Um Experimento na Crítica Literária

December 7th, 2009 Claudio Tellez No comments

LEWIS, C. S. (2009). Um Experimento na Crítica Literária. São Paulo: Editora UNESP.

A leitura de Um Experimento na Crítica Literária suscitou diversas reflexões, a começar pela qualidade da tradução. Infelizmente, não tive acesso ao original. Contudo, aparentemente o trabalho de tradução foi bem feito, a começar pelo título, que reproduz quase fielmente o original An Experiment in Criticism. Estive a ponto de comprar, há alguns dias, o mesmo livro, publicado pela Porto Editora, com o título A Experiência de Ler. Mesmo não sendo uma aberração grotesca, como o que aconteceu com o livro The Physician, de Noah Gordon, publicado no Brasil com o título de O Físico, a escolha da Porto Editora não foi feliz. O livro de C. S. Lewis trata da leitura, porém não é um manual para leitores ou uma discussão da leitura como uma experiência. Há uma enorme diferença entre a leitura e a crítica literária. O livro de C. S. Lewis trata da crítica de obras literárias, explorando um caminho pouco convencional.

C. S. Lewis é de uma rabugice elegante quando propõe que, ao invés de julgar os livros, a crítica poderia partir de um julgamento da leitura e dos leitores. Para atingir seu objetivo, ele começa distinguindo entre leitores literariamente letrados e iletrados (no original: literary e unliterary). Enquanto os letrados têm uma relação especial com a leitura, que participa de sua construção como pessoas e que é um fim em si mesma, os iletrados veem na leitura apenas um passatempo na falta de coisa melhor. A distinção de C. S. Lewis entre os “muitos” iletrados e os “poucos” letrados pode parecer pejorativa e despertar a ira de quem dedica-se à caça de elitismos. Entretanto, o autor foi cuidadoso e discutiu inclusive o exemplo dos críticos profissionais que lidam com os livros apenas como material de trabalho e que, nas horas de lazer, não desenvolvem uma relação com os livros como a dos leitores letrados. Assim, a distinção entre letrados e iletrados não separa entre “melhores” e “piores”, “cultos” e “incultos” ou “civilizados” e “bárbaros”. Para C. S. Lewis, os dois tipos de leitores podem ser identificados desde muito cedo e “já estão prenunciados no berço”.

Trata-se, portanto, de uma questão de talento e de aptidão? A leitura é um talento que pode ser aprimorado através do trabalho disciplinado, porém que não pode ser imposto a qualquer custo? Em grande parte, essa é a ideia que C. S. Lewis expressa. As categorias não são fixas e um leitor iletrado pode tornar-se letrado, porém para isso ele deve mudar suas atitudes perante a leitura. Sem vontade – o que, necessariamente, deve vir antes da força de vontade – essa transformação não ocorrerá. A maioria dos leitores iletrados de hoje em dia, observo, deseja permanecer assim. Retomarei esse ponto mais adiante.

O que diferencia os leitores iletrados dos letrados? Basicamente, a diferença entre uso e apreciação. C. S. Lewis afirma que “muitos usam a arte e poucos a recebem”. Um quadro é mais do que a ideia que ele transmite e a música é mais do que a linha melódica. Contudo, o espectador que apenas usa músicas e quadros rejeita tudo aquilo que não satisfaz rapidamente suas necessidades. Assim, o que não pode ser imediatamente usado é ignorado e o espectador não se torna um apreciador. A apreciação requer receptividade e, mais ainda, requer, para C. S. Lewis, uma receptividade obediente. A apreciação não deve ser passiva, dado que o elemento imaginativo precisa estar presente. Porém a atividade imaginativa envolve uma propensão a obeceder aquilo a que a obra de arte conduz o espectador.

No caso da leitura, o leitor iletrado simplesmente não se interessa pela maneira como o escritor compõe as palavras para formar seu texto. Os elementos prosódicos são dispensáveis, as cacofonias não são percebidas e tudo o que importa são a mensagem e os acontecimentos. Observo que é isso o que faz com que os leitores literariamente iletrados não se sintam incomodados quando leem uma tradução (ou quando assistem a um filme dublado), mesmo tendo acesso ao original. É claro que não precisamos ser conhecedores de todas as línguas do mundo para poder apreciar a literatura universal. Entretanto, diante da Eneida, um leitor literariamente letrado que desconhece o latim pode pensar: “Ah, como eu gostaria de aprender latim para poder aproximar-me pelo menos um pouco mais de Virgílio, da maneira como ele compôs sua obra e assim entender melhor como ele escolheu cuidadosamente as palavras para obter uma certa cadência, uma determinada sonoridade”. Assim como o pintor utiliza-se das tintas, o escritor trabalha com as palavras, com a linguagem. Concentrar-se apenas nos acontecimentos narrados é tratar a linguagem como um meio transparente que proporciona o nosso acesso à realidade, é despi-la de seu contexto histórico e cultural.

Ler não é apenas mover os olhos, interpretar não é somente extrair a ideia central e reconstruir – seguindo uma sequencia lógica – os acontecimentos presentes na narrativa. Ler para apreciar requer um movimento de receptividade que resulta na abertura de todos os sentidos do leitor. É assim que sabores, odores, cores e texturas ganham vida durante a leitura. Italo Calvino explorou a dimensão sensorial do ser humano nos contos que compõem Sob o Sol Jaguar. O leitor iletrado não consegue, portanto, sequer entender a mensagem que Calvino deseja transmitir. Dificilmente, contudo, um leitor iletrado manifesta interesse por Calvino, pois ele prefere palavras e expressões que o coloquem em contato mais imediato com os acontecimentos narrados.

C. S. Lewis também discute por que os leitores iletrados não conseguem apreciar mitos e narrativas fantásticas. O impossível e o sobrenatural afastam os iletrados, que preferem ter contato com aquilo que eles consideram ser a experiência direta do mundo real. Assim, um romance de espionagem – repleto de clichés hollywoodianos, exageros e teorias conspirativas – pode chamar-lhes mais a atenção por parecer-lhes mais “realista” do que uma obra como As Crônicas de Nárnia, que consideram tola e infantil por ser fantasiosa. C. S. Lewis observa, ironicamente, que os iletrados “exigem a observância rigorosa das leis naturais tal como as conhecem”, isto é, não têm capacidade imaginativa para sair do balde de Newton. Dessa maneira, atribuem veracidade a narrativas ficcionais que satisfazem suas carências afetivas, porém que não são menos fictícias do que O Senhor dos Anéis ou Alice no País das Maravilhas. Indo um pouco mais longe, afirmo que grande parte do pensamento que estabelece a necessidade de separar entre ficção e não-ficção caracteriza-se pela mesma miopia imaginativa, que valida apenas uma determinada maneira de pensar, dentro de certos cânones de racionalidade, diante do julgamento severo da sabedoria das verdades eternas e em obediência a uma lógica específica e imutável – ainda que essa lógica seja insuficiente perante diversos fenômenos do mundo natural/real, que esses pensadores consideram um porto seguro para a elaboração de suas teorias.

Não entrarei, aqui, no mérito da questão de como definir o que é uma obra literária. Tampouco discutirei a relação entre a ficção e o real, ou como elementos valorativos e convencionais participam tanto da construção de uma narrativa imaginativa quanto da elaboração de diversas teorias que aspiram à cientificidade como ideal. O tratamento de tais questões demandaria muito mais espaço e prefiro reservá-las para outras ocasiões. É importante observar, entretanto, que C. S. Lewis dedica parte de seu livro para discutir tanto a maneira como o realismo aparece na literatura quanto as confusões interpretativas que transformam o realismo em uma exigência para satisfazer a necessidades terapêuticas.

Observei, anteriormente, que a maioria dos leitores iletrados de hoje em dia deseja permanecer nesse estado. C. S. Lewis escreveu seu livro em 1961 e, já naquela época, a sua rabugice elegante expressava uma nostálgica tristeza. Se tanto leitores literariamente letrados quanto iletrados tinham em comum ao menos uma coisa – o ato de ler, obviamente – o que temos hoje (e que já começava a perceber-se no início da década de 1960) é uma sistemática desvalorização da leitura. Assim, C. S. Lewis não estava apenas preocupado em chamar a atenção para o fato de que a maioria dos leitores não sabe ler; a crítica subjacente é a observação de uma deterioração progressiva do valor da leitura. Os resultados, algumas décadas depois, são palpáveis. O imediatismo que descreve o leitor iletrado de C. S. Lewis reflete-se, hoje, em uma geração apática e desinteressada.

Diversos fatores contribuiram para que chegássemos a esse estado de coisas, porém C. S. Lewis chama a atenção para o tratamento da literatura nas escolas e universidades. Ocorreu, por exemplo, uma proliferação dos Estileiros (style-mongers), que sacrificam a expressividade em nome de regras e padrões que pretendem configurar um ideal de perfeição estilística, eliminando assim o valor artístico e tolhendo a impressão estética. Ademais, os estudantes vêm sendo cada vez mais condicionados a uma postura de desconfiança, devido às pressões que enfrentam para produzirem críticas antes mesmo de saberem o que estão criticando. Esse tema também é explorado por Francine Prose em How to Read Like a Writer. Assim como C. S. Lewis, Prose também mostra preocupação diante da incapacidade que os estudantes têm, nos dias de hoje, de apreciarem uma obra literária.

C. S. Lewis apresenta um caminho para a crítica que evita a sacralização de convenções e certos modismos acadêmicos. Assim, classificamos um livro como bom quando ele nos proporciona experiências positivas, quando nos convida a releituras, quando provoca impressões que não são apenas passageiras. Porém não podemos afirmar que um determinado livro é ruim apenas porque não suscitou tais respostas de nossa parte, pois sempre podemos estar errados e outros leitores podem ter impressões distintas. A visão de C. S. Lewis reflete suas experiências de vida, sua formação pessoal, seus valores e suas crenças. Condená-lo por uma ou outra afirmação etnocêntrica seria perder a visão do conjunto, uma atitude típica de quem condena toda a obra de um autor por uma opinião particular, desconsiderando o contexto histórico e sócio-cultural mais amplo do qual essa opinião faz parte. Da mesma forma, seria virulência mesquinha afirmar que Um Experimento na Crítica Literária apresenta sugestões que, muito convenientemente, favorecem o tipo de literatura que o próprio C. S. Lewis produziu.

O livro de C. S. Lewis tem o mérito de apresentar um diagnóstico da relação atual entre as pessoas e os livros. Assim, apesar de escrito no início da década de 1960, trata-se de uma obra de importância atual. A perda progressiva da capacidade de apreciar a literatura nos leva a um distanciamento cada vez maior de nós mesmos. Através da valorização excessiva do imediatismo e das soluções práticas, em detrimento da reflexão cuidadosa e da contemplação, abandonamos paulatinamente o aspecto moral da literatura e das artes em geral, promovendo assim um modelo de intelecção baseado no isolamento e distanciamento, ao invés de no contato e aproximação. Abandonar a ficção imaginativa é, portanto, abrir mão da capacidade de pensar e de conhecer para além dos cânones reverenciados como a única maneira de produzir pensamentos e conhecimentos legítimos.

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Autor é quem tem autoridade

December 2nd, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Após várias semanas, hoje consegui reunir a paciência e a disposição para tirar a poeira do teclado e fazer algumas atualizações por aqui.

A página “O Autor”, que continha uma breve descrição deste que vos escreve, foi rebatizada como “O Autor e o Blog”. Assim, além de colocar os leitores a par de quem sou, esclareci também quais são os propósitos deste espaço. Considero importante fazer esses esclarecimentos e estabelecer alguns limites, pois a internet é uma verdadeira terra de Marlboro onde a facilidade do anonimato é um incentivo aos abusos.

Ampliei e – melhor ainda! - atualizei a minha descrição. Afinal de contas, no início deste mês, deixei de ser um mestrando e tornei-me mestre em Relações Internacionais. Assim, comentei brevemente a respeito de meus interesses de pesquisa, entrando em alguns detalhes.  Também comentei sobre meus interesses de maneira mais geral (música, literatura etc.).

O que talvez possa chocar um ou outro desavisado, já que vivemos em tempos de fetichização da democracia, é a minha afirmação de que este espaço não é uma democracia. Assim, há limites para a expressão e esses limites ficam a critério do soberano autor deste blog, isto é, eu. Afirmo, portanto, minha autoridade (pois sou o autor) e crio minhas próprias linhas de demarcação espaço-temporais (agora até imaginei o Rob Walker gesticulando!).

Decreto que comentários ofensivos não serão aprovados. Decreto, também, que este espaço não é plataforma para a militância patológica, como já cansei de ver por aí.

É claro que valorizo os debates, a troca de ideias e a diversidade de opiniões. Exatamente por isso, reservo-me o direito de limitar a expressão dos espertinhos que buscam amparo na desculpa da ”pluralidade e diversidade de opiniões” para tentar enfiar, a marretadas, seu dogmatismo monolítico. Já bastam as legiões de chatos que infestam o Orkut, o Facebook, o Twitter e assim por diante.

Entretanto, como pretendo dar uma aquecida neste blog, volta e meia farei comentários críticos a respeito de temas sensíveis. Diante desses temas, às vezes os ânimos se exaltam e os debates ficam acalorados. Não vejo nada de errado nisso e considero até saudável. Contudo, para o bom andamento dos debates, deve haver respeito às opiniões alheias. Há quem acredite que argumentar e ofender são a mesma coisa. Não sou dessa opinião e este espaço não comportará manifestações dessa espécie.

Não sou um paladino do politicamente correto, que considero basicamente como hipocrisia transvestida de respeito. Porém uma coisa é recorrer à ironia e ao sarcasmo para expressar uma opinião mais forte, sem prejudicar a solidez do argumento; outra coisa é praticar o bullying intelectual, exaltando o amadorismo anti-academicista e promovendo a prática do polemismo profissional.

Este blog está passando por uma renovação que reflete os resultados do exercício de perguntar e reperguntar “o que me faz sentir raiva?“ Não pretendo, com esse exercício, obter respostas. Pretendo definir melhor meus questionamentos.

Assim, diversas postagens tratarão de minhas reflexões críticas a respeito dos temas que ocupam a maior parte do meu tempo. Mas também pretendo enriquecer este blog com resenhas de livros, comentários sobre filmes ou assuntos do cotidiano, uma ou outra ironia ou piada, volta e meia uma reflexão de caráter mais pessoal e assim por diante. Deixo claro que este é um espaço informal e não uma página profissional. Um blog deve ser um blog, um lugar para ser menos contido e mais espontâneo. Deve ser, também, atualizado com mais frequência. Sei que tenho falhado nesse ponto e procurarei remediar isso, porém sempre na medida do possível, isto é, de acordo com as limitações impostas por meus compromissos acadêmicos, profissionais e pessoais.

Enfim, é isso. Este ano foi de muito aprendizado, em diversos aspectos da minha vida. Desejo apenas continuar aprendendo e, quando possível, compartilhar um pouco os resultados desse processo contínuo com as pessoas que me cercam e com os leitores que gostam de visitar este blog.

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Rob Walker – From Balancing Security to Dividing Freedom

November 5th, 2009 Claudio Tellez No comments

Quatro (breves) vídeos de Rob Walker.

Uma nota longa

October 1st, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Começarei esta reflexão contando uma pequena história.

Eu estava dentro de um ônibus, esperando o motorista chegar, sem nada para ler. O ar condicionado estava ligado, as janelas obviamente estavam fechadas e, de repente, uma borboleta entrou pela porta.

Logo depois, uma criança entrou no ônibus, seguida pela mãe. Ao passar pela roleta, exclamou: “Olha, mãe, uma borboleta! Vou lá matar!”

Senti imediatamente a raiva se acumulando, em um ponto logo abaixo do meu umbigo.

Assim que o moleque passou por mim, falei bem alto: “Ô garoto, essa borboleta te fez alguma coisa por acaso?”

Ele não respondeu. Mas a mãe saiu em sua defesa: “Olha, ninguém merece uma borboleta dentro do ônibus.”

Ao que respondi imediatamente: “É? E ela vai fazer o quê, vai te picar por acaso?”

A mulher ficou sem graça e apanhou a borboleta, tentando ser cuidadosa. Ela me entregou o inseto, murmurando que seria impossível tirá-lo de lá.

Fui até o cobrador, expliquei a situação e ele abriu um pouco a sua janela. Problema resolvido. Podia ter acabado aí. Mas as pessoas dificilmente aproveitam as oportunidades de manter a boca fechada. Logo que voltei para o meu lugar, a mulher resolveu comentar: “Não precisava disso tudo, que besteira.”

Olhei para ela e respondi: “Olha, se uma pessoa não aprende a respeitar a vida enquanto ainda é criança, depois vira bandido e não sabe por que.”

Nesse momento, todas as pessoas começaram a olhar para a cara dela. Eu fiquei apenas sentado e comecei a olhar pela janela. Não aconteceu mais nada.

***

Por que agi assim? Talvez pelo peso das circunstâncias. Ou por estar questionando, à luz da minha vida presente, escolhas que fiz no passado. Como pode uma cultura que verdadeiramente valoriza a vida, em todas as suas formas, levar ao vazio moral, ao relativismo e ao niilismo? Tal acusação acaso não parte de uma outra cultura, que arroga ao ser humano o direito – por mandato divino – de vida e morte sobre todas as criaturas? Por acaso o cultivo da tolerância implica necessariamente no relativismo, enquanto a imposição de uma única forma legítima de pensamento representa o único caminho válido para a “salvação”?

Seria fácil atribuir determinadas posturas e preconceitos à pura e simples ignorância. Contudo, tais posturas e preconceitos derivam de elementos culturais e de interpretações morais que sustentam ordenamentos políticos, que legitimam práticas, que demarcam – em nome de um certo ideal de civilização – as fronteiras de uma humanidade comum, a partir da imediata definição de quem não merece pertencer a tal humanidade.

Claro, as fronteiras dessa “humanidade” abrigam tanto os justos quanto os que se divertem praticando tiro ao alvo em uma cadela, tanto as pessoas que trabalham para o bem de sua família quanto o meliante que atira em um bebê. São apenas exemplos isolados, estou ciente disso, mas é a partir da acomodação de diversas contradições internas que uma certa visão do mundo e do ser humano consegue perpetuar-se. Dessa maneira, os exemplos citados, assim como muitos outros, passam a fazer parte de algo maior, passam a refletir problemas muito mais profundos.

Felizmente, sempre é tempo de mudar, de querer retornar ao centro, de procurar o equilíbrio entre a força e a suavidade e de perceber que nunca estamos fora do tempo e do contexto. Sempre é tempo de admitir os próprios erros, tirar a venda dos olhos e voltar a buscar a perfeição em tudo o que fazemos. Sempre é tempo de não desistir e de não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.

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Mais notas breves

October 1st, 2009 Claudio Tellez 2 comments

As últimas semanas têm sido atribuladas. Para resumir:

1. Mudei mais uma vez. Estou cansado disso. O lado bom é que, se nada mais der certo, posso abrir uma empresa de mudanças.

2. Estou na metade da dissertação, porém o prazo é curto. Pretendo fechar o segundo capítulo nos próximos dias.

3. O início da modernidade é, de fato, um período fascinante para quem tem inclinações teóricas.

4. Estou relendo Musashi.

5. Estou trabalhando o meu pessimismo, mas acho que não vou conseguir.

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Um Pedaço de Giz

August 19th, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Encontrei o rascunho de um post muito antigo sobre Matemática. Resolvi reeditá-lo e postá-lo aqui.

Há poucos dias, comentei com um amigo acerca da paixão dos matemáticos pelo giz. Eu mesmo detesto aqueles quadros brancos e as canetinhas fedorentas. Gosto mesmo é de quadros de madeira e de giz.

A sensação de segurar um pedaço de giz entre os dedos é uma das partes mais maravilhosas de ser um matemático. Certa vez, G. K. Chesterton escreveu um belo ensaio intitulado A Piece of Chalk. O giz branco, para Chesterton, é o “most exquisite and essential chalk” porque o branco “is not a mere absence of colour; it is a shining and affirmative thing”. Ele enfatiza ainda que “the chief assertion of religious morality is that white is a colour”. Chesterton não estava escrevendo para matemáticos ou sobre matemáticos; contudo, o tema do giz evoca, para quem é iniciado, um sentido de tradição e, por que não, de religiosidade.

Esse sentido de tradição e religiosidade está presente, por exemplo, na reverência com que os matemáticos se referem aos seus antepassados intelectuais. Diofanto de Alexandria foi um matemático grego do século III e muitos o consideram, sem exagero ou injustiça, o pai da Álgebra. Ele trabalhou com equações algébricas e sobre o que hoje se conhece como teoria dos números, inspirando séculos de devoção aos mistérios mais profundos da Matemática. É importante observar que Fermat escreveu seu famoso Último Teorema na margem de uma página de sua cópia da edição de Bachet (1621) da Aritmética de Diofanto. O Último Teorema de Fermat permaneceu sem demonstração até 1994, quando Andrew Wiles finalmente resolveu o problema.

A Matemática contemporânea oferece diversas áreas instigantes para a pesquisa. Em particular, considero a Geometria Diofantina um dos campos mais excitantes e desafiadores para os matemáticos da atualidade. Só para mencionar um exemplo, a conjectura de Birch–Swinnerton-Dyer sobre curvas elípticas é um dos sete Problemas do Milênio selecionados pelo Clay Mathematics Institute e sua demonstração vale um milhão de dólares, além de proporcionar a imortalidade a seu descobridor.

Desde a época dos gregos antigos, a Aritmética e a Geometria sustentam a verdadeira essência do que é belo na Matemática e seus problemas têm instigado as mentes mais prolíficas e curiosas de todos os tempos. Talvez o aspecto mais humano da aventura matemática relacione-se exatamente com a nossa curiosidade sobre os limites da razão. Os desafios que a Matemática nos coloca testam constantemente esses limites.

Para participar dessa aventura, três qualidades são imprescindíveis: curiosidade, coragem e persistência. Há que ser curioso e questionar criticamente cada passo que se dá, bem como tudo o que se lê. Ao contrário da busca por respostas, a curiosidade deve nos impelir à busca por melhores perguntas. São os questionamentos críticos que fazem a Matemática avançar. Para fazer tais questionamentos, contudo, há que ter (muita!) coragem, por duas razões: a primeira é que muitas vezes devemos colocar em dúvida resultados que aparentemente estão consolidados há séculos. As geometrias não-euclidianas não teriam surgido se matemáticos como Gauss, Lobachevsky e Riemann, entre outros, não tivessem questionado a “autoridade”. A segunda razão é que as questões realmente difíceis, que são as mais instigantes, podem consumir anos e anos de nossas vidas, sem nenhuma garantia de que conseguiremos algum resultado. É por isso, aliás, que a terceira qualidade essencial é a persistência diante das dificuldades (que são muitas).

Além dessas qualidades, é importante reconhecer o trabalho dos que vieram antes de nós, pois é isso o que nos faz sentir parte de algo. Nesse sentido, segurar um pedaço de giz entre os dedos também ajuda.

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Fim das dúvidas

July 24th, 2009 Claudio Tellez No comments

Se eu ainda tinha alguma dúvida sobre o meu lugar no espectro teórico da disciplina de RI, hoje isso foi definitivamente resolvido. Depois da intervenção de Mike Shapiro durante a minha apresentação, agora sei perfeitamente onde me situo na disciplina. :-)

Notas Breves

July 22nd, 2009 Claudio Tellez No comments
As útimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Tive pouco tempo para o blogue, infelizmente. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.
1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de querer ler mais e mais antes de começar a escrever qualquer coisa…
2. … o que não significa, é claro, que devemos parar de ler. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.
3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!
4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.
5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.
6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar de uma identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.
7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam, nessa interação, são as de caráter filosófico.
8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.
9. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.
10. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.
11. O wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.

As últimas semanas foram cheias de atividades e novidades. Infelizmente, tive pouco tempo para o blogue. Para não manter este espaço desatualizado por muito tempo, resolvi postar breves comentários sobre alguns acontecimentos das últimas semanas. Talvez eu faça disso um hábito, por ser uma ótima forma de atualizar o blogue quando eu estiver atarefado.

1. Conheci Rob Walker e Didier Bigo. Aprendi demais com os dois e terei muito para refletir sobre o significado da vida acadêmica em RI. Sim, há que ler menos e escrever mais – isto é, há que quebrar a insegurança que conduz à necessidade patológica de nunca alcançar o ponto de começar a escrever. Apesar de eu ter abordado esse tema no primeiro post deste blog, foi necessário ouvir do Walker para perceber que eu mesmo cometo o erro de quase sempre querer ler mais e mais antes de começar a colocar minhas ideias no papel…

2. … o que não significa, é claro, que devemos cortar as leituras! Há que ser seletivo e priorizar o pensamento sobre a leitura, mas isso não é a mesma coisa que ser preguiçoso. Se por um lado devemos parar de ler, por outro lado devemos continuar lendo. Walker deixou bem claro que são dois momentos diferentes! Isso me deixou mais tranquilo, pois não paro de receber livros. Hoje mesmo recebi The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America, de Lewis Hanke e The Limits of History, de Constantin Fasolt. O primeiro será útil para a minha dissertação, o segundo será útil para o resto da minha vida.

3. Eu já estava lendo The Limits of History. Quando soube que o meu exemplar chegaria hoje, devolvi imediatamente o da biblioteca. Que bom, agora vou poder rabiscar à vontade!

4. Por falar em ler, hoje devorei uma dissertação de mestrado sobre Deleuze em duas viagens de ônibus. Conclusão 1: estou ganhando velocidade. Conclusão 2: quem se diz deleuziano é porque não entendeu Deleuze. Conclusão 3: preciso parar de ler nos ônibus, fico com dor de cabeça.

5. Nas últimas semanas, voltei a ouvir as músicas que eu curtia na adolescência: Judas Priest, Ozzy, Black Sabbath etc. Engraçado, a combinação dessas músicas com a minha rabugice deu um resultado interessante: uma necessidade imperiosa de me afirmar de maneira independente no que faço.

6. Sim, preciso me afirmar, isto é, preciso definir uma posição. Minha posição. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o significado do caminho que escolhi, isto é, a vida acadêmica. Continuo avesso às ideologias e à militância rasteira. Contudo, escapar de posicionamentos ideológicos não significa abdicar da minha identidade. Estou no momento de começar a me posicionar dentro de cada debate acerca dos principais problemas da disciplina, para a partir daí construir a minha própria identidade. Isso requer um cuidado ainda maior na seleção das leituras e um esforço de pensamento mais intenso.

7. Ainda me interesso pela interação entre a Matemática e a Teoria de RI. Contudo, as perguntas que realmente me instigam são as de caráter filosófico. Não estou interessado em modelinhos ou em fazer contas. Já há suficientes economistas, engenheiros e calculadoras. Sempre gostei dos problemas que a Matemática coloca para o pensamento mas nunca me senti atraído pelo impulso à musculação cerebral e ao treino de habilidades quase circenses para manipular técnicas de demonstração. Há quem goste de resolver problemas, eu prefiro criá-los.

8. Sinto falta de ler mais ficção. Os últimos livros de ficção que li foram para a preparação de um dos meus papers para a ABRI-ISA. Detalhe: li dois desses livros no ano passado (Anil’s Ghost, de Michael Ondaatje e The Wizard of Crow, de Ngugi wa Thiong’o) e o terceiro há mais de dez anos (Hombres de Maiz, de Miguel Ángel Asturias). Acredito que a literatura de ficção gera valiosos insights para pensar o internacional. A experiência estética proporcionada pela narrativa ficcional abre possibilidades para romper com os caminhos convencionais da teorização em RI.

9. Detalhe: paguei USD 14,00 só para citar um trecho de Anil’s Ghost no meu paper. Explico: li o livro em português – foi publicado aqui com o título medonho de “Bandeiras Pálidas” ([ironia]tudo a ver com Anil’s Ghost, sem dúvida![/ironia]). Como seria bizarro eu mesmo traduzir o trecho em questão do português para o inglês, acabei pagando por uma edição eletrônica do original. O que eu não faço para bater no cosmopolitismo!

10. Já tenho um inimigo para a minha dissertação: o R2P.

11. No final de semana, conheci Michael Shapiro. Conversar com ele me fez perceber novamente que estou no caminho certo, isto é, que a minha única e verdadeira vocação é realmente a vida acadêmica. Não me vejo fazendo outra coisa.

12. Quase não tenho tocado violão. Os problemas com as unhas me fizeram lembrar da dor de cabeça que é levar o estudo do violão clássico um pouco mais a sério. Continuo namorando a ideia de comprar um instrumento de época ou mesmo partir para outra coisa. Algumas possibilidades: gaita de foles, quena ou tambores bongo.

13. O Wordpress se atualiza mais rápido do que eu atualizo o blogue. Acabo de ver que a versão 2.8.2 já está disponível.

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Além das Analogias Matemáticas

July 5th, 2009 Claudio Tellez No comments
No paper Political Sociology and the Problem of the International (Millennium, v. 35, n. 3, p. 725-739, 2007), Didier Bigo e R. B.
J. Walker exploram diversas analogias topológicas para discutir o tema das fronteiras e a distinção entre interno e externo na
vida social e política. A Topologia é uma área da matemática que estuda as propriedades dos espaços geométricos e, nesse sentido,
é mais fundamental do que a geometria, já que duas figuras geométricas diferentes podem ser indistinguíveis sob o ponto de vista
topológico. É por isso que um topólogo não consegue distinguir entre uma rosquinha e uma xícara de café (já que uma pode ser
transformada na outra de forma contínua).

No paper Political Sociology and the Problem of the International (Millennium, v. 35, n. 3, p. 725-739, 2007), Didier Bigo e R. B. J. Walker exploram diversas analogias topológicas para discutir o tema das fronteiras e a distinção entre interno e externo na vida social e política. A Topologia é uma área da matemática que estuda as propriedades dos espaços geométricos e, nesse sentido, é mais fundamental do que a geometria, já que duas figuras geométricas diferentes podem ser indistinguíveis sob o ponto de vista topológico. É por isso que um topólogo não consegue distinguir entre uma rosquinha e uma xícara de café (pois uma pode ser transformada, de forma contínua, na outra e vice-versa).

As analogias propostas por Walker e Bigo mostram que os objetos topológicos não servem somente para o deleite dos matemáticos ou para o estudo de certas questões em Cosmologia e Física Teórica. Aliás, a Topologia tem fascinado pensadores de diversas áreas. Lacan, por exemplo, utilizou superfícies topológicas para estudar processos em psicanálise e o problema da identidade e diferença. Borges, só para dar outro exemplo, insere diversas ideias matemáticas em seu conto de sabor místico “La Biblioteca de Babel”, utilizando em particular vários conceitos geométricos e topológicos na descrição das formas da Biblioteca.

A Topologia, por lidar com formas geométricas e suas transformações, leva aos limites as nossas faculdades imaginativas e presta-se para estabelecer analogias em diversas áreas do conhecimento. Contudo, é possível transcender as analogias e lidar de forma direta com diversas questões teóricas em Relações Internacionais a partir de conceitos e resultados matemáticos. A violência cartográfica e suas implicações na construção de identidades políticas, por exemplo, pode expressar-se por meio de classes de equivalência que particionam o mapa. Trata-se de uma descrição que sintetiza a essência da criação dos espaços políticos e que abre a perspectiva de utilizar o formalismo algébrico para estudar, de maneira relacional, as interações entre o Self e os Outros nas concepções da modernidade.

Grande parte da disciplina de RI ainda não saiu do balde de Newton, no sentido de que o entendimento de um espaço “sempre similar e imóvel” e um tempo que “flui de maneira equânime, sem relação com qualquer coisa externa” (nas palavras do próprio Newton) é o que sustenta uma forma específica de interpretar o mundo e de produzir conhecimento. É a descrição newtoniana do espaço e do tempo que alimenta, afinal de contas, a percepção da possibilidade de alcançar leis gerais que descrevem todo o conhecimento passado e futuro a partir do estado do sistema em um dado momento.

A visão newtoniana de espaço e de tempo, contudo, não é consensual. Para diversos povos da Mesoamérica, por exemplo, a própria cosmogonia indicava uma organização espaço-temporal ao mesmo tempo integrada e cíclica, baseada no cultivo da planta sagrada – o milho. À época dos Descobrimentos, enquanto os europeus tratavam separadamente os mapas geográficos e os calendários, os maias e astecas representavam, em seus códices, de maneira simultânea, tanto a organização do espaço quanto o seu entendimento geométrico do fluxo temporal. O códice Fejérváry-Mayer, por exemplo, descreve o tempo e o espaço em estreita relação com a economia e a organização política, através de uma cuidadosa articulação mitológico-cosmogônica em torno do milho e de outros elementos mágico-religiosos contidos no Popol Vuh – o livro sagrado.

Assim, a existência de diferentes concepções de espaço-temporalidade, ou seja, de diversos entendimentos da geometria/topologia do espaço e do tempo, representa um desafio não somente ao estudo das relações políticas e sociais entre diferentes povos, mas também à própria prática etnográfica. Para fazer uma reflexão auto-crítica a partir da perspectiva do Outro, há que transcender os pré-conceitos que informam nosso entendimento do espaço e do tempo; para superar o imaginário político da modernidade ocidental e vislumbrar, a partir de uma postura crítica, alternativas às formas vigentes de organização política, há que questionar as bases do arcabouço newtoniano-kantiano que reproduz um determinado ideal de cientificidade e que limita a imaginação teórica somente às duas possibilidades que se expressam no debate entre cosmopolitas e comunitaristas.

Para autores como Inayatullah e Blaney, essa limitação poderia ser superada questionando a “lógica das linhas retas” que sustenta o princípio moderno da soberania e o entendimento tradicional do conceito de propriedade. Para tanto, em International Relations and the Problem of Difference (2004), eles chamam a atenção para a importância de investigar concepções espaciais alternativas, baseadas na heterogeneidade, sobreposição e relatividade. Uma dessa concepções, que infelizmente não foi trabalhada pelos autores e que se opõe frontalmente à visão newtoniana predominante na disciplina de RI, aparece em Leibniz, que entendia o espaço como sendo construído a partir de situações posicionais puras e das relações entre os elementos nele contidos e o tempo como uma ordem relativa de sucessões. A partir de sua ontologia espaço-temporal relacional e de suas investigações lógico-filosóficas, Leibniz deu início ao campo da Topologia (que chamava de analysis situs) e antecipou, em mais de dois séculos, o estudo da complexidade computacional e da teoria algorítmica da informação (para mais informações a esse respeito, recomendo a palestra Leibniz, Complexity and Incompleteness, de Greg Chaitin). Trata-se, portanto, de um pensador que deveria ser mais explorado na disciplina de RI.

A Matemática tem muito a contribuir para a disciplina de RI e não pretendo esgotar o tema neste post. Já há uma utilização corriqueira de resultados da Estatística, da Teoria dos Jogos e de vários modelos baseados em equações diferenciais, porém teóricos de orientação mais crítica, preocupados com a complexidade cultural e com a importância de um tratamento mais antropológico da disciplina também podem beneficiar-se de resultados da Matemática. Aproveitar esse potencial e ir além das analogias, contudo, requer uma maior abertura, de parte dos pensadores humanísticos e sociais, para com a misteriosa gramática da Matemática, que costuma assustar muitos não-iniciados. Isso também requer lidar com a Matemática a partir de uma perspectiva mais reflexiva e menos atlética, investindo mais esforços no aprofundamento de questões filosóficas do que na resolução mecânica e repetitiva de problemas.

Não mais do que o necessário

June 27th, 2009 Claudio Tellez 2 comments

Um de meus livros prediletos é “A Vida Intelectual”, do frei dominicano Antonin-Gilbert Sertillanges (1863-1948). Trata-se de um conjunto de conselhos e orientações dedicados ao intelectual cristão, porém seu conteúdo acrescenta valor a pessoas de todos os credos e ideologias que reconhecem, no caminho do conhecimento e da intelectualidade, a sua verdadeira vocação.

Em uma dada passagem, tratando do tema dos hábitos de leitura, Sertillanges aconselha que deve-se ler pouco. Como assim, ler pouco? Tal afirmação provoca, naturalmente, um sentimento de perplexidade. Afinal de contas, a imagem que costuma representar o intelectual é a de uma pessoa mergulhada em toneladas de livros, insaciável por conhecimento, quase um asceta.

O ponto a que Sertillanges chama a atenção é que a acumulação de conhecimento, apesar de importante, não é o principal. Pensar é mais importante do que ler. O que desejamos, afinal de contas, é produzir mais conhecimento, abrir novas perspectivas, explorar outras formas de ver e interpretar o mundo. Mais do que respostas, o intelectual é ávido por novas perguntas, por trazer à tona os questionamentos negligenciados (de maneira intencional ou não). Só que as perguntas não caem do céu, não vêm mastigadas nas páginas dos livros. Assim, se há um elemento que deve ser constante, é a crítica. É através da reflexão crítica que abre-se a possibilidade de dar som aos silêncios que existem nas entrelinhas dos textos e nos quais, sem o devido cuidado, corremos o risco de acomodar o pensamento para legitimar, às vezes sem perceber, determinadas expressões de autoridade.

Para exercitar a capacidade crítica, há que abandonar a lógica de acumulação, o desejo guloso de querer saber tudo sobre tudo e, em seu lugar, abraçar uma lógica de profundidade. Ao invés de contar a leitura em páginas por minuto, ou livros por dia, a atitude deve ser a de esmiuçar um texto cuidadosamente selecionado, dialogar o tempo todo com o autor, formular perguntas nos momentos certos e fazer anotações exaustivas (não é por acaso que os livros têm margens, mesmo quando elas não são suficientes para conter certos teoremas importantes). Meus livros, por exemplo, são repletos de marcas, anotações, símbolos herméticos, esquemas, referências a outros textos e, é claro, manchas de café.

Não se trata, na verdade, de ler “pouco”. Trata-se de ler o que for necessário para, a partir daí, produzir ideias próprias, buscando a parcimônia e o equilíbrio entre a acumulação e a produção. Assim, deve-se trabalhar sobre a matéria-prima suficiente que permita exercitar mais a atividade criativa do que o vício reprodutivo. É sábia a Lei de Balu: “Não mais do que o necessário”.

Como era a produção acadêmica dos nossos antepassados, quando não havia internet e nem tecnologias tais como a reprodução digital e a xerografia? Para utilizar alguma ideia de algum autor, uma condição prévia era ter acesso à obra. Isso implicava em um deslocamento físico e envolvia passar horas e horas em alguma biblioteca. Assim, o tempo devia ser muito bem aproveitado, para evitar a necessidade de voltar à biblioteca para trabalhar o mesmo livro. Havia, portanto, uma relação muito mais cuidadosa e orgânica com a produção intelectual. Ao mesmo tempo, os autores eram mais ousados: arriscavam dar a cara a tapas, colocar suas proprias ideias em discussão. Hoje, existe uma tendência a proteger qualquer afirmação atrás de uma verdadeira barricada de citações, como se quantidade de autores fosse critério de validade argumentativa. Ora, desde quando uma ideia é boa apenas porque uma multidão acredita nela? Isso me faz lembrar de uma certa prova de Física III, quando perdi um décimo porque intepretei a questão de maneira correta, mas a maioria da turma entendeu diferente.

Como produzo um texto atualmente? Primeiro, brota uma ideia. Nem me preocupo em explorá-la, vou logo a alguma ferramenta de busca e jogo duas ou três palavras-chave, para ver se o que pensei “faz sentido”. A seguir, faço um rápido mapeamento dos 27.892 resultados que essa ferramenta fornece em menos de 5 segundos, seleciono quinze ou vinte textos que podem servir e, após uma leitura muito rápida desse material, consigo dez autores que suportam a minha ideia. Em menos de duas horas,  produzo três parágrafos, repletos de citações e bem fechados contra críticas e contra-argumentos.

Como seria, contudo, a minha produção acadêmica sem essa muleta da internet? Para produzir os mesmos três parágrafos, eu gastaria pelo menos uma semana e duas bombinhas de asma na biblioteca, só para fazer um primeiro levantamento bibliográfico, a partir do qual eu identificaria dois ou três autores cruciais para o meu tema. Se eu tivesse a sorte de encontrar os livros nessa biblioteca e não do outro lado do mundo, gastaria pelo menos mais dois ou três dias para fazer uma leitura muito cuidadosa desse material e coletar extensas anotações. Após mais alguns dias pensando exaustivamente sobre os autores trabalhados, eu produziria meus três parágrafos, relacionando as ideias desses autores à minha própria ideia e acrescentando meus comentários e contribuições. Só que não seriam os mesmos parágrafos que faço em uma tarde de pesquisas na internet. Haveria muito mais “de mim” nesse texto e, nesse sentido, ele seria muito mais rico – apesar de conter menos referências. Seria, ao mesmo tempo, um texto muito mais aberto ao diálogo e a receber críticas. Ora, mas isso não é bom?

Claro, com o aumento progressivo da produção de conhecimento, hoje em dia precisamos ter uma base bem mais ampla a partir da qual começar a produzir. Mas há que tomar o cuidado de não sacrificar o pensamento autônomo no altar das benemesses tecnológicas. É possível aproveitar as facilidades proporcionadas pela tecnologia e pelo acesso à informação, porém sem esquecer de que elas não devem estragar o exercício da capacidade intelectual individual e, acima de tudo, não devem minar a reflexão crítica. Para tanto, é importante fazer um trabalho de reeducação, pois estamos cada vez mais acomodados nas facilidades proporcionadas pelo intenso fluxo de conhecimento e informações. Diante de uma dada pergunta de investigação, é sem dúvida importante saber o que os três ou quatro autores mais importantes sobre esse tema têm a dizer, porém mais importante ainda é colocar-se diante de uma pergunta auxiliar: “E eu, o que EU tenho a dizer sobre isso?”

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