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Surely You were right, Mr. Feynman!

February 20th, 2010 Claudio Tellez No comments

Como conciliar duas ou mais naturezas? O problema da polimatia é que, muitas vezes, somos tentados a querer construir pontes ao invés de simplesmente apreciar a beleza de cada área em separado. O que importa, no fim das contas, é o prazer que vem da curiosidade, a irreverência de brincar com o conhecimento, a vontade de aprender sempre um pouco mais. Mas a dificuldade reside em saber lidar com o sentimento de culpa: “estou aqui, *perdendo um tempo precioso* lendo um livro de divulgação sobre biologia evolutiva, quando eu poderia estar avançando em minhas pesquisas sobre teoria política internacional”. Perdendo tempo? Será? Durante a leitura de O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, tive vários pequenos insights a respeito do que é estar no mundo e, em última análise, sobre o que é fazer política. Longe de ser perda de tempo, foi um acréscimo à minha vida acadêmica “formal” (por assim dizer). Se esses insights serão aproveitados ou não, só o tempo dirá. De qualquer maneira, ampliei um pouco mais a minha caixa de ferramentas.

Durante os anos em que estudei Matemática, fui acusado mais de uma vez – direta e indiretamente – de falta de foco. Isso me fazia sentir mal. Eu pensava que havia algum *problema* comigo, talvez algo que devesse ser tratado, para que eu conseguisse, finalmente, desenvolver a capacidade de manter o foco na ginástica mental das disciplinas da graduação e mostrasse, assim, os resultados que eram esperados dos bacharelandos em Matemática. Depressão? TDAH? Hoje posso dizer que, felizmente, nunca tive uma situação financeira confortável, que me permitisse pagar consultas com os psiquiatras da moda e comprar os remédios mais badalados nas comunidades do Orkut. Felizmente mesmo. Caso contrário, talvez hoje eu precisasse tomar ritalinas e modafinis sempre que quisesse usar o cérebro para qualquer coisa – desde fazer palavras cruzadas até estudar textos simples.

Como resolvi o problema? Simples. Explorando outras áreas, fazendo disciplinas tais como Grego, Latim e Filosofia da Linguagem e, finalmente, decidindo cursar uma segunda faculdade – Relações Internacionais – no tempo livre que eu tinha à noite. Comecei a estudar RI “para ver qual é” e optei por RI porque o curso oferecia uma diversidade enorme de disciplinas: Política, Sociologia, História, Economia, Antropologia… Assim, decidi que seria um curso bom para ampliar meus horizontes. Terminei Matemática, mas gostei tanto de RI que resolvi fazer um mestrado. Continuei gostando tanto que meu próximo passo é o doutorado. Mantive o foco, para quem vê de fora. Gosto de RI e dedico-me com vontade aos meus estudos e às minhas pesquisas. Mas continuo gostando de Física, Matemática, Filosofia e assim por diante. Continuo acompanhando o que acontece no mundo das ciências naturais. Não perdi a capacidade de sentir algo especial quando olho para o céu estrelado ou para o formato da teia de uma aranha.

Hoje em dia, está na moda dizer-se portador de algum transtorno: TOC, TDAH, depressão, esquizofrenia, bipolaridade… a lista só aumenta! Conheço gente que tem orgulho de se dizer bipolar. Só quem já passou pela experiência de conviver com um bipolar sabe que não há nenhum orgulho nisso. Só quem experimentou de leve o que é depressão sabe que ela não encerra nenhum glamour. Também conheço gente que afirma de peito em riste ser portador de TOC, em grande parte por causa do seriado Monk. Hoje, já há quem alimente o desejo secreto de ser esquizofrênico, parece que por causa de uma certa novela. Tudo isso me faz suspeitar seriamente de quem se esconde atrás de um rótulo psiquiátrico para não fazer aquilo a que se propõe. Quando a dificuldade aumenta, é natural sentir um pouco de medo. Pode-se seguir em frente, reagindo a esse medo, ou pode-se optar pelo caminho mais fácil: auto-declarar-se incapaz e ir brincar de outra coisa.

Claro, às vezes posso fazer julgamentos errados. Às vezes a pessoa pode realmente ter algum transtorno e precisar de acompanhamento médico. Cada caso é um caso, mas isso não me impede de questionar: quantos desses casos não serão produtos de uma indústria que se alimenta da proliferação de doenças imaginárias e que, para isso, conta com a fiel ajuda de sua amiga mídia? Quantos desses diagnósticos – para quem usa essa desculpa – não são dados por profissionais que, consciente ou inconscientemente, participam da reprodução desse processo?

Uma das razões para acusar alguém de falta de foco é a própria incapacidade de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Não estou usando o termo “incapacidade”, aqui, no sentido pejorativo. Há pessoas que são de Exatas, há pessoas que são de Humanas. Na maioria dos casos, quem é de Exatas enfrenta dificuldades para entender o que fazem as pessoas que são de Humanas e vice-versa. Acontece que há algumas pessoas, bem poucas por sinal, que conseguem lidar muito bem com Humanas e Exatas ao mesmo tempo. Pois bem, quem tem facilidade para se desenvolver apenas dentro de uma área costuma  não entender essas pessoas e acha mais fácil acusá-las de superficialidade ou falta de foco. Na verdade, ser polímata não é ser disperso. Tampouco significa entender apenas superficialmente vários assuntos. O polímata é aquele sujeito que consegue desenvolver com profundidade duas ou mais áreas que, para a maioria das pessoas, são inconciliáveis. Em uma era que pressiona pela especialização, é difícil aceitar que ainda há mentes renascentistas!

Muitas vezes, apanho-me a pensar em meios de conciliar minha paixão pelas ciências exatas – especialmente a Física – com o meu trabalho acadêmico em teoria de Relações Internacionais. A existência de pontes ajudaria, sem dúvida, a lidar com o sentimento de culpa que descrevi no primeiro parágrafo. Mas há uma boa dose de incompreensão, de parte de muitos acadêmicos da minha disciplina, com respeito ao que é a ciência contemporânea. O rótulo de “positivista” é aplicado, a meu ver, de maneira muito leviana. Do outro lado, os que pretendem defender um ideal científico para a disciplina baseiam-se, muitas vezes, em uma compreensão de ciência cujo prazo de validade já expirou há muito tempo.

Quantas vezes já não escutei por aí que aplicar uma abordagem científica ao estudo das sociedades humanas implica necessariamente em reducionismo e limita o pensamento crítico? Muitas vezes, isso é de fato o que acontece. O desespero por achar covering laws ou formular modelos capazes de realizar previsões com mais precisão em um ambiente extremamente complexo pode levar, sem dúvida, a uma postura reducionista. Mas o problema não está na ciência e sim, *mais uma vez*, no (mau) uso que fazem dela. Pois a própria ciência não sobrevive sem o exercício do pensamento crítico e reflexivo, sem o questionamento incessante, sem a curiosidade e o ceticismo que encontramos em mestres como Richard Feynman ou Carl Sagan. Por que uma dada interpretação deve ser considerada como definitiva? Sempre é possível questionar mais e mais e mais! Não é necessário parar! Não é necessário estabelecer, arbitrariamente, um ponto de partida. Sempre pode-se fazer mais perguntas e refletir sobre as respostas existentes: por que tais respostas parecem confortáveis e para quem elas proporcionam conforto? Quais são os ideais e as ideologias favorecidas por essas respostas? Há mais pontos de vista que podem ser levados em consideração? Quais são as consequências de aceitar essas respostas e, com elas, a autoridade de quem as formulou? A prática científica, ao contrário do que reza o senso comum, enriquece-se quando o pesquisador leva em consideração a historicidade e a contingência.

Pontes são importantes, mas não fundamentais. Relendo Surely you’re joking, Mr. Feynman!, um livro que traz vários episódios sobre a vida de Richard Feynman, aprendi que ele tinha uma curiosidade insaciável. Feynman foi um dos maiores físicos do século XX (na minha opinião, “o” maior de todos). Porém ele nunca manteve uma postura ascética com respeito à Física e a sua curiosidade o levou a investigar um pouco em Biologia, a aprender sobre o comportamento de formigas, a inventar maneiras de abrir cofres e cadeados, a fazer um documentário sobre Tuva, a tocar tambores bongo e a decifrar códigos maias. Ele não tentou “juntar tudo isso” para auxiliar seu trabalho em Física. Não teve a intenção de descobrir uma relação entre os tambores bongo e a eletrodinâmica quântica, por exemplo. Ele apenas sentia prazer em fazer todas essas coisas. Ele gostava de diversificar, de ampliar incessantemente seus horizontes, de alimentar a sua curiosidade com relação a praticamente tudo. Sem dúvida, tal postura diante da vida contribuiu para o seu prêmio Nobel em Física e para a excelência que demonstrou em sua área principal. Ele nunca deixou a mente enferrujar.

Às vezes, é possível fazer grandes descobertas nas florestas que existem entre os feudos do conhecimento. Às vezes é até possível construir pontes que ligam dois ou mais feudos. Mas aprendi com Feynman que não é necessário fazer disso o objetivo da vida. O importante é manter viva a curiosidade, brincar com o conhecimento, questionar sem parar, desenvolver um ceticismo saudável, procurar novos ângulos para velhas questões e explorar aquilo que nos dá prazer. Assim, a questão não é como conciliar duas ou mais naturezas, mas sim como vivê-las ao máximo. Surely You were right, Mr. Feynman!

 

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E por falar em DeLanda…

December 28th, 2009 Claudio Tellez 1 comment

… segue uma excelente indicação postada por amanda vox.

Manuel DeLanda Explica Deleuze

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Influências

December 28th, 2009 Claudio Tellez No comments

Um amigo postou uma lista de 10 nomes que o influenciaram em 2009: Dez Nomes para o Ano Zero.

É agradável constatar que coincidimos logo no primeiro nome – o filósofo mexicano Manuel DeLanda. Acredito que ele indica um caminho para lidar com certos questionamentos ontológicos que vêm tirando meu sono há algum tempo.

Além de DeLanda, listo outras influências importantes para mim em 2009. Não estão em ordem de importância:

  1. Hayward R. Alker
  2. Michael J. Shapiro
  3. William Connolly
  4. Stéphane Lupasco
  5. Rob Walker
  6. Nishida Kitaro
  7. Michel de Certeau
  8. Jacques Rancière
  9. Slavoj Žižek
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Leituras e traduções

December 16th, 2009 Claudio Tellez No comments

O lado ruim de estar de férias é a tendência a desordenar as leituras. Tenho aproveitado, é claro, para ler algumas coisas de ficção. Para mim, livros de ficção são, de certa forma, livros de trabalho (devido à minha inclinação para a estética como um caminho para a teoria de RI). Porém escolher livros a esmo não traz bons resultados.

Estou terminando de reler Scientific Man and Power Politics, de Hans J. Morgenthau. Para mim, é o melhor livro de Morgenthau. Pretendo fazer uma breve resenha e postar no blog assim que terminar. Ao mesmo tempo, resolvi ler alguns manuais de metodologia (Asti Vera, Domingos Salvador e Umberto Eco), já que estou entrando no clima do publish or perish. Pretendo reler Sertillanges (sempre inspirador e, apesar da inclinação espiritual, reflete o lado espartano da vida intelectual, algo que me agrada) e estou atrás de um livro de Fernand van Steenberghen, intitulado (em francês) Directives pour la confection d’une monographie scientifique avec applications concrètes aux recherches sur la philosophie médiévale. A biblioteca da PUC tem somente outros livros desse autor, todos localizados no maldito depósito externo.

Estou penando para ler O Número de Deus, de José Luis Corral, porém estou convencido de que o problema não é o autor, e sim a tradução. Li outras coisas de Corral, em espanhol, e é um autor bastante agradável. Contudo, a versão brasileira publicada pela Relume Dumará está cansativa e muito travada, não flui. Pode ser birra da minha parte, já que o espanhol é a minha língua nativa e raramente – muito raramente mesmo – leio autores hispânicos em português. Só no caso de absoluta e total falta de acesso ao original, o que, infelizmente, é o caso.

Sempre penso no problema das traduções. Umberto Eco e Asti Vera são bem claros quanto à importância de trabalhar com os autores em suas línguas originais. Pode-se objetar que tal postura limita enormemente a quantidade de autores aos quais temos acesso. Não tenho dúvidas quanto a isso, porém não se trata de abarcar todo o conhecimento universal, e sim de trabalhar com alguma área específica. Assim, o especialista em filosofia antiga não tem muita escolha e o aprendizado do grego é parte importante de sua formação. Quem deseja trabalhar com o pensamento árabe medieval não tem como escapar da língua árabe. A alternativa não representa a ingênua comodidade de lidar com as traduções dos estudiosos consagrados; representa a limitação de ter que trabalhar com as *interpretações* de tais estudiosos. Assim, se o autor X é considerado o “melhor” tradutor de Platão, a ideia não é ter a pretensão de dominar o grego melhor do que ele; trata-se de ter consciência de que toda tradução é, também, uma interpretação e, portanto, envolve escolhas, contextos, idiossincrasias e inclinações. X pode ser considerado o “melhor” tradutor, porém isso não faz dele, necessariamente, o mais adequado para alguma finalidade específica do trabalho investigativo.

Claro, se o objetivo não é mergulhar na profundidade de um determinado assunto ou autor, mas sim obter um verniz de cultura, aí sim não há necessidade alguma de dedicar-se ao aprendizado de outras línguas. Também não há necessidade de “perder tempo” lendo as obras dos autores (mesmo traduzidas). Os livros de bolso, como aqueles da coleção de autores em 90 minutos, são suficientes.

O ponto não é dominar as outras línguas com a profundidade de um filólogo. Trata-se de ter um conhecimento instrumental suficiente que permita, com o auxílio de um bom dicionário, trabalhar com os originais. Os tradutores consagrados e os principais comentadores não são, de forma alguma, dispensáveis. O estudioso deve trabalhar com esse material, porém o contato com as fontes originais é fundamental. Neste aspecto, estou de acordo com Bernard Lonergan, que deixa bem clara a importância de, no trabalho hermenêutico, aprender a língua do texto que se pretende interpretar. É claro que alguns textos praticamente não exigem esforço hermenêutico – Lonergan recorre ao exemplo dos Elementos de Euclides, uma obra cujas dificuldades de compreensão residem mais no leitor do que na obra em si. Textos bíblicos, por outro lado, mesmo que utilizem uma linguagem bem mais simples do que Euclides, representam um manancial inesgotável de interpretações, muitas delas contraditórias. Basta passear pelas estantes de qualquer biblioteca de Teologia para dar-se conta da quantidade de livros dedicados aos mais diversos pontos de vista sobre os Evangelhos.

Ao lado dos textos bíblicos, que são a maior preocupação para Lonergan, acrescento que a maior parte das obras filosóficas exigem um esforço hermenêutico. Dessa maneira, o trabalho com a língua original torna-se necessário. Diante da objeção de que o aprendizado de uma língua nova significa perder um tempo que poderia ser aproveitado com outras leituras, pode-se responder que: (1) não se trata de aprender a língua com finalidades comunicativas; o objetivo não é falar e escrever em alemão, ou grego, ou latim, mas sim obter o conhecimento gramatical mínimo e saber trabalhar com as ferramentas necessárias para ter acesso aos textos; (2) o aprendizado de uma língua específica representa um enriquecimento cultural e, nesse sentido, não constitui perda de tempo; (3) abdicar do estudo da língua e “aproveitar o tempo” para ler mais traduções significa uma perda de tempo maior ainda, porque fazer um trabalho medíocre e incompleto, isso sim é desperdiçar esforço intelectual; (4) depois do “General Will”, minha namorada não confia mais em traduções.

A ideia de que servir-se de um bom tradutor é suficiente reflete a visão ingênua de que a linguagem é apenas um meio, um instrumento transparente, que realiza a mediação entre o leitor e o conteúdo do texto. Afirmar que a ideia é a mesma, independente da linguagem em que ela se expressa, satisfaz apenas superficialmente. Há uma relação mais delicada entre a linguagem e o contexto cultural, entre a linguagem e a estruturação do pensamento do autor. Isso se perde quando lida-se com relações de equivalência entre as linguagens. Desconsiderar/desprezar a relação linguagem-lógica-cultura, a partir da ideia de que há apenas um padrão válido de raciocínio e da crença na instrumentalidade da linguagem é manifestar etnocentrismo cognitivo.

Pode-se objetar que, por mais que nos dediquemos ao aprendizado da outra língua, isso não significa aprender a pensar em outra cultura. É verdade. Porém permite ter uma proximidade maior com essa outra cultura, o que já é uma vantagem. Além disso, mesmo que a *nossa* tradução seja apenas *mais uma* tradução, mesmo que ela seja infinitamente inferior às traduções dos estudiosos consagrados, ela apresenta outra vantagem: foi realizada tendo em mente o *nosso objetivo específico*. Nesse aspecto, ela é infinitamente superior mesmo às traduções mais reverenciadas e sacramentadas.

Concluindo, se o objetivo é realmente dominar um determinado assunto, não há lugar para a preguiça. A busca por atalhos pode ser um hábito cultural, a lei do menor esforço pode satisfazer ao utilitarista enrustido, porém ad astra per aspera ainda é o único lema que deve orientar quem pretende dedicar-se à vida intelectual.

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Fim das dúvidas

July 24th, 2009 Claudio Tellez No comments

Se eu ainda tinha alguma dúvida sobre o meu lugar no espectro teórico da disciplina de RI, hoje isso foi definitivamente resolvido. Depois da intervenção de Mike Shapiro durante a minha apresentação, agora sei perfeitamente onde me situo na disciplina. :-)

Notas Breves

July 22nd, 2009 Claudio Tellez No comments
As útimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Tive pouco tempo para o blogue, infelizmente. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.
1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de querer ler mais e mais antes de começar a escrever qualquer coisa…
2. … o que não significa, é claro, que devemos parar de ler. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.
3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!
4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.
5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.
6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar de uma identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.
7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam, nessa interação, são as de caráter filosófico.
8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.
9. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.
10. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.
11. O wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.

As últimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Infelizmente, tive pouco tempo para o blogue. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.

1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de quase sempre querer ler mais e mais antes de começar a colocar minhas ideias no papel…

2. … o que não significa, é claro, que devemos cortar as leituras! Há que ser seletivo e priorizar o pensamento sobre a leitura, mas isso não é a mesma coisa que ser preguiçoso. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.

3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi imediatamente o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!

4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.

5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.

6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar da minha identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha própria identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.

7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam são as de caráter filosófico. Não estou interessado em modelinhos ou em fazer contas. Já há suficientes economistas, engenheiros e calculadoras. Sempre gostei dos problemas que a Matemática coloca para o pensamento mas nunca me senti atraído pelo impulso à musculação cerebral e ao treino de habilidades quase circenses para manipular técnicas de demonstração. Há quem goste de resolver problemas, eu prefiro criá-los.

8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.

9. Detalhe: paguei USD 14,00 só para citar um trecho de Anil’s Ghost no meu paper. Explico: li o livro em português – foi publicado aqui com o título medonho de “Bandeiras Pálidas” ([ironia]tudo a ver com Anil’s Ghost, sem dúvida![/ironia]). Como seria bizarro eu mesmo traduzir o trecho em questão do português para o inglês, acabei pagando por uma edição eletrônica do original. O que eu não faço para bater no cosmopolitismo!

10. Já tenho um inimigo para a minha dissertação: o R2P.

11. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.

12. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.

13. O Wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.

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Não mais do que o necessário

June 27th, 2009 Claudio Tellez 2 comments

Um de meus livros prediletos é “A Vida Intelectual”, do frei dominicano Antonin-Gilbert Sertillanges (1863-1948). Trata-se de um conjunto de conselhos e orientações dedicados ao intelectual cristão, porém seu conteúdo acrescenta valor a pessoas de todos os credos e ideologias que reconhecem, no caminho do conhecimento e da intelectualidade, a sua verdadeira vocação.

Em uma dada passagem, tratando do tema dos hábitos de leitura, Sertillanges aconselha que deve-se ler pouco. Como assim, ler pouco? Tal afirmação provoca, naturalmente, um sentimento de perplexidade. Afinal de contas, a imagem que costuma representar o intelectual é a de uma pessoa mergulhada em toneladas de livros, insaciável por conhecimento, quase um asceta.

O ponto a que Sertillanges chama a atenção é que a acumulação de conhecimento, apesar de importante, não é o principal. Pensar é mais importante do que ler. O que desejamos, afinal de contas, é produzir mais conhecimento, abrir novas perspectivas, explorar outras formas de ver e interpretar o mundo. Mais do que respostas, o intelectual é ávido por novas perguntas, por trazer à tona os questionamentos negligenciados (de maneira intencional ou não). Só que as perguntas não caem do céu, não vêm mastigadas nas páginas dos livros. Assim, se há um elemento que deve ser constante, é a crítica. É através da reflexão crítica que abre-se a possibilidade de dar som aos silêncios que existem nas entrelinhas dos textos e nos quais, sem o devido cuidado, corremos o risco de acomodar o pensamento para legitimar, às vezes sem perceber, determinadas expressões de autoridade.

Para exercitar a capacidade crítica, há que abandonar a lógica de acumulação, o desejo guloso de querer saber tudo sobre tudo e, em seu lugar, abraçar uma lógica de profundidade. Ao invés de contar a leitura em páginas por minuto, ou livros por dia, a atitude deve ser a de esmiuçar um texto cuidadosamente selecionado, dialogar o tempo todo com o autor, formular perguntas nos momentos certos e fazer anotações exaustivas (não é por acaso que os livros têm margens, mesmo quando elas não são suficientes para conter certos teoremas importantes). Meus livros, por exemplo, são repletos de marcas, anotações, símbolos herméticos, esquemas, referências a outros textos e, é claro, manchas de café.

Não se trata, na verdade, de ler “pouco”. Trata-se de ler o que for necessário para, a partir daí, produzir ideias próprias, buscando a parcimônia e o equilíbrio entre a acumulação e a produção. Assim, deve-se trabalhar sobre a matéria-prima suficiente que permita exercitar mais a atividade criativa do que o vício reprodutivo. É sábia a Lei de Balu: “Não mais do que o necessário”.

Como era a produção acadêmica dos nossos antepassados, quando não havia internet e nem tecnologias tais como a reprodução digital e a xerografia? Para utilizar alguma ideia de algum autor, uma condição prévia era ter acesso à obra. Isso implicava em um deslocamento físico e envolvia passar horas e horas em alguma biblioteca. Assim, o tempo devia ser muito bem aproveitado, para evitar a necessidade de voltar à biblioteca para trabalhar o mesmo livro. Havia, portanto, uma relação muito mais cuidadosa e orgânica com a produção intelectual. Ao mesmo tempo, os autores eram mais ousados: arriscavam dar a cara a tapas, colocar suas proprias ideias em discussão. Hoje, existe uma tendência a proteger qualquer afirmação atrás de uma verdadeira barricada de citações, como se quantidade de autores fosse critério de validade argumentativa. Ora, desde quando uma ideia é boa apenas porque uma multidão acredita nela? Isso me faz lembrar de uma certa prova de Física III, quando perdi um décimo porque intepretei a questão de maneira correta, mas a maioria da turma entendeu diferente.

Como produzo um texto atualmente? Primeiro, brota uma ideia. Nem me preocupo em explorá-la, vou logo a alguma ferramenta de busca e jogo duas ou três palavras-chave, para ver se o que pensei “faz sentido”. A seguir, faço um rápido mapeamento dos 27.892 resultados que essa ferramenta fornece em menos de 5 segundos, seleciono quinze ou vinte textos que podem servir e, após uma leitura muito rápida desse material, consigo dez autores que suportam a minha ideia. Em menos de duas horas,  produzo três parágrafos, repletos de citações e bem fechados contra críticas e contra-argumentos.

Como seria, contudo, a minha produção acadêmica sem essa muleta da internet? Para produzir os mesmos três parágrafos, eu gastaria pelo menos uma semana e duas bombinhas de asma na biblioteca, só para fazer um primeiro levantamento bibliográfico, a partir do qual eu identificaria dois ou três autores cruciais para o meu tema. Se eu tivesse a sorte de encontrar os livros nessa biblioteca e não do outro lado do mundo, gastaria pelo menos mais dois ou três dias para fazer uma leitura muito cuidadosa desse material e coletar extensas anotações. Após mais alguns dias pensando exaustivamente sobre os autores trabalhados, eu produziria meus três parágrafos, relacionando as ideias desses autores à minha própria ideia e acrescentando meus comentários e contribuições. Só que não seriam os mesmos parágrafos que faço em uma tarde de pesquisas na internet. Haveria muito mais “de mim” nesse texto e, nesse sentido, ele seria muito mais rico – apesar de conter menos referências. Seria, ao mesmo tempo, um texto muito mais aberto ao diálogo e a receber críticas. Ora, mas isso não é bom?

Claro, com o aumento progressivo da produção de conhecimento, hoje em dia precisamos ter uma base bem mais ampla a partir da qual começar a produzir. Mas há que tomar o cuidado de não sacrificar o pensamento autônomo no altar das benemesses tecnológicas. É possível aproveitar as facilidades proporcionadas pela tecnologia e pelo acesso à informação, porém sem esquecer de que elas não devem estragar o exercício da capacidade intelectual individual e, acima de tudo, não devem minar a reflexão crítica. Para tanto, é importante fazer um trabalho de reeducação, pois estamos cada vez mais acomodados nas facilidades proporcionadas pelo intenso fluxo de conhecimento e informações. Diante de uma dada pergunta de investigação, é sem dúvida importante saber o que os três ou quatro autores mais importantes sobre esse tema têm a dizer, porém mais importante ainda é colocar-se diante de uma pergunta auxiliar: “E eu, o que EU tenho a dizer sobre isso?”

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