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	<title>Claudio Téllez &#187; Livros</title>
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	<description>&#34;Lasciate ogne speranza, voi ch&#039;intrate.&#34; (Dante Alighieri)</description>
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		<title>Um Experimento na Crítica Literária</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Dec 2009 02:50:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudio Tellez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[LEWIS, C. S. (2009). Um Experimento na Crítica Literária. São Paulo: Editora UNESP.
A leitura de Um Experimento na Crítica Literária suscitou diversas reflexões, a começar pela qualidade da tradução. Infelizmente, não tive acesso ao original. Contudo, aparentemente o trabalho de tradução foi bem feito, a começar pelo título, que reproduz quase fielmente o original An Experiment [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>LEWIS, C. S. (2009). <strong>Um Experimento na Crítica Literária</strong>. São Paulo: Editora UNESP.</p>
<p>A leitura de <em>Um Experimento na Crítica Literária</em> suscitou diversas reflexões, a começar pela qualidade da tradução. Infelizmente, não tive acesso ao original. Contudo, aparentemente o trabalho de tradução foi bem feito, a começar pelo título, que reproduz quase fielmente o original <em>An Experiment in Criticism</em>. Estive a ponto de comprar, há alguns dias, o mesmo livro, publicado pela Porto Editora, com o título <em>A Experiência de Ler</em>. Mesmo não sendo uma aberração grotesca, como o que aconteceu com o livro <em>The Physician</em>, de Noah Gordon, publicado no Brasil com o título de <em>O Físico</em>, a escolha da Porto Editora não foi feliz. O livro de C. S. Lewis trata da leitura, porém não é um manual para leitores ou uma discussão da leitura como uma experiência. Há uma enorme diferença entre a leitura e a crítica literária. O livro de C. S. Lewis trata da crítica de obras literárias, explorando um caminho pouco convencional.</p>
<p>C. S. Lewis é de uma rabugice elegante quando propõe que, ao invés de julgar os livros, a crítica poderia partir de um julgamento da leitura e dos leitores. Para atingir seu objetivo, ele começa distinguindo entre leitores literariamente letrados e iletrados (no original: <em>literary</em> e <em>unliterary</em>). Enquanto os letrados têm uma relação especial com a leitura, que participa de sua construção como pessoas e que é um fim em si mesma, os iletrados veem na leitura apenas um passatempo na falta de coisa melhor. A distinção de C. S. Lewis entre os &#8220;muitos&#8221; iletrados e os &#8220;poucos&#8221; letrados pode parecer pejorativa e despertar a ira de quem dedica-se à caça de elitismos. Entretanto, o autor foi cuidadoso e discutiu inclusive o exemplo dos críticos profissionais que lidam com os livros apenas como material de trabalho e que, nas horas de lazer, não desenvolvem uma relação com os livros como a dos leitores letrados. Assim, a distinção entre letrados e iletrados não separa entre &#8220;melhores&#8221; e &#8220;piores&#8221;, &#8220;cultos&#8221; e &#8220;incultos&#8221; ou &#8220;civilizados&#8221; e &#8220;bárbaros&#8221;. Para C. S. Lewis, os dois tipos de leitores podem ser identificados desde muito cedo e <em>&#8220;já estão prenunciados no berço&#8221;</em>.</p>
<p>Trata-se, portanto, de uma questão de talento e de aptidão? A leitura é um talento que pode ser aprimorado através do trabalho disciplinado, porém que não pode ser imposto a qualquer custo? Em grande parte, essa é a ideia que C. S. Lewis expressa. As categorias não são fixas e um leitor iletrado pode tornar-se letrado, porém para isso ele deve mudar suas atitudes perante a leitura. Sem vontade &#8211; o que, necessariamente, deve vir antes da força de vontade &#8211; essa transformação não ocorrerá. A maioria dos leitores iletrados de hoje em dia, observo, deseja permanecer assim. Retomarei esse ponto mais adiante.</p>
<p>O que diferencia os leitores iletrados dos letrados? Basicamente, a diferença entre uso e apreciação. C. S. Lewis afirma que <em>&#8220;muitos usam a arte e poucos a recebem&#8221;</em>. Um quadro é mais do que a ideia que ele transmite e a música é mais do que a linha melódica. Contudo, o espectador que apenas usa músicas e quadros rejeita tudo aquilo que não satisfaz rapidamente suas necessidades. Assim, o que não pode ser imediatamente usado é ignorado e o espectador não se torna um apreciador. A apreciação requer receptividade e, mais ainda, requer, para C. S. Lewis, uma receptividade obediente. A apreciação não deve ser passiva, dado que o elemento imaginativo precisa estar presente. Porém a atividade imaginativa envolve uma propensão a obeceder aquilo a que a obra de arte conduz o espectador.</p>
<p>No caso da leitura, o leitor iletrado simplesmente não se interessa pela maneira como o escritor compõe as palavras para formar seu texto. Os elementos prosódicos são dispensáveis, as cacofonias não são percebidas e tudo o que importa são a mensagem e os acontecimentos. Observo que é isso o que faz com que os leitores literariamente iletrados não se sintam incomodados quando leem uma tradução (ou quando assistem a um filme dublado), mesmo tendo acesso ao original. É claro que não precisamos ser conhecedores de todas as línguas do mundo para poder apreciar a literatura universal. Entretanto, diante da Eneida, um leitor literariamente letrado que desconhece o latim pode pensar: <em>&#8220;Ah, como eu gostaria de aprender latim para poder aproximar-me pelo menos um pouco mais de Virgílio, da maneira como ele compôs sua obra e assim entender melhor como ele escolheu cuidadosamente as palavras para obter uma certa cadência, uma determinada sonoridade&#8221;.</em> Assim como o pintor utiliza-se das tintas, o escritor trabalha com as palavras, com a linguagem. Concentrar-se apenas nos acontecimentos narrados é tratar a linguagem como um meio transparente que proporciona o nosso acesso à realidade, é despi-la de seu contexto histórico e cultural.</p>
<p>Ler não é apenas mover os olhos, interpretar não é somente extrair a ideia central e reconstruir &#8211; seguindo uma sequencia lógica &#8211; os acontecimentos presentes na narrativa. Ler para apreciar requer um movimento de receptividade que resulta na abertura de todos os sentidos do leitor. É assim que sabores, odores, cores e texturas ganham vida durante a leitura. Italo Calvino explorou a dimensão sensorial do ser humano nos contos que compõem <em>Sob o Sol Jaguar</em>. O leitor iletrado não consegue, portanto, sequer entender a mensagem que Calvino deseja transmitir. Dificilmente, contudo, um leitor iletrado manifesta interesse por Calvino, pois ele prefere palavras e expressões que o coloquem em contato mais imediato com os acontecimentos narrados.</p>
<p>C. S. Lewis também discute por que os leitores iletrados não conseguem apreciar mitos e narrativas fantásticas. O impossível e o sobrenatural afastam os iletrados, que preferem ter contato com aquilo que eles consideram ser a experiência direta do mundo real. Assim, um romance de espionagem &#8211; repleto de clichés <em>hollywoodianos</em>, exageros e teorias conspirativas &#8211; pode chamar-lhes mais a atenção por parecer-lhes mais &#8220;realista&#8221; do que uma obra como <em>As Crônicas de Nárnia</em>, que consideram tola e infantil por ser fantasiosa. C. S. Lewis observa, ironicamente, que os iletrados <em>&#8220;exigem a observância rigorosa das leis naturais tal como as conhecem&#8221;</em>, isto é, não têm capacidade imaginativa para sair do balde de Newton. Dessa maneira, atribuem veracidade a narrativas ficcionais que satisfazem suas carências afetivas, porém que não são menos fictícias do que <em>O Senhor dos Anéis</em> ou <em>Alice no País das Maravilhas</em>. Indo um pouco mais longe, afirmo que grande parte do pensamento que estabelece a necessidade de separar entre ficção e não-ficção caracteriza-se pela mesma miopia imaginativa, que valida apenas uma determinada maneira de pensar, dentro de certos cânones de racionalidade, diante do julgamento severo da sabedoria das verdades eternas e em obediência a uma lógica específica e imutável &#8211; ainda que essa lógica seja insuficiente perante diversos fenômenos do mundo natural/real, que esses pensadores consideram um porto seguro para a elaboração de suas teorias.</p>
<p>Não entrarei, aqui, no mérito da questão de como definir o que é uma obra literária. Tampouco discutirei a relação entre a ficção e o real, ou como elementos valorativos e convencionais participam tanto da construção de uma narrativa imaginativa quanto da elaboração de diversas teorias que aspiram à cientificidade como ideal. O tratamento de tais questões demandaria muito mais espaço e prefiro reservá-las para outras ocasiões. É importante observar, entretanto, que C. S. Lewis dedica parte de seu livro para discutir tanto a maneira como o realismo aparece na literatura quanto as confusões interpretativas que transformam o realismo em uma exigência para satisfazer a necessidades terapêuticas.</p>
<p>Observei, anteriormente, que a maioria dos leitores iletrados de hoje em dia deseja permanecer nesse estado. C. S. Lewis escreveu seu livro em 1961 e, já naquela época, a sua rabugice elegante expressava uma nostálgica tristeza. Se tanto leitores literariamente letrados quanto iletrados tinham em comum ao menos uma coisa &#8211; o ato de ler, obviamente &#8211; o que temos hoje (e que já começava a perceber-se no início da década de 1960) é uma sistemática desvalorização da leitura. Assim, C. S. Lewis não estava apenas preocupado em chamar a atenção para o fato de que a maioria dos leitores não sabe ler; a crítica subjacente é a observação de uma deterioração progressiva do valor da leitura. Os resultados, algumas décadas depois, são palpáveis. O imediatismo que descreve o leitor iletrado de C. S. Lewis reflete-se, hoje, em uma geração apática e desinteressada.</p>
<p>Diversos fatores contribuiram para que chegássemos a esse estado de coisas, porém C. S. Lewis chama a atenção para o tratamento da literatura nas escolas e universidades. Ocorreu, por exemplo, uma proliferação dos Estileiros (<em>style-mongers</em>), que sacrificam a expressividade em nome de regras e padrões que pretendem configurar um ideal de perfeição estilística, eliminando assim o valor artístico e tolhendo a impressão estética. Ademais, os estudantes vêm sendo cada vez mais condicionados a uma postura de desconfiança, devido às pressões que enfrentam para produzirem críticas antes mesmo de saberem o que estão criticando. Esse tema também é explorado por Francine Prose em <em>How to Read Like a Writer</em>. Assim como C. S. Lewis, Prose também mostra preocupação diante da incapacidade que os estudantes têm, nos dias de hoje, de apreciarem uma obra literária.</p>
<p>C. S. Lewis apresenta um caminho para a crítica que evita a sacralização de convenções e certos modismos acadêmicos. Assim, classificamos um livro como bom quando ele nos proporciona experiências positivas, quando nos convida a releituras, quando provoca impressões que não são apenas passageiras. Porém não podemos afirmar que um determinado livro é ruim apenas porque não suscitou tais respostas de nossa parte, pois sempre podemos estar errados e outros leitores podem ter impressões distintas. A visão de C. S. Lewis reflete suas experiências de vida, sua formação pessoal, seus valores e suas crenças. Condená-lo por uma ou outra afirmação etnocêntrica seria perder a visão do conjunto, uma atitude típica de quem condena toda a obra de um autor por uma opinião particular, desconsiderando o contexto histórico e sócio-cultural mais amplo do qual essa opinião faz parte. Da mesma forma, seria virulência mesquinha afirmar que <em>Um Experimento na Crítica Literária</em> apresenta sugestões que, muito convenientemente, favorecem o tipo de literatura que o próprio C. S. Lewis produziu.</p>
<p>O livro de C. S. Lewis tem o mérito de apresentar um diagnóstico da relação atual entre as pessoas e os livros. Assim, apesar de escrito no início da década de 1960, trata-se de uma obra de importância atual. A perda progressiva da capacidade de apreciar a literatura nos leva a um distanciamento cada vez maior de nós mesmos. Através da valorização excessiva do imediatismo e das soluções práticas, em detrimento da reflexão cuidadosa e da contemplação, abandonamos paulatinamente o aspecto moral da literatura e das artes em geral, promovendo assim um modelo de intelecção baseado no isolamento e distanciamento, ao invés de no contato e aproximação. Abandonar a ficção imaginativa é, portanto, abrir mão da capacidade de pensar e de conhecer para além dos cânones reverenciados como a única maneira de produzir pensamentos e conhecimentos legítimos.</p>
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