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O Fio Condutor

February 24th, 2010 Claudio Tellez 2 comments

No livro Surely You’re Joking, Mr. Feynman, que mencionei também em meu post anterior, Feynman relata uma experiência que teve com alguns matemáticos, na época em que estudou em Princeton. Ele desafiou-os a enunciarem teoremas, em termos que ele pudesse entender, e ele seria capaz de dizer, imediatamente, se os teoremas eram verdadeiros ou falsos.

Um matemático aceitou o desafio e disse algo como: “Imagine que você tem uma laranja. Você a corta em um número finito de partes, depois coloca tudo junto de volta, e ela é tão grande quanto o Sol”.

Cauteloso, Feynman ainda perguntou: “Sem buracos?” O matemático respondeu: “Sim, sem buracos”. Sem titubear, Feynman afirmou que isso era impossível e, portanto, FALSO.

Os matemáticos comemoraram. Afinal de contas, o matemático tinha enunciado um conhecido – e verdadeiro – teorema topológico. Contudo, Feynman manteve sua convicção e insistiu em que o enunciado era falso. Por que? Porque o matemático disse que tratava-se de uma LARANJA. O matemático contava com a condição de continuidade. Com essa condição, o teorema é válido para uma esfera enquanto objeto matemático, mas não para a superfície de uma laranja no mundo real. Uma laranja é claramente um objeto físico e Feynman observou que não seria possível cortá-la em pedaços mais finos do que seus átomos.

Por que resolvi contar esse episódio da vida de Feynman? Porque vivenciei algo parecido na época em que fiz graduação em Matemática. Mas foi em uma prova de Física III, no Ciclo Básico. Não lembro de todos os detalhes da questão, mas tinha a ver com o campo magnético gerado por uma corrente elétrica em um fio condutor. Lembro, sim, que no enunciado estava bem claro que tratava-se de um fio condutor (logo, um objeto físico, concreto). Na primeira parte da questão, havia um desenho mais ou menos assim:

A questão pedia para calcular o campo magnético em um ponto próximo à porção semicircular do fio. Ok, isso era tranquilo. Mas o segundo item da questão dizia: “Agora, suponha que o trecho do fio entre os pontos A e B seja reto”, e pedia para calcular alguma outra coisa.

Qual foi meu raciocínio? Ora, estou diante de um fio condutor. Um objeto físico. Possivelmente de cobre, sei lá. Para que o trecho entre os pontos A e B da figura seja reto, tenho que “esticar” esse fio. Logo, a distância entre os pontos A e B (um dado relevante para o problema) é dado pelo comprimento do semicírculo representado na figura. Essa distância vale, portanto, metade do comprimento de um círculo, ou seja, pi vezes o raio. Utilizei esse valor como distância, fiz as contas e cheguei a um resultado.

Quando veio a nota, uma surpresa. Perdi alguns décimos (um ou dois, se não me engano) porque utilizei pi vezes o raio como a distância entre A e B. Todos os demais alunos – TODOS – utilizaram simplesmente 2R (duas vezes o raio). Isto é, eles imaginaram a situação abaixo, na qual a distância entre A e B está representada pela linha pontilhada:

Com essa situação, utilizando o valor 2R como distância, as contas ficavam mais fáceis. Com o valor que eu utilizei, pi vezes R, as contas eram um pouquinho mais complicadas, mas nada do outro mundo. Esperava-se, contudo, que os alunos optassem pela “interpretação” mais fácil, mesmo que ela “evaporasse” um belo pedaço do fio, atropelando a própria Natureza que os físicos se propõem a estudar e entender.

Argumentei com o professor que, se a questão tratava de um fio condutor, um objeto físico concreto, para que o trecho em questão fosse reto, seria necessário esticar o fio. Ele concordou. Sim, meu raciocínio estava certo. Contudo, ele manteve a posição e disse que diminuiu a minha nota porque TODO MUNDO fez do outro jeito!

Ou seja: o que importa não é a Física e nem o raciocínio, mas sim a opinião da maioria, árbitro supremo e absoluto de um certo entendimento de como deve ser a “formação científica” no Brasil.

Ao premiar os estudantes que aplicaram mecanicamente uma fórmula, sem parar para pensar na situação física descrita pelo problema, meu professor contribuiu para reproduzir uma patologia que Feynman observou na ocasião de sua primeira visita ao Brasil, no início da década de 1950. Feynman horrorizou-se ao perceber que os alunos não pensavam, apenas memorizavam e repetiam o que as “autoridades” diziam nos livros. Cito textualmente um trecho da página 192 do meu exemplar de Surely You’re Joking, Mr. Feynman:

After a lot of investigation, I finally figured out that the students had memorized everything, but they didn’t know what anything meant.

 

Feynman também percebeu que, caso alguém desconfiasse que havia algo errado e fizesse perguntas, o próprio “sistema” se encarregaria de colocar as coisas no lugar. Cito, da página 194:

It was a kind of one-upmanship, where nobody knows what’s going on, and they’d put the other one down as if they *did* know. They all fake that they know, and if one student admits for a moment that something is confusing by asking a question, the others take a high-handed attitude, acting as if it’s not confusing at all, telling him that he’s wasting their time.

 

Admiro Feynman não só como o grande físico que ele foi, mas também pela sua honestidade. Ele sempre dizia o que pensava. Assim, ao final de sua visita, em uma palestra sobre as suas experiências, ele afirmou que nenhuma ciência estava sendo ensinada no Brasil. Isso na década de 1950. Será que a situação, hoje, é muito diferente? Volto ao episódio da minha prova de Física III. Meu raciocínio estava correto. Eu estava pensando como um físico. Ou, pelo menos, como acho (e continuo achando) que um físico deve pensar. Acredito que Feynman, se estivesse vivo, concordaria comigo.

Eu sei que não se pode generalizar e nem é essa a minha intenção. Estou ciente de que hoje, no Brasil, há muita gente competente fazendo ciência. Também estou ciente de que, em muitas universidades, há professores excelentes que realmente se esforçam para estimular o pensamento crítico e o desenvolvimento do raciocínio de seus alunos nas disciplinas científicas. Não possuo elementos suficientes para afirmar que tais casos não passam de exceções. Apenas posso relatar uma experiência pessoal, algo que aconteceu comigo e que ilustra uma situação muito semelhante à que Feynman denunciou há quase 60 anos.

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Surely You were right, Mr. Feynman!

February 20th, 2010 Claudio Tellez No comments

Como conciliar duas ou mais naturezas? O problema da polimatia é que, muitas vezes, somos tentados a querer construir pontes ao invés de simplesmente apreciar a beleza de cada área em separado. O que importa, no fim das contas, é o prazer que vem da curiosidade, a irreverência de brincar com o conhecimento, a vontade de aprender sempre um pouco mais. Mas a dificuldade reside em saber lidar com o sentimento de culpa: “estou aqui, *perdendo um tempo precioso* lendo um livro de divulgação sobre biologia evolutiva, quando eu poderia estar avançando em minhas pesquisas sobre teoria política internacional”. Perdendo tempo? Será? Durante a leitura de O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, tive vários pequenos insights a respeito do que é estar no mundo e, em última análise, sobre o que é fazer política. Longe de ser perda de tempo, foi um acréscimo à minha vida acadêmica “formal” (por assim dizer). Se esses insights serão aproveitados ou não, só o tempo dirá. De qualquer maneira, ampliei um pouco mais a minha caixa de ferramentas.

Durante os anos em que estudei Matemática, fui acusado mais de uma vez – direta e indiretamente – de falta de foco. Isso me fazia sentir mal. Eu pensava que havia algum *problema* comigo, talvez algo que devesse ser tratado, para que eu conseguisse, finalmente, desenvolver a capacidade de manter o foco na ginástica mental das disciplinas da graduação e mostrasse, assim, os resultados que eram esperados dos bacharelandos em Matemática. Depressão? TDAH? Hoje posso dizer que, felizmente, nunca tive uma situação financeira confortável, que me permitisse pagar consultas com os psiquiatras da moda e comprar os remédios mais badalados nas comunidades do Orkut. Felizmente mesmo. Caso contrário, talvez hoje eu precisasse tomar ritalinas e modafinis sempre que quisesse usar o cérebro para qualquer coisa – desde fazer palavras cruzadas até estudar textos simples.

Como resolvi o problema? Simples. Explorando outras áreas, fazendo disciplinas tais como Grego, Latim e Filosofia da Linguagem e, finalmente, decidindo cursar uma segunda faculdade – Relações Internacionais – no tempo livre que eu tinha à noite. Comecei a estudar RI “para ver qual é” e optei por RI porque o curso oferecia uma diversidade enorme de disciplinas: Política, Sociologia, História, Economia, Antropologia… Assim, decidi que seria um curso bom para ampliar meus horizontes. Terminei Matemática, mas gostei tanto de RI que resolvi fazer um mestrado. Continuei gostando tanto que meu próximo passo é o doutorado. Mantive o foco, para quem vê de fora. Gosto de RI e dedico-me com vontade aos meus estudos e às minhas pesquisas. Mas continuo gostando de Física, Matemática, Filosofia e assim por diante. Continuo acompanhando o que acontece no mundo das ciências naturais. Não perdi a capacidade de sentir algo especial quando olho para o céu estrelado ou para o formato da teia de uma aranha.

Hoje em dia, está na moda dizer-se portador de algum transtorno: TOC, TDAH, depressão, esquizofrenia, bipolaridade… a lista só aumenta! Conheço gente que tem orgulho de se dizer bipolar. Só quem já passou pela experiência de conviver com um bipolar sabe que não há nenhum orgulho nisso. Só quem experimentou de leve o que é depressão sabe que ela não encerra nenhum glamour. Também conheço gente que afirma de peito em riste ser portador de TOC, em grande parte por causa do seriado Monk. Hoje, já há quem alimente o desejo secreto de ser esquizofrênico, parece que por causa de uma certa novela. Tudo isso me faz suspeitar seriamente de quem se esconde atrás de um rótulo psiquiátrico para não fazer aquilo a que se propõe. Quando a dificuldade aumenta, é natural sentir um pouco de medo. Pode-se seguir em frente, reagindo a esse medo, ou pode-se optar pelo caminho mais fácil: auto-declarar-se incapaz e ir brincar de outra coisa.

Claro, às vezes posso fazer julgamentos errados. Às vezes a pessoa pode realmente ter algum transtorno e precisar de acompanhamento médico. Cada caso é um caso, mas isso não me impede de questionar: quantos desses casos não serão produtos de uma indústria que se alimenta da proliferação de doenças imaginárias e que, para isso, conta com a fiel ajuda de sua amiga mídia? Quantos desses diagnósticos – para quem usa essa desculpa – não são dados por profissionais que, consciente ou inconscientemente, participam da reprodução desse processo?

Uma das razões para acusar alguém de falta de foco é a própria incapacidade de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Não estou usando o termo “incapacidade”, aqui, no sentido pejorativo. Há pessoas que são de Exatas, há pessoas que são de Humanas. Na maioria dos casos, quem é de Exatas enfrenta dificuldades para entender o que fazem as pessoas que são de Humanas e vice-versa. Acontece que há algumas pessoas, bem poucas por sinal, que conseguem lidar muito bem com Humanas e Exatas ao mesmo tempo. Pois bem, quem tem facilidade para se desenvolver apenas dentro de uma área costuma  não entender essas pessoas e acha mais fácil acusá-las de superficialidade ou falta de foco. Na verdade, ser polímata não é ser disperso. Tampouco significa entender apenas superficialmente vários assuntos. O polímata é aquele sujeito que consegue desenvolver com profundidade duas ou mais áreas que, para a maioria das pessoas, são inconciliáveis. Em uma era que pressiona pela especialização, é difícil aceitar que ainda há mentes renascentistas!

Muitas vezes, apanho-me a pensar em meios de conciliar minha paixão pelas ciências exatas – especialmente a Física – com o meu trabalho acadêmico em teoria de Relações Internacionais. A existência de pontes ajudaria, sem dúvida, a lidar com o sentimento de culpa que descrevi no primeiro parágrafo. Mas há uma boa dose de incompreensão, de parte de muitos acadêmicos da minha disciplina, com respeito ao que é a ciência contemporânea. O rótulo de “positivista” é aplicado, a meu ver, de maneira muito leviana. Do outro lado, os que pretendem defender um ideal científico para a disciplina baseiam-se, muitas vezes, em uma compreensão de ciência cujo prazo de validade já expirou há muito tempo.

Quantas vezes já não escutei por aí que aplicar uma abordagem científica ao estudo das sociedades humanas implica necessariamente em reducionismo e limita o pensamento crítico? Muitas vezes, isso é de fato o que acontece. O desespero por achar covering laws ou formular modelos capazes de realizar previsões com mais precisão em um ambiente extremamente complexo pode levar, sem dúvida, a uma postura reducionista. Mas o problema não está na ciência e sim, *mais uma vez*, no (mau) uso que fazem dela. Pois a própria ciência não sobrevive sem o exercício do pensamento crítico e reflexivo, sem o questionamento incessante, sem a curiosidade e o ceticismo que encontramos em mestres como Richard Feynman ou Carl Sagan. Por que uma dada interpretação deve ser considerada como definitiva? Sempre é possível questionar mais e mais e mais! Não é necessário parar! Não é necessário estabelecer, arbitrariamente, um ponto de partida. Sempre pode-se fazer mais perguntas e refletir sobre as respostas existentes: por que tais respostas parecem confortáveis e para quem elas proporcionam conforto? Quais são os ideais e as ideologias favorecidas por essas respostas? Há mais pontos de vista que podem ser levados em consideração? Quais são as consequências de aceitar essas respostas e, com elas, a autoridade de quem as formulou? A prática científica, ao contrário do que reza o senso comum, enriquece-se quando o pesquisador leva em consideração a historicidade e a contingência.

Pontes são importantes, mas não fundamentais. Relendo Surely you’re joking, Mr. Feynman!, um livro que traz vários episódios sobre a vida de Richard Feynman, aprendi que ele tinha uma curiosidade insaciável. Feynman foi um dos maiores físicos do século XX (na minha opinião, “o” maior de todos). Porém ele nunca manteve uma postura ascética com respeito à Física e a sua curiosidade o levou a investigar um pouco em Biologia, a aprender sobre o comportamento de formigas, a inventar maneiras de abrir cofres e cadeados, a fazer um documentário sobre Tuva, a tocar tambores bongo e a decifrar códigos maias. Ele não tentou “juntar tudo isso” para auxiliar seu trabalho em Física. Não teve a intenção de descobrir uma relação entre os tambores bongo e a eletrodinâmica quântica, por exemplo. Ele apenas sentia prazer em fazer todas essas coisas. Ele gostava de diversificar, de ampliar incessantemente seus horizontes, de alimentar a sua curiosidade com relação a praticamente tudo. Sem dúvida, tal postura diante da vida contribuiu para o seu prêmio Nobel em Física e para a excelência que demonstrou em sua área principal. Ele nunca deixou a mente enferrujar.

Às vezes, é possível fazer grandes descobertas nas florestas que existem entre os feudos do conhecimento. Às vezes é até possível construir pontes que ligam dois ou mais feudos. Mas aprendi com Feynman que não é necessário fazer disso o objetivo da vida. O importante é manter viva a curiosidade, brincar com o conhecimento, questionar sem parar, desenvolver um ceticismo saudável, procurar novos ângulos para velhas questões e explorar aquilo que nos dá prazer. Assim, a questão não é como conciliar duas ou mais naturezas, mas sim como vivê-las ao máximo. Surely You were right, Mr. Feynman!

 

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Kiki

February 4th, 2010 Claudio Tellez 13 comments

Para mim, um gato não é apenas um gato. É um ser vivo que merece respeito. Não compartilho da ideia arrogante de que um certo criador resolveu fazer um universo enorme apenas para nós, de que tudo o que existe na natureza são apenas recursos que temos o direito de explorar ao nosso bel-prazer, por uma espécie de mandato divino. Que mandato divino é esse? Nada mais do que um meticuloso mecanismo desenhado para gerar certas estruturas de controle e de exceção – um mecanismo que garante a sobrevivência de certas ordens, mesmo apesar de grandes transformações históricas. Um mecanismo, enfim, que sobrevive às próprias mudanças na concepção de cosmos e de natureza.

A Revolução Científica, nesse sentido, não foi o início da visão antropocêntrica e da deterioração da relação entre as sociedades humanas e o restante da natureza. Claro, o surgimento de novas técnicas e mecanismos de controle forneceu todo um arsenal que resultou na instrumentalização da ciência. Mas, por trás disso tudo, há algo mais profundo. Algo que sobreviveu às transformações do século XVI e que, posteriormente, sobreviveu inclusive ao racionalismo iluminista. Esse fator mais profundo é a crença na superioridade absoluta do ser humano: seja pela capacidade racional de investigar e inventar meios de controlar a natureza, adaptando o seu meio a ele, ao invés de adaptando-se ao meio, ou seja por historinhas a respeito de uma hierarquia entre o criador e a criação, na qual o homem ocupa uma confortável – e muito conveniente – posição intermediária.

Esse antropocentrismo orienta para a utilização indiscriminada de recursos naturais. E, mesmo quando falam em “desenvolvimento sustentável”, o foco continua sendo, na maior parte das vezes, o ser humano, e não a harmonização, a busca pelo equilíbrio. Esse antropocentrismo, seja pela ideologização da razão (racionalismo), seja pela superstição religiosa (que ainda sobrevive!), tem como resultado o tratamento arrogante que damos às espécies animais não-humanas. Touradas para o prazer de um bando de ignorantes que sentem delírios quase orgásticos quando testemunham o “espetáculo” de um touro sendo massacrado lentamente na arena. Caça indiscriminada. Gorilas sendo utilizados, em regiões da África, como alvos para treinamento de guerrilheiros. Militantes estrangeiros que, no sul do Chile, no início da década de 1970, praticavam tiro ao alvo em cachorros. Tudo isso e muito mais, sem contar as atrocidades que testemunhamos em nosso cotidiano mais imediato: abandono de animais, maus tratos, imbecis degenerados que se divertem jogando milho no meio de avenidas movimentadas apenas para terem o prazer de ver um monte de pombos morrendo atropelados e assim por diante.

Isso tudo é maldade, pura e simples. É mal absoluto, por mais que torções linguísticas tentem relativizá-lo. Qualquer explição que tente eliminar ou minimizar a culpa dessas aberrações monstruosas que ocupam a  pele de humanos é pura hipocrisia. Não vou falar em natureza humana, em um elemento de maldade presente na genética de toda a nossa espécie. Isso seria uma generalização descabida. Mas não tenho dúvidas de que há um forte fator cultural e que esse fator tem sido alimentado pela concepção (que não é comum a todas as sociedades humanas) de que todos os animais foram criados para que façamos com eles o que nós desejamos, já que eles estão mais distantes de “deus” e, nós, muito convenientemente, mais próximos.

Esse antropocentrismo está na origem de muitos males. Está na afirmação de um certo tipo de subjetividade. Está no desenho de diversas instituições políticas. Está presente nas discussões contemporâneas sobre as questões ambientais. É um antropocentrismo que ganhou fundamentação teológica há muitos e muitos séculos, há milênios, e que, como um verdadeiro câncer, tem gerado metástases que passam imperceptíveis até para os defensores da separação igreja x Estado. Essa visão antropocêntrica continuará emperrando qualquer iniciativa de cooperação internacional referente aos problemas ambientais da atualidade. É uma visão que continuará fazendo vítimas inocentes por todo o mundo. Sim, é um câncer, uma doença. E se esse câncer, se essa doença tiver realmente origem em um deus vingativo que, para manifestar seu poder, resolve castigar um homem que perde a fé descontado em um bichinho inocente, fazendo um animalzinho agonizar e morrer, então esse é um deus que não merece o meu respeito. Prefiro deixar essa questão em aberto, através de um saudável agnosticismo, e concentrar-me mais na arrogância humana como a origem desse câncer.

Podemos ter racionalidade, podemos ter a capacidade de investigar sobre o mundo e a natureza, sobre as células e sobre o cosmos… Mas será que realmente *aprendemos* alguma coisa, já que continuamos repetindo um erro atrás do outro? Somos apenas mais uma espécie animal que habita este planeta. Uma espécie entre muitas. A nossa racionalidade e inventividade compensam nossa falta de força física, nossa falta de resistência ao frio e calor extremos, nossa ridícula estrutura muscular. Mas somos apenas mais uma espécie animal e, se acreditamos que somos “melhores”, bom, pelo menos que essa crença não decorra de delírios religiosos, superstições e outros contos da carochina. Temos, sim, o potencial para melhorar. Porém só o desenvolveremos quando assumirmos nossa responsabilidade, quando abandonarmos a lógica da competição a todo custo, quando tivermos uma preocupação real com a importância de harmonizar a relação entre as sociedades humanas e o ambiente natural não-humano. Isso requer cooperação, colaboração, diálogo. Isso requer abandonar os paroquialismos infantis e começar a estabelecer conversas entre as ciências humanas/sociais e as naturais. Isso requer deixar de lado intermináveis brigas epistemológicas e buscar pontos de interseção que podem dar bons frutos. Finalmente, isso requer abandonar o racionalismo ingênuo (que é uma ideologia), o cientificismo (que confere autoridade praticamente dogmática à ciência) e resgatar a razão, o ceticismo saudável, o pensamento crítico e a curiosidade investigativa.

Na segunda-feira, dia 01 de fevereiro, às 20:00h, perdi a minha gatinha Kiki. Não nego que este post tem uma forte carga emotiva, por causa do momento, mas esclareço que venho pensando nessas questões há bastante tempo. Não tenho mais a minha amiga, a minha gatinha companheira, nunca mais vou ouvir o seu miado, nunca mais vou sentir a patinha dela encostando na minha perna para pedir água ou comida. Ela se foi e, com ela, uma grande parte da minha alegria. Apesar de eu ainda não querer acreditar, sei que ela não está mais comigo. Sinto muita falta dela e sei que sempre vou sentir essa falta, esse vazio. Porque foi uma gatinha sempre muito amada, muito querida. Um certo imbecil, defensor das liberdades individuais, adepto dessa esquizofrênica auto-intitulada direita liberal-conservadora judaico-cristã, certa vez comentou em um antigo blog meu, sugerindo que uma certa instituição teria todo o “direito”, pelo princípio “sagrado” da propriedade privada, de fazer o que quisesse com os animais abandonados no campus dessa instituição (inclusive envenená-los). Esse excremento humano jamais conseguiria entender o que estou sentindo pela perda da Kiki. Porque indivíduos assim não têm a capacidade de compreender sentimentos humanos se não for através de uma lente embrutecida por ideologias perversas. Pessoas assim, que me provocam um profundo nojo, mostram apenas que não conseguem raciocinar a não ser em termos de cálculos mercadológicos e supertições religiosas atrasadas que sustentam um determinado conceito fajuto de propriedade – um conceito em nome do qual diversas atrocidades têm sido justificadas. Pessoas que tiveram seus cérebros lavados dessa maneira e que  tratam animais como meros objetos criados por um suposto deus para que façamos com eles o que bem quisermos merecem apenas o meu desprezo. Aliás, merecem coisa muito pior, mas aí entro no terreno do impublicável.

Felizmente, quero distância de gente assim, de pessoas que colocam a militância acima da investigação honesta, de pessoas que subjugam todas as formas de vida – inclusive as humanas – às dinâmicas do mercado. O mesmo se aplica aos que defendem a compatibilidade entre essas ideologias e o foco na pessoa humana, porque no fim das contas essa posição esconde (de maneira inclusive mais hipócrita) o mesmo antropocentrismo, o mesmo umbiguismo, o mesmo ideologismo superficial e barato, a mesma crença supersticiosa em que tudo o que existe tem por finalidade e por vontade divina satisfazer os desejos dos seres humanos, privilegiados hierarquicamente  em uma pretensa criação. Esclareço logo que esse  privilégio não decorre, nessas ideologias doentias, de processos de adaptação e engenhosidade ao longo de milhões de anos. Isso seria um pouco mais palatável (porém  incorreto em termos evolutivos e científicos, por misturar um juízo de valor com um processo biológico e por conferir um sentido progressivo à evolução, o que é uma distorção infeliz do darwinismo). Essa ideia antropocêntrica decorre, a meu ver principalmente, de uma complexa e elaborada teologia política.

A Kiki sempre me deu muita alegria com o jeitinho dela. Sempre foi amiga, companheira, fiel. Muito ao contrário do bando de gente falsa que conheci durante a minha vida. Prezo e respeito muito mais a Kiki e outros animais do que certos aproveitadores, falsos gurus egocêntricos e ongueiros baratos que propagam as suas ideologias de morte e perversão, enganando, mentindo, manipulando e aprimorando a falsidade e a malandragem. A malandragem e a esperteza, por sinal, são as armas dos incompetentes. Cometi muitos e muitos erros na minha vida, mas tenho certeza de ter cometido um grandioso acerto: ter aberto meus olhos a toda a podridão que essas pessoas e seus movimentos representam.

Este post está inflamado, eu sei. O momento é de dor, mas, repito, tenho ponderado sobre o que estou escrevendo há muitos meses, aliás, há alguns anos. Se escrevo só agora é porque sei que devo isso à Kiki. Devo a ela, por tudo o que ela me deu de alegria, pelo privilégio que tive por ela ter me aceitado durante sete anos. A minha homenagem à minha amada Kiki é justamente deixar claro que sempre vou me opor a toda a perversão que sustenta um determinado modo de pensar, infelizmente muito difundido ainda na atualidade. Porque a Kiki teve uma vida boa comigo, nunca deixei que lhe faltasse nada, sempre lhe dei muito carinho, muito amor. Ela foi uma gatinha muito querida, que teve um bom lar, ao invés de ter morrido espancada ou evenenada por idiotas que pensam tal como o dejeto humano que mencionei alguns parágrafos acima. Mas há muitos outros animais sofrendo maus tratos, sendo abandonados todos os dias, sendo envenenados por criminosos covardes que confiam na impunidade endêmica que caracteriza estas tristes  latitudes. Nunca vou deixar de me opor a tudo isso. Nunca vou deixar de estudar e denunciar como o processo de constituição do sujeito moderno, como a formação da modernidade política, carrega em seu bojo essa arrogância antropocêntrica que causa tanta dor e sofrimento. Eu devo isso à Kiki. Ela não foi apenas uma gata. Foi uma amiga. Uma amiga fiel e sincera. Nunca foi falsa, como muitas pessoas que se aproximam oferecendo projetos e promessas mirabolantes mas que, na verdade, destilam pura falsidade e hipocrisia por todos os poros.

Sinto saudades da Kiki. Sempre sentirei. Descanse em paz, minha amada amiguinha. Você sempre foi muito especial e sempre significará muito para mim. Aprendi muito mais com você do que com tanta gentalha metida a intelectual que serve apenas para espalhar mais podridão, morte e desespero pelo mundo. Você, Kiki, sempre foi muito melhor do que muita gente. Tenho certeza disso. Obrigado pelo privilégio de ter convivido com você por sete anos.

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Onde está a ciência?

January 28th, 2010 Claudio Tellez No comments
É isso o que me faz perguntar: onde está a ciência? Pelo menos na televisão, ela faz muita falta. Sinto saudades da minha infância, quando eu passava horas e horas assistindo à série Cosmos, de Carl Sagan. Ou descobrindo o oceano com Jacques Cousteau. Apesar dos recursos tecnológicos, os programas televisivos da atualidade não chegam aos pés dos programas que me fizeram gostar de ciência desde criança!
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So Don’t Stop

January 24th, 2010 Claudio Tellez 1 comment

Sempre defendi que não há, necessariamente, oposição entre ciência e religião. Afinal de contas, são campos que geralmente (mas não sempre) lidam com temas e questionamentos diferentes. Além disso, as abordagens do cientista e do religioso são distintas. Não é meu objetivo levar esta discussão para o terreno filosófico e para os debates sobre os tipos de conhecimento. É prático – e também muito confortável – simplesmente concordar com Mario Bunge e acreditar na existência de fronteiras entre ciência, religião, arte e assim por diante. Confortável, mas não por isso correto, ainda mais sob o ponto de vista do desenvolvimento histórico das disciplinas e áreas de atividade do ser humano. Ademais, é tentador transformar essa praticidade e conforto em um mecanismo especioso para blindar argumentações. Voltarei a esse tema em um próximo texto.

Hoje, meu objetivo é apenas refletir um pouco sobre o tema sempre polêmico do confronto entre fé e ciência, ou entre ciência e religião. Continuo defendendo, com certas ressalvas, que não há *necessariamente* uma oposição. Porém há certas questões que chamam a atenção tanto de cientistas quanto de religiosos e, sobre essas questões, muitas vezes as abordagens de uns e de outros são criticadas mutuamente. Assim, se considero abominável que ainda haja pessoas tentando impedir o ensino da ciência em escolas, também não me agrada a posição dos que acreditam que a ciência tem por função combater a superstição religiosa. Uma atitude mais razoável para o homem de ciência seria, em todo caso, investigar por que há sentimentos ou experiências religiosas, e que funções esses fenômenos desempenham nos indivíduos e populações.  Qual é, por exemplo, o papel que a religiosidade exerce no equilíbrio entre conflito e cooperação, no estudo da política e da sociedade?

Considero de um otimismo exagerado afirmar que a razão humana não possui limites. Além dos fatores históricos e culturais que condicionam modos de pensar e de argumentar, seria precipitado negar a existência de assuntos que ultrapassam nossas capacidades cognitivas. Dizer que não se crê em uma determinada coisa porque não há evidências levanta, de imediato, duas questões: o que constitui uma evidência e o que significa crer. Pode-se recorrer a crenças para suprir nossas deficiências a respeito do que ainda não pode ser demonstrado ou conhecido por outros meios. Ou pode-se admitir crer em alguma coisa após a satisfação de certas condições. O verbo acreditar encerra, portanto, ambiguidades. Uns podem resguardar-se na crença após o reconhecimento humilde da transcendência e dos limites da razão humana. Outros podem afirmar que só acreditam naquilo que é sustentado por evidências empíricas. A palavra “crença” carrega um sentido distinto quando se trata do religioso que acredita na necessidade da existência de um deus criador para o universo, do cientista que acredita na validade da lei newtoniana da gravidade (nas condições adequadas) ou do matemático que acredita na verdade eterna e imutável do teorema de Pitágoras.

Mesmo que a razão humana não tenha alcance infinito, uma coisa é reconhecer os limites do intelecto humano e outra coisa bem distinta – para não dizer conveniente – é afirmar saber quais são e onde estão esses limites. Afirmar que, a partir de um certo ponto, certos questionamentos ultrapassam o alcance da ciência e passam a pertencer exclusivamente ao domínio da religião constitui um ato de autoridade e uma expressão de arrogância. Assim, se é ingênua a postura do indivíduo que ideologiza a ciência, conferindo-lhe poderes espetaculares e a capacidade de responder a todas as perguntas formuladas e por formular, por sua vez o polemista religioso, que apela a um suposto mandato divino para defender que certas indagações não devem ser permitidas aos cientistas, expressa, no mínimo, ignorância. Trata-se de ignorância tanto no sentido de ausência de conhecimento, quanto como a tentativa de impor uma vontade pela força bruta. Ambos os sentidos da ignorância estão presentes, por exemplo, nas tentativas de proibir o ensino da evolução em certos estados norte-americanos.

Qual é a origem do universo? Essa questão é legítima tanto do ponto de vista científico quanto para o homem que segue uma religião. Porém o cientista, diante da indagação de se conseguiremos ou não responder a essa questão, por mais otimista que seja, não pode afirmar que possui uma resposta definitiva. Pode acreditar que algum dia chegará a saber  - porém trata-se novamente de uma crença, ou melhor, de uma esperança. Através dos avanços na Física e na Cosmologia, podemos aprender cada vez mais sobre a origem do universo, podemos nos aproximar (assintoticamente) da verdade. Atingiremos uma resposta definitiva e absoluta, sem ser através de uma postura dogmática? Dificilmente. Alcançaremos uma verdade científica que esteja acima de qualquer dúvida razoável? Isso é mais plausível.

Por outro lado, diante de uma questão de tal magnitude, podemos nos ver tentados a admitir a necessidade de um ponto de partida bem definido, sem o qual não teríamos uma razão suficiente para parar. Leibniz deparou-se com esse problema e, segundo Ann Druyan, logo abaixo dessa citação de Leibniz, Carl Sagan escreveu: “So don’t stop”.

Diante da imensidão de certas questões, podemos ver-nos tentados a parar e assumir que atingimos o limite de nossas capacidades. Mas como saber se realmente esse é o limite? Como saber se daqui a um, dez ou cinquenta anos não teremos instrumentos (materiais ou não) que possam nos levar um passo mais à frente? Considero mais importante concentrar os esforços na direção de possibilitar esse passo do que gastar energia tentando provar a existência ou inexistência de deus. Pessoalmente, considero mais frutífero investigar por que os seres humanos alimentam crenças e como tais crenças estabelecem relações com outros domínios – tais como a cultura, a política e a sociedade. Considero mais instigante tentar elucidar como e por que determinadas crenças impactam no desenvolvimento de certos sistemas políticos e de modos particulares de relacionamento entre povos distintos. Qual é a origem da crença em um sentido progressivo para a humanidade, da barbárie para a civilização, e como tal crença repercutiu no desenvolvimento do internacional moderno? Que lugar o mito antropocêntrico alimentado por certas religiões, que sustentam a definição e constituição de certas identidades, ocupa nas relações entre as sociedades humanas e a natureza? Como esse mesmo mito atropocêntrico contribui para a afirmação de um determinado entendimento da política? Quais são as implicações éticas desses e de outros questionamentos?

Em certa medida, os problemas que residem na interseção entre ciência, religião e filosofia nos remetem ao foro íntimo. Carl Sagan – um dos maiores defensores do conhecimento científico e um dos principais críticos dos defensores de crenças não-examinadas – afirmava que gostaria que houvesse vida após a morte, para ter a chance de continuar aprendendo e descobrindo. Sagan, em seu ceticismo saudável, sabia que não podia simplesmente descartar a possibilidade de vida após a morte. Mas o fato de que ele gostaria que houvesse essa vida é uma postura pessoal. Outras pessoas posicionam-se de maneira diferente diante desse mesmo assunto. Por exemplo, no momento a possibilidade de vida após a morte causa-me mais angústia do que conforto, pois não me agrada a ideia de ter uma consciência sobrevivente martirizando-se sobre a que acontece ou deixa de acontecer na minha ausência. Mas trata-se de uma preferência totalmente pessoal e contingente, decorrente de uma série de experiências e vivências particulares, e que talvez um dia possa vir a mudar. É uma preferência, não uma crença. Não sei e não tenho como saber o que acontece após a morte, porém, enquanto estiver vivo, diante de todos os questionamentos que me instigam a pesquisar, pretendo seguir apaixonadamente a diretriz de Sagan. I won’t stop.

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Human ambition

January 2nd, 2010 Claudio Tellez No comments

“The universe is not required to be in perfect harmony with human ambition.”
Carl Sagan

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E por falar em DeLanda…

December 28th, 2009 Claudio Tellez 1 comment

… segue uma excelente indicação postada por amanda vox.

Manuel DeLanda Explica Deleuze

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Influências

December 28th, 2009 Claudio Tellez No comments

Um amigo postou uma lista de 10 nomes que o influenciaram em 2009: Dez Nomes para o Ano Zero.

É agradável constatar que coincidimos logo no primeiro nome – o filósofo mexicano Manuel DeLanda. Acredito que ele indica um caminho para lidar com certos questionamentos ontológicos que vêm tirando meu sono há algum tempo.

Além de DeLanda, listo outras influências importantes para mim em 2009. Não estão em ordem de importância:

  1. Hayward R. Alker
  2. Michael J. Shapiro
  3. William Connolly
  4. Stéphane Lupasco
  5. Rob Walker
  6. Nishida Kitaro
  7. Michel de Certeau
  8. Jacques Rancière
  9. Slavoj Žižek
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Entropy

December 27th, 2009 Claudio Tellez No comments
Michael Dillon says: “(…) The radical relationality of bodies (Deleuze, 1988). The emergent property of bodies contingent upon the modes of
relationality productive of and mediated by them (Foucault, 1985). (…) The temporality of being and the finitude of human
existence (Heidegger, 1984; Agamben, 1991). To put it simply, that means death and its irreversibility. To put it more technically, and in Heideggerean terms, it means being-toward-death (Heidegger, 1967)”. To put it more scientifically, that means entropy.

“(…) The radical relationality of bodies (Deleuze, 1988). The emergent property of bodies contingent upon the modes of relationality productive of and mediated by them (Foucault, 1985). (…) The temporality of being and the finitude of human existence (Heidegger, 1984; Agamben, 1991). To put it simply, that means death and its irreversibility. To put it more technically, and in Heideggerean terms, it means being-toward-death (Heidegger, 1967)”. In: DILLON, M. (2000). Post-structuralism, Complexity and Poetics. Theory, Culture & Society, v. 17, n. 5, p. 1-26.

And to put it more scientifically, that means entropy.

Leituras e traduções

December 16th, 2009 Claudio Tellez No comments

O lado ruim de estar de férias é a tendência a desordenar as leituras. Tenho aproveitado, é claro, para ler algumas coisas de ficção. Para mim, livros de ficção são, de certa forma, livros de trabalho (devido à minha inclinação para a estética como um caminho para a teoria de RI). Porém escolher livros a esmo não traz bons resultados.

Estou terminando de reler Scientific Man and Power Politics, de Hans J. Morgenthau. Para mim, é o melhor livro de Morgenthau. Pretendo fazer uma breve resenha e postar no blog assim que terminar. Ao mesmo tempo, resolvi ler alguns manuais de metodologia (Asti Vera, Domingos Salvador e Umberto Eco), já que estou entrando no clima do publish or perish. Pretendo reler Sertillanges (sempre inspirador e, apesar da inclinação espiritual, reflete o lado espartano da vida intelectual, algo que me agrada) e estou atrás de um livro de Fernand van Steenberghen, intitulado (em francês) Directives pour la confection d’une monographie scientifique avec applications concrètes aux recherches sur la philosophie médiévale. A biblioteca da PUC tem somente outros livros desse autor, todos localizados no maldito depósito externo.

Estou penando para ler O Número de Deus, de José Luis Corral, porém estou convencido de que o problema não é o autor, e sim a tradução. Li outras coisas de Corral, em espanhol, e é um autor bastante agradável. Contudo, a versão brasileira publicada pela Relume Dumará está cansativa e muito travada, não flui. Pode ser birra da minha parte, já que o espanhol é a minha língua nativa e raramente – muito raramente mesmo – leio autores hispânicos em português. Só no caso de absoluta e total falta de acesso ao original, o que, infelizmente, é o caso.

Sempre penso no problema das traduções. Umberto Eco e Asti Vera são bem claros quanto à importância de trabalhar com os autores em suas línguas originais. Pode-se objetar que tal postura limita enormemente a quantidade de autores aos quais temos acesso. Não tenho dúvidas quanto a isso, porém não se trata de abarcar todo o conhecimento universal, e sim de trabalhar com alguma área específica. Assim, o especialista em filosofia antiga não tem muita escolha e o aprendizado do grego é parte importante de sua formação. Quem deseja trabalhar com o pensamento árabe medieval não tem como escapar da língua árabe. A alternativa não representa a ingênua comodidade de lidar com as traduções dos estudiosos consagrados; representa a limitação de ter que trabalhar com as *interpretações* de tais estudiosos. Assim, se o autor X é considerado o “melhor” tradutor de Platão, a ideia não é ter a pretensão de dominar o grego melhor do que ele; trata-se de ter consciência de que toda tradução é, também, uma interpretação e, portanto, envolve escolhas, contextos, idiossincrasias e inclinações. X pode ser considerado o “melhor” tradutor, porém isso não faz dele, necessariamente, o mais adequado para alguma finalidade específica do trabalho investigativo.

Claro, se o objetivo não é mergulhar na profundidade de um determinado assunto ou autor, mas sim obter um verniz de cultura, aí sim não há necessidade alguma de dedicar-se ao aprendizado de outras línguas. Também não há necessidade de “perder tempo” lendo as obras dos autores (mesmo traduzidas). Os livros de bolso, como aqueles da coleção de autores em 90 minutos, são suficientes.

O ponto não é dominar as outras línguas com a profundidade de um filólogo. Trata-se de ter um conhecimento instrumental suficiente que permita, com o auxílio de um bom dicionário, trabalhar com os originais. Os tradutores consagrados e os principais comentadores não são, de forma alguma, dispensáveis. O estudioso deve trabalhar com esse material, porém o contato com as fontes originais é fundamental. Neste aspecto, estou de acordo com Bernard Lonergan, que deixa bem clara a importância de, no trabalho hermenêutico, aprender a língua do texto que se pretende interpretar. É claro que alguns textos praticamente não exigem esforço hermenêutico – Lonergan recorre ao exemplo dos Elementos de Euclides, uma obra cujas dificuldades de compreensão residem mais no leitor do que na obra em si. Textos bíblicos, por outro lado, mesmo que utilizem uma linguagem bem mais simples do que Euclides, representam um manancial inesgotável de interpretações, muitas delas contraditórias. Basta passear pelas estantes de qualquer biblioteca de Teologia para dar-se conta da quantidade de livros dedicados aos mais diversos pontos de vista sobre os Evangelhos.

Ao lado dos textos bíblicos, que são a maior preocupação para Lonergan, acrescento que a maior parte das obras filosóficas exigem um esforço hermenêutico. Dessa maneira, o trabalho com a língua original torna-se necessário. Diante da objeção de que o aprendizado de uma língua nova significa perder um tempo que poderia ser aproveitado com outras leituras, pode-se responder que: (1) não se trata de aprender a língua com finalidades comunicativas; o objetivo não é falar e escrever em alemão, ou grego, ou latim, mas sim obter o conhecimento gramatical mínimo e saber trabalhar com as ferramentas necessárias para ter acesso aos textos; (2) o aprendizado de uma língua específica representa um enriquecimento cultural e, nesse sentido, não constitui perda de tempo; (3) abdicar do estudo da língua e “aproveitar o tempo” para ler mais traduções significa uma perda de tempo maior ainda, porque fazer um trabalho medíocre e incompleto, isso sim é desperdiçar esforço intelectual; (4) depois do “General Will”, minha namorada não confia mais em traduções.

A ideia de que servir-se de um bom tradutor é suficiente reflete a visão ingênua de que a linguagem é apenas um meio, um instrumento transparente, que realiza a mediação entre o leitor e o conteúdo do texto. Afirmar que a ideia é a mesma, independente da linguagem em que ela se expressa, satisfaz apenas superficialmente. Há uma relação mais delicada entre a linguagem e o contexto cultural, entre a linguagem e a estruturação do pensamento do autor. Isso se perde quando lida-se com relações de equivalência entre as linguagens. Desconsiderar/desprezar a relação linguagem-lógica-cultura, a partir da ideia de que há apenas um padrão válido de raciocínio e da crença na instrumentalidade da linguagem é manifestar etnocentrismo cognitivo.

Pode-se objetar que, por mais que nos dediquemos ao aprendizado da outra língua, isso não significa aprender a pensar em outra cultura. É verdade. Porém permite ter uma proximidade maior com essa outra cultura, o que já é uma vantagem. Além disso, mesmo que a *nossa* tradução seja apenas *mais uma* tradução, mesmo que ela seja infinitamente inferior às traduções dos estudiosos consagrados, ela apresenta outra vantagem: foi realizada tendo em mente o *nosso objetivo específico*. Nesse aspecto, ela é infinitamente superior mesmo às traduções mais reverenciadas e sacramentadas.

Concluindo, se o objetivo é realmente dominar um determinado assunto, não há lugar para a preguiça. A busca por atalhos pode ser um hábito cultural, a lei do menor esforço pode satisfazer ao utilitarista enrustido, porém ad astra per aspera ainda é o único lema que deve orientar quem pretende dedicar-se à vida intelectual.

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