Human ambition
“The universe is not required to be in perfect harmony with human ambition.”
Carl Sagan
“The universe is not required to be in perfect harmony with human ambition.”
Carl Sagan
… segue uma excelente indicação postada por amanda vox.
Um amigo postou uma lista de 10 nomes que o influenciaram em 2009: Dez Nomes para o Ano Zero.
É agradável constatar que coincidimos logo no primeiro nome – o filósofo mexicano Manuel DeLanda. Acredito que ele indica um caminho para lidar com certos questionamentos ontológicos que vêm tirando meu sono há algum tempo.
Além de DeLanda, listo outras influências importantes para mim em 2009. Não estão em ordem de importância:
“(…) The radical relationality of bodies (Deleuze, 1988). The emergent property of bodies contingent upon the modes of relationality productive of and mediated by them (Foucault, 1985). (…) The temporality of being and the finitude of human existence (Heidegger, 1984; Agamben, 1991). To put it simply, that means death and its irreversibility. To put it more technically, and in Heideggerean terms, it means being-toward-death (Heidegger, 1967)”. In: DILLON, M. (2000). Post-structuralism, Complexity and Poetics. Theory, Culture & Society, v. 17, n. 5, p. 1-26.
And to put it more scientifically, that means entropy.
O lado ruim de estar de férias é a tendência a desordenar as leituras. Tenho aproveitado, é claro, para ler algumas coisas de ficção. Para mim, livros de ficção são, de certa forma, livros de trabalho (devido à minha inclinação para a estética como um caminho para a teoria de RI). Porém escolher livros a esmo não traz bons resultados.
Estou terminando de reler Scientific Man and Power Politics, de Hans J. Morgenthau. Para mim, é o melhor livro de Morgenthau. Pretendo fazer uma breve resenha e postar no blog assim que terminar. Ao mesmo tempo, resolvi ler alguns manuais de metodologia (Asti Vera, Domingos Salvador e Umberto Eco), já que estou entrando no clima do publish or perish. Pretendo reler Sertillanges (sempre inspirador e, apesar da inclinação espiritual, reflete o lado espartano da vida intelectual, algo que me agrada) e estou atrás de um livro de Fernand van Steenberghen, intitulado (em francês) Directives pour la confection d’une monographie scientifique avec applications concrètes aux recherches sur la philosophie médiévale. A biblioteca da PUC tem somente outros livros desse autor, todos localizados no maldito depósito externo.
Estou penando para ler O Número de Deus, de José Luis Corral, porém estou convencido de que o problema não é o autor, e sim a tradução. Li outras coisas de Corral, em espanhol, e é um autor bastante agradável. Contudo, a versão brasileira publicada pela Relume Dumará está cansativa e muito travada, não flui. Pode ser birra da minha parte, já que o espanhol é a minha língua nativa e raramente – muito raramente mesmo – leio autores hispânicos em português. Só no caso de absoluta e total falta de acesso ao original, o que, infelizmente, é o caso.
Sempre penso no problema das traduções. Umberto Eco e Asti Vera são bem claros quanto à importância de trabalhar com os autores em suas línguas originais. Pode-se objetar que tal postura limita enormemente a quantidade de autores aos quais temos acesso. Não tenho dúvidas quanto a isso, porém não se trata de abarcar todo o conhecimento universal, e sim de trabalhar com alguma área específica. Assim, o especialista em filosofia antiga não tem muita escolha e o aprendizado do grego é parte importante de sua formação. Quem deseja trabalhar com o pensamento árabe medieval não tem como escapar da língua árabe. A alternativa não representa a ingênua comodidade de lidar com as traduções dos estudiosos consagrados; representa a limitação de ter que trabalhar com as *interpretações* de tais estudiosos. Assim, se o autor X é considerado o “melhor” tradutor de Platão, a ideia não é ter a pretensão de dominar o grego melhor do que ele; trata-se de ter consciência de que toda tradução é, também, uma interpretação e, portanto, envolve escolhas, contextos, idiossincrasias e inclinações. X pode ser considerado o “melhor” tradutor, porém isso não faz dele, necessariamente, o mais adequado para alguma finalidade específica do trabalho investigativo.
Claro, se o objetivo não é mergulhar na profundidade de um determinado assunto ou autor, mas sim obter um verniz de cultura, aí sim não há necessidade alguma de dedicar-se ao aprendizado de outras línguas. Também não há necessidade de “perder tempo” lendo as obras dos autores (mesmo traduzidas). Os livros de bolso, como aqueles da coleção de autores em 90 minutos, são suficientes.
O ponto não é dominar as outras línguas com a profundidade de um filólogo. Trata-se de ter um conhecimento instrumental suficiente que permita, com o auxílio de um bom dicionário, trabalhar com os originais. Os tradutores consagrados e os principais comentadores não são, de forma alguma, dispensáveis. O estudioso deve trabalhar com esse material, porém o contato com as fontes originais é fundamental. Neste aspecto, estou de acordo com Bernard Lonergan, que deixa bem clara a importância de, no trabalho hermenêutico, aprender a língua do texto que se pretende interpretar. É claro que alguns textos praticamente não exigem esforço hermenêutico – Lonergan recorre ao exemplo dos Elementos de Euclides, uma obra cujas dificuldades de compreensão residem mais no leitor do que na obra em si. Textos bíblicos, por outro lado, mesmo que utilizem uma linguagem bem mais simples do que Euclides, representam um manancial inesgotável de interpretações, muitas delas contraditórias. Basta passear pelas estantes de qualquer biblioteca de Teologia para dar-se conta da quantidade de livros dedicados aos mais diversos pontos de vista sobre os Evangelhos.
Ao lado dos textos bíblicos, que são a maior preocupação para Lonergan, acrescento que a maior parte das obras filosóficas exigem um esforço hermenêutico. Dessa maneira, o trabalho com a língua original torna-se necessário. Diante da objeção de que o aprendizado de uma língua nova significa perder um tempo que poderia ser aproveitado com outras leituras, pode-se responder que: (1) não se trata de aprender a língua com finalidades comunicativas; o objetivo não é falar e escrever em alemão, ou grego, ou latim, mas sim obter o conhecimento gramatical mínimo e saber trabalhar com as ferramentas necessárias para ter acesso aos textos; (2) o aprendizado de uma língua específica representa um enriquecimento cultural e, nesse sentido, não constitui perda de tempo; (3) abdicar do estudo da língua e “aproveitar o tempo” para ler mais traduções significa uma perda de tempo maior ainda, porque fazer um trabalho medíocre e incompleto, isso sim é desperdiçar esforço intelectual; (4) depois do “General Will”, minha namorada não confia mais em traduções.
A ideia de que servir-se de um bom tradutor é suficiente reflete a visão ingênua de que a linguagem é apenas um meio, um instrumento transparente, que realiza a mediação entre o leitor e o conteúdo do texto. Afirmar que a ideia é a mesma, independente da linguagem em que ela se expressa, satisfaz apenas superficialmente. Há uma relação mais delicada entre a linguagem e o contexto cultural, entre a linguagem e a estruturação do pensamento do autor. Isso se perde quando lida-se com relações de equivalência entre as linguagens. Desconsiderar/desprezar a relação linguagem-lógica-cultura, a partir da ideia de que há apenas um padrão válido de raciocínio e da crença na instrumentalidade da linguagem é manifestar etnocentrismo cognitivo.
Pode-se objetar que, por mais que nos dediquemos ao aprendizado da outra língua, isso não significa aprender a pensar em outra cultura. É verdade. Porém permite ter uma proximidade maior com essa outra cultura, o que já é uma vantagem. Além disso, mesmo que a *nossa* tradução seja apenas *mais uma* tradução, mesmo que ela seja infinitamente inferior às traduções dos estudiosos consagrados, ela apresenta outra vantagem: foi realizada tendo em mente o *nosso objetivo específico*. Nesse aspecto, ela é infinitamente superior mesmo às traduções mais reverenciadas e sacramentadas.
Concluindo, se o objetivo é realmente dominar um determinado assunto, não há lugar para a preguiça. A busca por atalhos pode ser um hábito cultural, a lei do menor esforço pode satisfazer ao utilitarista enrustido, porém ad astra per aspera ainda é o único lema que deve orientar quem pretende dedicar-se à vida intelectual.
Começarei esta reflexão contando uma pequena história.
Eu estava dentro de um ônibus, esperando o motorista chegar, sem nada para ler. O ar condicionado estava ligado, as janelas obviamente estavam fechadas e, de repente, uma borboleta entrou pela porta.
Logo depois, uma criança entrou no ônibus, seguida pela mãe. Ao passar pela roleta, exclamou: “Olha, mãe, uma borboleta! Vou lá matar!”
Senti imediatamente a raiva se acumulando, em um ponto logo abaixo do meu umbigo.
Assim que o moleque passou por mim, falei bem alto: “Ô garoto, essa borboleta te fez alguma coisa por acaso?”
Ele não respondeu. Mas a mãe saiu em sua defesa: “Olha, ninguém merece uma borboleta dentro do ônibus.”
Ao que respondi imediatamente: “É? E ela vai fazer o quê, vai te picar por acaso?”
A mulher ficou sem graça e apanhou a borboleta, tentando ser cuidadosa. Ela me entregou o inseto, murmurando que seria impossível tirá-lo de lá.
Fui até o cobrador, expliquei a situação e ele abriu um pouco a sua janela. Problema resolvido. Podia ter acabado aí. Mas as pessoas dificilmente aproveitam as oportunidades de manter a boca fechada. Logo que voltei para o meu lugar, a mulher resolveu comentar: “Não precisava disso tudo, que besteira.”
Olhei para ela e respondi: “Olha, se uma pessoa não aprende a respeitar a vida enquanto ainda é criança, depois vira bandido e não sabe por que.”
Nesse momento, todas as pessoas começaram a olhar para a cara dela. Eu fiquei apenas sentado e comecei a olhar pela janela. Não aconteceu mais nada.
***
Por que agi assim? Talvez pelo peso das circunstâncias. Ou por estar questionando, à luz da minha vida presente, escolhas que fiz no passado. Como pode uma cultura que verdadeiramente valoriza a vida, em todas as suas formas, levar ao vazio moral, ao relativismo e ao niilismo? Tal acusação acaso não parte de uma outra cultura, que arroga ao ser humano o direito – por mandato divino – de vida e morte sobre todas as criaturas? Por acaso o cultivo da tolerância implica necessariamente no relativismo, enquanto a imposição de uma única forma legítima de pensamento representa o único caminho válido para a “salvação”?
Seria fácil atribuir determinadas posturas e preconceitos à pura e simples ignorância. Contudo, tais posturas e preconceitos derivam de elementos culturais e de interpretações morais que sustentam ordenamentos políticos, que legitimam práticas, que demarcam – em nome de um certo ideal de civilização – as fronteiras de uma humanidade comum, a partir da imediata definição de quem não merece pertencer a tal humanidade.
Claro, as fronteiras dessa “humanidade” abrigam tanto os justos quanto os que se divertem praticando tiro ao alvo em uma cadela, tanto as pessoas que trabalham para o bem de sua família quanto o meliante que atira em um bebê. São apenas exemplos isolados, estou ciente disso, mas é a partir da acomodação de diversas contradições internas que uma certa visão do mundo e do ser humano consegue perpetuar-se. Dessa maneira, os exemplos citados, assim como muitos outros, passam a fazer parte de algo maior, passam a refletir problemas muito mais profundos.
Felizmente, sempre é tempo de mudar, de querer retornar ao centro, de procurar o equilíbrio entre a força e a suavidade e de perceber que nunca estamos fora do tempo e do contexto. Sempre é tempo de admitir os próprios erros, tirar a venda dos olhos e voltar a buscar a perfeição em tudo o que fazemos. Sempre é tempo de não desistir e de não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.
As últimas semanas têm sido atribuladas. Para resumir:
1. Mudei mais uma vez. Estou cansado disso. O lado bom é que, se nada mais der certo, posso abrir uma empresa de mudanças.
2. Estou na metade da dissertação, porém o prazo é curto. Pretendo fechar o segundo capítulo nos próximos dias.
3. O início da modernidade é, de fato, um período fascinante para quem tem inclinações teóricas.
4. Estou relendo Musashi.
5. Estou trabalhando o meu pessimismo, mas acho que não vou conseguir.
As últimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Infelizmente, tive pouco tempo para o blogue. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.
1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de quase sempre querer ler mais e mais antes de começar a colocar minhas ideias no papel…
2. … o que não significa, é claro, que devemos cortar as leituras! Há que ser seletivo e priorizar o pensamento sobre a leitura, mas isso não é a mesma coisa que ser preguiçoso. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.
3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi imediatamente o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!
4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.
5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.
6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar da minha identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha própria identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.
7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam são as de caráter filosófico. Não estou interessado em modelinhos ou em fazer contas. Já há suficientes economistas, engenheiros e calculadoras. Sempre gostei dos problemas que a Matemática coloca para o pensamento mas nunca me senti atraído pelo impulso à musculação cerebral e ao treino de habilidades quase circenses para manipular técnicas de demonstração. Há quem goste de resolver problemas, eu prefiro criá-los.
8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.
9. Detalhe: paguei USD 14,00 só para citar um trecho de Anil’s Ghost no meu paper. Explico: li o livro em português – foi publicado aqui com o título medonho de “Bandeiras Pálidas” ([ironia]tudo a ver com Anil’s Ghost, sem dúvida![/ironia]). Como seria bizarro eu mesmo traduzir o trecho em questão do português para o inglês, acabei pagando por uma edição eletrônica do original. O que eu não faço para bater no cosmopolitismo!
10. Já tenho um inimigo para a minha dissertação: o R2P.
11. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.
12. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.
13. O Wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.
No paper Political Sociology and the Problem of the International (Millennium, v. 35, n. 3, p. 725-739, 2007), Didier Bigo e R. B. J. Walker exploram diversas analogias topológicas para discutir o tema das fronteiras e a distinção entre interno e externo na vida social e política. A Topologia é uma área da matemática que estuda as propriedades dos espaços geométricos e, nesse sentido, é mais fundamental do que a geometria, já que duas figuras geométricas diferentes podem ser indistinguíveis sob o ponto de vista topológico. É por isso que um topólogo não consegue distinguir entre uma rosquinha e uma xícara de café (pois uma pode ser transformada, de forma contínua, na outra e vice-versa).
As analogias propostas por Walker e Bigo mostram que os objetos topológicos não servem somente para o deleite dos matemáticos ou para o estudo de certas questões em Cosmologia e Física Teórica. Aliás, a Topologia tem fascinado pensadores de diversas áreas. Lacan, por exemplo, utilizou superfícies topológicas para estudar processos em psicanálise e o problema da identidade e diferença. Borges, só para dar outro exemplo, insere diversas ideias matemáticas em seu conto de sabor místico “La Biblioteca de Babel”, utilizando em particular vários conceitos geométricos e topológicos na descrição das formas da Biblioteca.
A Topologia, por lidar com formas geométricas e suas transformações, leva aos limites as nossas faculdades imaginativas e presta-se para estabelecer analogias em diversas áreas do conhecimento. Contudo, é possível transcender as analogias e lidar de forma direta com diversas questões teóricas em Relações Internacionais a partir de conceitos e resultados matemáticos. A violência cartográfica e suas implicações na construção de identidades políticas, por exemplo, pode expressar-se por meio de classes de equivalência que particionam o mapa. Trata-se de uma descrição que sintetiza a essência da criação dos espaços políticos e que abre a perspectiva de utilizar o formalismo algébrico para estudar, de maneira relacional, as interações entre o Self e os Outros nas concepções da modernidade.
Grande parte da disciplina de RI ainda não saiu do balde de Newton, no sentido de que o entendimento de um espaço “sempre similar e imóvel” e um tempo que “flui de maneira equânime, sem relação com qualquer coisa externa” (nas palavras do próprio Newton) é o que sustenta uma forma específica de interpretar o mundo e de produzir conhecimento. É a descrição newtoniana do espaço e do tempo que alimenta, afinal de contas, a percepção da possibilidade de alcançar leis gerais que descrevem todo o conhecimento passado e futuro a partir do estado do sistema em um dado momento.
A visão newtoniana de espaço e de tempo, contudo, não é consensual. Para diversos povos da Mesoamérica, por exemplo, a própria cosmogonia indicava uma organização espaço-temporal ao mesmo tempo integrada e cíclica, baseada no cultivo da planta sagrada – o milho. À época dos Descobrimentos, enquanto os europeus tratavam separadamente os mapas geográficos e os calendários, os maias e astecas representavam, em seus códices, de maneira simultânea, tanto a organização do espaço quanto o seu entendimento geométrico do fluxo temporal. O códice Fejérváry-Mayer, por exemplo, descreve o tempo e o espaço em estreita relação com a economia e a organização política, através de uma cuidadosa articulação mitológico-cosmogônica em torno do milho e de outros elementos mágico-religiosos contidos no Popol Vuh – o livro sagrado.
Assim, a existência de diferentes concepções de espaço-temporalidade, ou seja, de diversos entendimentos da geometria/topologia do espaço e do tempo, representa um desafio não somente ao estudo das relações políticas e sociais entre diferentes povos, mas também à própria prática etnográfica. Para fazer uma reflexão auto-crítica a partir da perspectiva do Outro, há que transcender os pré-conceitos que informam nosso entendimento do espaço e do tempo; para superar o imaginário político da modernidade ocidental e vislumbrar, a partir de uma postura crítica, alternativas às formas vigentes de organização política, há que questionar as bases do arcabouço newtoniano-kantiano que reproduz um determinado ideal de cientificidade e que limita a imaginação teórica somente às duas possibilidades que se expressam no debate entre cosmopolitas e comunitaristas.
Para autores como Inayatullah e Blaney, essa limitação poderia ser superada questionando a “lógica das linhas retas” que sustenta o princípio moderno da soberania e o entendimento tradicional do conceito de propriedade. Para tanto, em International Relations and the Problem of Difference (2004), eles chamam a atenção para a importância de investigar concepções espaciais alternativas, baseadas na heterogeneidade, sobreposição e relatividade. Uma dessa concepções, que infelizmente não foi trabalhada pelos autores e que se opõe frontalmente à visão newtoniana predominante na disciplina de RI, aparece em Leibniz, que entendia o espaço como sendo construído a partir de situações posicionais puras e das relações entre os elementos nele contidos e o tempo como uma ordem relativa de sucessões. A partir de sua ontologia espaço-temporal relacional e de suas investigações lógico-filosóficas, Leibniz deu início ao campo da Topologia (que chamava de analysis situs) e antecipou, em mais de dois séculos, o estudo da complexidade computacional e da teoria algorítmica da informação (para mais informações a esse respeito, recomendo a palestra Leibniz, Complexity and Incompleteness, de Greg Chaitin). Trata-se, portanto, de um pensador que deveria ser mais explorado na disciplina de RI.
A Matemática tem muito a contribuir para a disciplina de RI e não pretendo esgotar o tema neste post. Já há uma utilização corriqueira de resultados da Estatística, da Teoria dos Jogos e de vários modelos baseados em equações diferenciais, porém teóricos de orientação mais crítica, preocupados com a complexidade cultural e com a importância de um tratamento mais antropológico da disciplina também podem beneficiar-se de resultados da Matemática. Aproveitar esse potencial e ir além das analogias, contudo, requer uma maior abertura, de parte dos pensadores humanísticos e sociais, para com a misteriosa gramática da Matemática, que costuma assustar muitos não-iniciados. Isso também requer lidar com a Matemática a partir de uma perspectiva mais reflexiva e menos atlética, investindo mais esforços no aprofundamento de questões filosóficas do que na resolução mecânica e repetitiva de problemas.