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Um Experimento na Crítica Literária

December 7th, 2009 Claudio Tellez No comments

LEWIS, C. S. (2009). Um Experimento na Crítica Literária. São Paulo: Editora UNESP.

A leitura de Um Experimento na Crítica Literária suscitou diversas reflexões, a começar pela qualidade da tradução. Infelizmente, não tive acesso ao original. Contudo, aparentemente o trabalho de tradução foi bem feito, a começar pelo título, que reproduz quase fielmente o original An Experiment in Criticism. Estive a ponto de comprar, há alguns dias, o mesmo livro, publicado pela Porto Editora, com o título A Experiência de Ler. Mesmo não sendo uma aberração grotesca, como o que aconteceu com o livro The Physician, de Noah Gordon, publicado no Brasil com o título de O Físico, a escolha da Porto Editora não foi feliz. O livro de C. S. Lewis trata da leitura, porém não é um manual para leitores ou uma discussão da leitura como uma experiência. Há uma enorme diferença entre a leitura e a crítica literária. O livro de C. S. Lewis trata da crítica de obras literárias, explorando um caminho pouco convencional.

C. S. Lewis é de uma rabugice elegante quando propõe que, ao invés de julgar os livros, a crítica poderia partir de um julgamento da leitura e dos leitores. Para atingir seu objetivo, ele começa distinguindo entre leitores literariamente letrados e iletrados (no original: literary e unliterary). Enquanto os letrados têm uma relação especial com a leitura, que participa de sua construção como pessoas e que é um fim em si mesma, os iletrados veem na leitura apenas um passatempo na falta de coisa melhor. A distinção de C. S. Lewis entre os “muitos” iletrados e os “poucos” letrados pode parecer pejorativa e despertar a ira de quem dedica-se à caça de elitismos. Entretanto, o autor foi cuidadoso e discutiu inclusive o exemplo dos críticos profissionais que lidam com os livros apenas como material de trabalho e que, nas horas de lazer, não desenvolvem uma relação com os livros como a dos leitores letrados. Assim, a distinção entre letrados e iletrados não separa entre “melhores” e “piores”, “cultos” e “incultos” ou “civilizados” e “bárbaros”. Para C. S. Lewis, os dois tipos de leitores podem ser identificados desde muito cedo e “já estão prenunciados no berço”.

Trata-se, portanto, de uma questão de talento e de aptidão? A leitura é um talento que pode ser aprimorado através do trabalho disciplinado, porém que não pode ser imposto a qualquer custo? Em grande parte, essa é a ideia que C. S. Lewis expressa. As categorias não são fixas e um leitor iletrado pode tornar-se letrado, porém para isso ele deve mudar suas atitudes perante a leitura. Sem vontade – o que, necessariamente, deve vir antes da força de vontade – essa transformação não ocorrerá. A maioria dos leitores iletrados de hoje em dia, observo, deseja permanecer assim. Retomarei esse ponto mais adiante.

O que diferencia os leitores iletrados dos letrados? Basicamente, a diferença entre uso e apreciação. C. S. Lewis afirma que “muitos usam a arte e poucos a recebem”. Um quadro é mais do que a ideia que ele transmite e a música é mais do que a linha melódica. Contudo, o espectador que apenas usa músicas e quadros rejeita tudo aquilo que não satisfaz rapidamente suas necessidades. Assim, o que não pode ser imediatamente usado é ignorado e o espectador não se torna um apreciador. A apreciação requer receptividade e, mais ainda, requer, para C. S. Lewis, uma receptividade obediente. A apreciação não deve ser passiva, dado que o elemento imaginativo precisa estar presente. Porém a atividade imaginativa envolve uma propensão a obeceder aquilo a que a obra de arte conduz o espectador.

No caso da leitura, o leitor iletrado simplesmente não se interessa pela maneira como o escritor compõe as palavras para formar seu texto. Os elementos prosódicos são dispensáveis, as cacofonias não são percebidas e tudo o que importa são a mensagem e os acontecimentos. Observo que é isso o que faz com que os leitores literariamente iletrados não se sintam incomodados quando leem uma tradução (ou quando assistem a um filme dublado), mesmo tendo acesso ao original. É claro que não precisamos ser conhecedores de todas as línguas do mundo para poder apreciar a literatura universal. Entretanto, diante da Eneida, um leitor literariamente letrado que desconhece o latim pode pensar: “Ah, como eu gostaria de aprender latim para poder aproximar-me pelo menos um pouco mais de Virgílio, da maneira como ele compôs sua obra e assim entender melhor como ele escolheu cuidadosamente as palavras para obter uma certa cadência, uma determinada sonoridade”. Assim como o pintor utiliza-se das tintas, o escritor trabalha com as palavras, com a linguagem. Concentrar-se apenas nos acontecimentos narrados é tratar a linguagem como um meio transparente que proporciona o nosso acesso à realidade, é despi-la de seu contexto histórico e cultural.

Ler não é apenas mover os olhos, interpretar não é somente extrair a ideia central e reconstruir – seguindo uma sequencia lógica – os acontecimentos presentes na narrativa. Ler para apreciar requer um movimento de receptividade que resulta na abertura de todos os sentidos do leitor. É assim que sabores, odores, cores e texturas ganham vida durante a leitura. Italo Calvino explorou a dimensão sensorial do ser humano nos contos que compõem Sob o Sol Jaguar. O leitor iletrado não consegue, portanto, sequer entender a mensagem que Calvino deseja transmitir. Dificilmente, contudo, um leitor iletrado manifesta interesse por Calvino, pois ele prefere palavras e expressões que o coloquem em contato mais imediato com os acontecimentos narrados.

C. S. Lewis também discute por que os leitores iletrados não conseguem apreciar mitos e narrativas fantásticas. O impossível e o sobrenatural afastam os iletrados, que preferem ter contato com aquilo que eles consideram ser a experiência direta do mundo real. Assim, um romance de espionagem – repleto de clichés hollywoodianos, exageros e teorias conspirativas – pode chamar-lhes mais a atenção por parecer-lhes mais “realista” do que uma obra como As Crônicas de Nárnia, que consideram tola e infantil por ser fantasiosa. C. S. Lewis observa, ironicamente, que os iletrados “exigem a observância rigorosa das leis naturais tal como as conhecem”, isto é, não têm capacidade imaginativa para sair do balde de Newton. Dessa maneira, atribuem veracidade a narrativas ficcionais que satisfazem suas carências afetivas, porém que não são menos fictícias do que O Senhor dos Anéis ou Alice no País das Maravilhas. Indo um pouco mais longe, afirmo que grande parte do pensamento que estabelece a necessidade de separar entre ficção e não-ficção caracteriza-se pela mesma miopia imaginativa, que valida apenas uma determinada maneira de pensar, dentro de certos cânones de racionalidade, diante do julgamento severo da sabedoria das verdades eternas e em obediência a uma lógica específica e imutável – ainda que essa lógica seja insuficiente perante diversos fenômenos do mundo natural/real, que esses pensadores consideram um porto seguro para a elaboração de suas teorias.

Não entrarei, aqui, no mérito da questão de como definir o que é uma obra literária. Tampouco discutirei a relação entre a ficção e o real, ou como elementos valorativos e convencionais participam tanto da construção de uma narrativa imaginativa quanto da elaboração de diversas teorias que aspiram à cientificidade como ideal. O tratamento de tais questões demandaria muito mais espaço e prefiro reservá-las para outras ocasiões. É importante observar, entretanto, que C. S. Lewis dedica parte de seu livro para discutir tanto a maneira como o realismo aparece na literatura quanto as confusões interpretativas que transformam o realismo em uma exigência para satisfazer a necessidades terapêuticas.

Observei, anteriormente, que a maioria dos leitores iletrados de hoje em dia deseja permanecer nesse estado. C. S. Lewis escreveu seu livro em 1961 e, já naquela época, a sua rabugice elegante expressava uma nostálgica tristeza. Se tanto leitores literariamente letrados quanto iletrados tinham em comum ao menos uma coisa – o ato de ler, obviamente – o que temos hoje (e que já começava a perceber-se no início da década de 1960) é uma sistemática desvalorização da leitura. Assim, C. S. Lewis não estava apenas preocupado em chamar a atenção para o fato de que a maioria dos leitores não sabe ler; a crítica subjacente é a observação de uma deterioração progressiva do valor da leitura. Os resultados, algumas décadas depois, são palpáveis. O imediatismo que descreve o leitor iletrado de C. S. Lewis reflete-se, hoje, em uma geração apática e desinteressada.

Diversos fatores contribuiram para que chegássemos a esse estado de coisas, porém C. S. Lewis chama a atenção para o tratamento da literatura nas escolas e universidades. Ocorreu, por exemplo, uma proliferação dos Estileiros (style-mongers), que sacrificam a expressividade em nome de regras e padrões que pretendem configurar um ideal de perfeição estilística, eliminando assim o valor artístico e tolhendo a impressão estética. Ademais, os estudantes vêm sendo cada vez mais condicionados a uma postura de desconfiança, devido às pressões que enfrentam para produzirem críticas antes mesmo de saberem o que estão criticando. Esse tema também é explorado por Francine Prose em How to Read Like a Writer. Assim como C. S. Lewis, Prose também mostra preocupação diante da incapacidade que os estudantes têm, nos dias de hoje, de apreciarem uma obra literária.

C. S. Lewis apresenta um caminho para a crítica que evita a sacralização de convenções e certos modismos acadêmicos. Assim, classificamos um livro como bom quando ele nos proporciona experiências positivas, quando nos convida a releituras, quando provoca impressões que não são apenas passageiras. Porém não podemos afirmar que um determinado livro é ruim apenas porque não suscitou tais respostas de nossa parte, pois sempre podemos estar errados e outros leitores podem ter impressões distintas. A visão de C. S. Lewis reflete suas experiências de vida, sua formação pessoal, seus valores e suas crenças. Condená-lo por uma ou outra afirmação etnocêntrica seria perder a visão do conjunto, uma atitude típica de quem condena toda a obra de um autor por uma opinião particular, desconsiderando o contexto histórico e sócio-cultural mais amplo do qual essa opinião faz parte. Da mesma forma, seria virulência mesquinha afirmar que Um Experimento na Crítica Literária apresenta sugestões que, muito convenientemente, favorecem o tipo de literatura que o próprio C. S. Lewis produziu.

O livro de C. S. Lewis tem o mérito de apresentar um diagnóstico da relação atual entre as pessoas e os livros. Assim, apesar de escrito no início da década de 1960, trata-se de uma obra de importância atual. A perda progressiva da capacidade de apreciar a literatura nos leva a um distanciamento cada vez maior de nós mesmos. Através da valorização excessiva do imediatismo e das soluções práticas, em detrimento da reflexão cuidadosa e da contemplação, abandonamos paulatinamente o aspecto moral da literatura e das artes em geral, promovendo assim um modelo de intelecção baseado no isolamento e distanciamento, ao invés de no contato e aproximação. Abandonar a ficção imaginativa é, portanto, abrir mão da capacidade de pensar e de conhecer para além dos cânones reverenciados como a única maneira de produzir pensamentos e conhecimentos legítimos.

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