliás causa muito mais mortes e sofrimento.
December 21st, 2011 at 7:00 pm
Afirmar que obecedemos a impulsos biológicos não é a mesma coisa que aceitar uma postura determinista. Claro, em última análise, a natureza não está nem aí para nossas crenças ou angústias morais. Mesmo assim, dos coacervados às instituições políticas, alguma coisa aconteceu. Alguma coisa que não envolve misticismo ou superstição. Os meus questionamentos (para os quais ainda não possuo respostas) incluem: por meio de que processos a moral evolui? Como as instituições políticas e sociais emergem? Por que algumas instituições são selecionadas e sobrevivem melhor do que outras?
December 21st, 2011 at 8:40 pm
“Afirmar que obecedemos a impulsos biológicos não é a mesma coisa que aceitar uma postura determinista.”
Mas no texto você diz:
“por mais que alguns encontrem conforto em acreditar no livre-arbítrio, na capacidade de agência, (…) nossas ações e pretensas escolhas apenas obedecem às frias e indiferentes leis da biologia e da natureza.”
Se o livre-arbítrio e a capacidade de agência são ilusões reconfortantes, então você é determinista sim. E daí não há nada substancialmente, qualitativamente, diferente entre uma pretensa “escolha” humana e a erupção de um vulcão ou a queda de um meteoro. Ambos são plenamente explicados por leis físicas que não fazem referência alguma a mentes, opiniões, valores, desejos, etc.
December 21st, 2011 at 9:38 pm
Bom, antes de responder, devo esclarecer que minha postura é científica, e não filosófica. Entretanto, posiciono-me contra o determinismo a partir de dois pontos: (1) leis da natureza não são necessariamente deterministas (no sentido de reversibilidade temporal); (2) o determinismo é um essencialismo e, nesse ponto, concordo com Desidério Murcho, para quem o determinismo é uma “teoria acerca da possibilidade e impossibilidade metafísicas” (em seu livro “Essencialismo Naturalizado: aspectos da metafísica da modalidade”). Como concordo com a Evolução, que por definição não admite o essencialismo, rejeito igualmente o determinismo.