So Don’t Stop

January 24th, 2010 Claudio Tellez 1 comment

Sempre defendi que não há, necessariamente, oposição entre ciência e religião. Afinal de contas, são campos que geralmente (mas não sempre) lidam com temas e questionamentos diferentes. Além disso, as abordagens do cientista e do religioso são distintas. Não é meu objetivo levar esta discussão para o terreno filosófico e para os debates sobre os tipos de conhecimento. É prático – e também muito confortável – simplesmente concordar com Mario Bunge e acreditar na existência de fronteiras entre ciência, religião, arte e assim por diante. Confortável, mas não por isso correto, ainda mais sob o ponto de vista do desenvolvimento histórico das disciplinas e áreas de atividade do ser humano. Ademais, é tentador transformar essa praticidade e conforto em um mecanismo especioso para blindar argumentações. Voltarei a esse tema em um próximo texto.

Hoje, meu objetivo é apenas refletir um pouco sobre o tema sempre polêmico do confronto entre fé e ciência, ou entre ciência e religião. Continuo defendendo, com certas ressalvas, que não há *necessariamente* uma oposição. Porém há certas questões que chamam a atenção tanto de cientistas quanto de religiosos e, sobre essas questões, muitas vezes as abordagens de uns e de outros são criticadas mutuamente. Assim, se considero abominável que ainda haja pessoas tentando impedir o ensino da ciência em escolas, também não me agrada a posição dos que acreditam que a ciência tem por função combater a superstição religiosa. Uma atitude mais razoável para o homem de ciência seria, em todo caso, investigar por que há sentimentos ou experiências religiosas, e que funções esses fenômenos desempenham nos indivíduos e populações.  Qual é, por exemplo, o papel que a religiosidade exerce no equilíbrio entre conflito e cooperação, no estudo da política e da sociedade?

Considero de um otimismo exagerado afirmar que a razão humana não possui limites. Além dos fatores históricos e culturais que condicionam modos de pensar e de argumentar, seria precipitado negar a existência de assuntos que ultrapassam nossas capacidades cognitivas. Dizer que não se crê em uma determinada coisa porque não há evidências levanta, de imediato, duas questões: o que constitui uma evidência e o que significa crer. Pode-se recorrer a crenças para suprir nossas deficiências a respeito do que ainda não pode ser demonstrado ou conhecido por outros meios. Ou pode-se admitir crer em alguma coisa após a satisfação de certas condições. O verbo acreditar encerra, portanto, ambiguidades. Uns podem resguardar-se na crença após o reconhecimento humilde da transcendência e dos limites da razão humana. Outros podem afirmar que só acreditam naquilo que é sustentado por evidências empíricas. A palavra “crença” carrega um sentido distinto quando se trata do religioso que acredita na necessidade da existência de um deus criador para o universo, do cientista que acredita na validade da lei newtoniana da gravidade (nas condições adequadas) ou do matemático que acredita na verdade eterna e imutável do teorema de Pitágoras.

Mesmo que a razão humana não tenha alcance infinito, uma coisa é reconhecer os limites do intelecto humano e outra coisa bem distinta – para não dizer conveniente – é afirmar saber quais são e onde estão esses limites. Afirmar que, a partir de um certo ponto, certos questionamentos ultrapassam o alcance da ciência e passam a pertencer exclusivamente ao domínio da religião constitui um ato de autoridade e uma expressão de arrogância. Assim, se é ingênua a postura do indivíduo que ideologiza a ciência, conferindo-lhe poderes espetaculares e a capacidade de responder a todas as perguntas formuladas e por formular, por sua vez o polemista religioso, que apela a um suposto mandato divino para defender que certas indagações não devem ser permitidas aos cientistas, expressa, no mínimo, ignorância. Trata-se de ignorância tanto no sentido de ausência de conhecimento, quanto como a tentativa de impor uma vontade pela força bruta. Ambos os sentidos da ignorância estão presentes, por exemplo, nas tentativas de proibir o ensino da evolução em certos estados norte-americanos.

Qual é a origem do universo? Essa questão é legítima tanto do ponto de vista científico quanto para o homem que segue uma religião. Porém o cientista, diante da indagação de se conseguiremos ou não responder a essa questão, por mais otimista que seja, não pode afirmar que possui uma resposta definitiva. Pode acreditar que algum dia chegará a saber  - porém trata-se novamente de uma crença, ou melhor, de uma esperança. Através dos avanços na Física e na Cosmologia, podemos aprender cada vez mais sobre a origem do universo, podemos nos aproximar (assintoticamente) da verdade. Atingiremos uma resposta definitiva e absoluta, sem ser através de uma postura dogmática? Dificilmente. Alcançaremos uma verdade científica que esteja acima de qualquer dúvida razoável? Isso é mais plausível.

Por outro lado, diante de uma questão de tal magnitude, podemos nos ver tentados a admitir a necessidade de um ponto de partida bem definido, sem o qual não teríamos uma razão suficiente para parar. Leibniz deparou-se com esse problema e, segundo Ann Druyan, logo abaixo dessa citação de Leibniz, Carl Sagan escreveu: “So don’t stop”.

Diante da imensidão de certas questões, podemos ver-nos tentados a parar e assumir que atingimos o limite de nossas capacidades. Mas como saber se realmente esse é o limite? Como saber se daqui a um, dez ou cinquenta anos não teremos instrumentos (materiais ou não) que possam nos levar um passo mais à frente? Considero mais importante concentrar os esforços na direção de possibilitar esse passo do que gastar energia tentando provar a existência ou inexistência de deus. Pessoalmente, considero mais frutífero investigar por que os seres humanos alimentam crenças e como tais crenças estabelecem relações com outros domínios – tais como a cultura, a política e a sociedade. Considero mais instigante tentar elucidar como e por que determinadas crenças impactam no desenvolvimento de certos sistemas políticos e de modos particulares de relacionamento entre povos distintos. Qual é a origem da crença em um sentido progressivo para a humanidade, da barbárie para a civilização, e como tal crença repercutiu no desenvolvimento do internacional moderno? Que lugar o mito antropocêntrico alimentado por certas religiões, que sustentam a definição e constituição de certas identidades, ocupa nas relações entre as sociedades humanas e a natureza? Como esse mesmo mito atropocêntrico contribui para a afirmação de um determinado entendimento da política? Quais são as implicações éticas desses e de outros questionamentos?

Em certa medida, os problemas que residem na interseção entre ciência, religião e filosofia nos remetem ao foro íntimo. Carl Sagan – um dos maiores defensores do conhecimento científico e um dos principais críticos dos defensores de crenças não-examinadas – afirmava que gostaria que houvesse vida após a morte, para ter a chance de continuar aprendendo e descobrindo. Sagan, em seu ceticismo saudável, sabia que não podia simplesmente descartar a possibilidade de vida após a morte. Mas o fato de que ele gostaria que houvesse essa vida é uma postura pessoal. Outras pessoas posicionam-se de maneira diferente diante desse mesmo assunto. Por exemplo, no momento a possibilidade de vida após a morte causa-me mais angústia do que conforto, pois não me agrada a ideia de ter uma consciência sobrevivente martirizando-se sobre a que acontece ou deixa de acontecer na minha ausência. Mas trata-se de uma preferência totalmente pessoal e contingente, decorrente de uma série de experiências e vivências particulares, e que talvez um dia possa vir a mudar. É uma preferência, não uma crença. Não sei e não tenho como saber o que acontece após a morte, porém, enquanto estiver vivo, diante de todos os questionamentos que me instigam a pesquisar, pretendo seguir apaixonadamente a diretriz de Sagan. I won’t stop.

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Human ambition

January 2nd, 2010 Claudio Tellez No comments

“The universe is not required to be in perfect harmony with human ambition.”
Carl Sagan

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E por falar em DeLanda…

December 28th, 2009 Claudio Tellez 1 comment

… segue uma excelente indicação postada por amanda vox.

Manuel DeLanda Explica Deleuze

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Influências

December 28th, 2009 Claudio Tellez No comments

Um amigo postou uma lista de 10 nomes que o influenciaram em 2009: Dez Nomes para o Ano Zero.

É agradável constatar que coincidimos logo no primeiro nome – o filósofo mexicano Manuel DeLanda. Acredito que ele indica um caminho para lidar com certos questionamentos ontológicos que vêm tirando meu sono há algum tempo.

Além de DeLanda, listo outras influências importantes para mim em 2009. Não estão em ordem de importância:

  1. Hayward R. Alker
  2. Michael J. Shapiro
  3. William Connolly
  4. Stéphane Lupasco
  5. Rob Walker
  6. Nishida Kitaro
  7. Michel de Certeau
  8. Jacques Rancière
  9. Slavoj Žižek
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Entropy

December 27th, 2009 Claudio Tellez No comments
Michael Dillon says: “(…) The radical relationality of bodies (Deleuze, 1988). The emergent property of bodies contingent upon the modes of
relationality productive of and mediated by them (Foucault, 1985). (…) The temporality of being and the finitude of human
existence (Heidegger, 1984; Agamben, 1991). To put it simply, that means death and its irreversibility. To put it more technically, and in Heideggerean terms, it means being-toward-death (Heidegger, 1967)”. To put it more scientifically, that means entropy.

“(…) The radical relationality of bodies (Deleuze, 1988). The emergent property of bodies contingent upon the modes of relationality productive of and mediated by them (Foucault, 1985). (…) The temporality of being and the finitude of human existence (Heidegger, 1984; Agamben, 1991). To put it simply, that means death and its irreversibility. To put it more technically, and in Heideggerean terms, it means being-toward-death (Heidegger, 1967)”. In: DILLON, M. (2000). Post-structuralism, Complexity and Poetics. Theory, Culture & Society, v. 17, n. 5, p. 1-26.

And to put it more scientifically, that means entropy.

Leituras e traduções

December 16th, 2009 Claudio Tellez No comments

O lado ruim de estar de férias é a tendência a desordenar as leituras. Tenho aproveitado, é claro, para ler algumas coisas de ficção. Para mim, livros de ficção são, de certa forma, livros de trabalho (devido à minha inclinação para a estética como um caminho para a teoria de RI). Porém escolher livros a esmo não traz bons resultados.

Estou terminando de reler Scientific Man and Power Politics, de Hans J. Morgenthau. Para mim, é o melhor livro de Morgenthau. Pretendo fazer uma breve resenha e postar no blog assim que terminar. Ao mesmo tempo, resolvi ler alguns manuais de metodologia (Asti Vera, Domingos Salvador e Umberto Eco), já que estou entrando no clima do publish or perish. Pretendo reler Sertillanges (sempre inspirador e, apesar da inclinação espiritual, reflete o lado espartano da vida intelectual, algo que me agrada) e estou atrás de um livro de Fernand van Steenberghen, intitulado (em francês) Directives pour la confection d’une monographie scientifique avec applications concrètes aux recherches sur la philosophie médiévale. A biblioteca da PUC tem somente outros livros desse autor, todos localizados no maldito depósito externo.

Estou penando para ler O Número de Deus, de José Luis Corral, porém estou convencido de que o problema não é o autor, e sim a tradução. Li outras coisas de Corral, em espanhol, e é um autor bastante agradável. Contudo, a versão brasileira publicada pela Relume Dumará está cansativa e muito travada, não flui. Pode ser birra da minha parte, já que o espanhol é a minha língua nativa e raramente – muito raramente mesmo – leio autores hispânicos em português. Só no caso de absoluta e total falta de acesso ao original, o que, infelizmente, é o caso.

Sempre penso no problema das traduções. Umberto Eco e Asti Vera são bem claros quanto à importância de trabalhar com os autores em suas línguas originais. Pode-se objetar que tal postura limita enormemente a quantidade de autores aos quais temos acesso. Não tenho dúvidas quanto a isso, porém não se trata de abarcar todo o conhecimento universal, e sim de trabalhar com alguma área específica. Assim, o especialista em filosofia antiga não tem muita escolha e o aprendizado do grego é parte importante de sua formação. Quem deseja trabalhar com o pensamento árabe medieval não tem como escapar da língua árabe. A alternativa não representa a ingênua comodidade de lidar com as traduções dos estudiosos consagrados; representa a limitação de ter que trabalhar com as *interpretações* de tais estudiosos. Assim, se o autor X é considerado o “melhor” tradutor de Platão, a ideia não é ter a pretensão de dominar o grego melhor do que ele; trata-se de ter consciência de que toda tradução é, também, uma interpretação e, portanto, envolve escolhas, contextos, idiossincrasias e inclinações. X pode ser considerado o “melhor” tradutor, porém isso não faz dele, necessariamente, o mais adequado para alguma finalidade específica do trabalho investigativo.

Claro, se o objetivo não é mergulhar na profundidade de um determinado assunto ou autor, mas sim obter um verniz de cultura, aí sim não há necessidade alguma de dedicar-se ao aprendizado de outras línguas. Também não há necessidade de “perder tempo” lendo as obras dos autores (mesmo traduzidas). Os livros de bolso, como aqueles da coleção de autores em 90 minutos, são suficientes.

O ponto não é dominar as outras línguas com a profundidade de um filólogo. Trata-se de ter um conhecimento instrumental suficiente que permita, com o auxílio de um bom dicionário, trabalhar com os originais. Os tradutores consagrados e os principais comentadores não são, de forma alguma, dispensáveis. O estudioso deve trabalhar com esse material, porém o contato com as fontes originais é fundamental. Neste aspecto, estou de acordo com Bernard Lonergan, que deixa bem clara a importância de, no trabalho hermenêutico, aprender a língua do texto que se pretende interpretar. É claro que alguns textos praticamente não exigem esforço hermenêutico – Lonergan recorre ao exemplo dos Elementos de Euclides, uma obra cujas dificuldades de compreensão residem mais no leitor do que na obra em si. Textos bíblicos, por outro lado, mesmo que utilizem uma linguagem bem mais simples do que Euclides, representam um manancial inesgotável de interpretações, muitas delas contraditórias. Basta passear pelas estantes de qualquer biblioteca de Teologia para dar-se conta da quantidade de livros dedicados aos mais diversos pontos de vista sobre os Evangelhos.

Ao lado dos textos bíblicos, que são a maior preocupação para Lonergan, acrescento que a maior parte das obras filosóficas exigem um esforço hermenêutico. Dessa maneira, o trabalho com a língua original torna-se necessário. Diante da objeção de que o aprendizado de uma língua nova significa perder um tempo que poderia ser aproveitado com outras leituras, pode-se responder que: (1) não se trata de aprender a língua com finalidades comunicativas; o objetivo não é falar e escrever em alemão, ou grego, ou latim, mas sim obter o conhecimento gramatical mínimo e saber trabalhar com as ferramentas necessárias para ter acesso aos textos; (2) o aprendizado de uma língua específica representa um enriquecimento cultural e, nesse sentido, não constitui perda de tempo; (3) abdicar do estudo da língua e “aproveitar o tempo” para ler mais traduções significa uma perda de tempo maior ainda, porque fazer um trabalho medíocre e incompleto, isso sim é desperdiçar esforço intelectual; (4) depois do “General Will”, minha namorada não confia mais em traduções.

A ideia de que servir-se de um bom tradutor é suficiente reflete a visão ingênua de que a linguagem é apenas um meio, um instrumento transparente, que realiza a mediação entre o leitor e o conteúdo do texto. Afirmar que a ideia é a mesma, independente da linguagem em que ela se expressa, satisfaz apenas superficialmente. Há uma relação mais delicada entre a linguagem e o contexto cultural, entre a linguagem e a estruturação do pensamento do autor. Isso se perde quando lida-se com relações de equivalência entre as linguagens. Desconsiderar/desprezar a relação linguagem-lógica-cultura, a partir da ideia de que há apenas um padrão válido de raciocínio e da crença na instrumentalidade da linguagem é manifestar etnocentrismo cognitivo.

Pode-se objetar que, por mais que nos dediquemos ao aprendizado da outra língua, isso não significa aprender a pensar em outra cultura. É verdade. Porém permite ter uma proximidade maior com essa outra cultura, o que já é uma vantagem. Além disso, mesmo que a *nossa* tradução seja apenas *mais uma* tradução, mesmo que ela seja infinitamente inferior às traduções dos estudiosos consagrados, ela apresenta outra vantagem: foi realizada tendo em mente o *nosso objetivo específico*. Nesse aspecto, ela é infinitamente superior mesmo às traduções mais reverenciadas e sacramentadas.

Concluindo, se o objetivo é realmente dominar um determinado assunto, não há lugar para a preguiça. A busca por atalhos pode ser um hábito cultural, a lei do menor esforço pode satisfazer ao utilitarista enrustido, porém ad astra per aspera ainda é o único lema que deve orientar quem pretende dedicar-se à vida intelectual.

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Um Experimento na Crítica Literária

December 7th, 2009 Claudio Tellez No comments

LEWIS, C. S. (2009). Um Experimento na Crítica Literária. São Paulo: Editora UNESP.

A leitura de Um Experimento na Crítica Literária suscitou diversas reflexões, a começar pela qualidade da tradução. Infelizmente, não tive acesso ao original. Contudo, aparentemente o trabalho de tradução foi bem feito, a começar pelo título, que reproduz quase fielmente o original An Experiment in Criticism. Estive a ponto de comprar, há alguns dias, o mesmo livro, publicado pela Porto Editora, com o título A Experiência de Ler. Mesmo não sendo uma aberração grotesca, como o que aconteceu com o livro The Physician, de Noah Gordon, publicado no Brasil com o título de O Físico, a escolha da Porto Editora não foi feliz. O livro de C. S. Lewis trata da leitura, porém não é um manual para leitores ou uma discussão da leitura como uma experiência. Há uma enorme diferença entre a leitura e a crítica literária. O livro de C. S. Lewis trata da crítica de obras literárias, explorando um caminho pouco convencional.

C. S. Lewis é de uma rabugice elegante quando propõe que, ao invés de julgar os livros, a crítica poderia partir de um julgamento da leitura e dos leitores. Para atingir seu objetivo, ele começa distinguindo entre leitores literariamente letrados e iletrados (no original: literary e unliterary). Enquanto os letrados têm uma relação especial com a leitura, que participa de sua construção como pessoas e que é um fim em si mesma, os iletrados veem na leitura apenas um passatempo na falta de coisa melhor. A distinção de C. S. Lewis entre os “muitos” iletrados e os “poucos” letrados pode parecer pejorativa e despertar a ira de quem dedica-se à caça de elitismos. Entretanto, o autor foi cuidadoso e discutiu inclusive o exemplo dos críticos profissionais que lidam com os livros apenas como material de trabalho e que, nas horas de lazer, não desenvolvem uma relação com os livros como a dos leitores letrados. Assim, a distinção entre letrados e iletrados não separa entre “melhores” e “piores”, “cultos” e “incultos” ou “civilizados” e “bárbaros”. Para C. S. Lewis, os dois tipos de leitores podem ser identificados desde muito cedo e “já estão prenunciados no berço”.

Trata-se, portanto, de uma questão de talento e de aptidão? A leitura é um talento que pode ser aprimorado através do trabalho disciplinado, porém que não pode ser imposto a qualquer custo? Em grande parte, essa é a ideia que C. S. Lewis expressa. As categorias não são fixas e um leitor iletrado pode tornar-se letrado, porém para isso ele deve mudar suas atitudes perante a leitura. Sem vontade – o que, necessariamente, deve vir antes da força de vontade – essa transformação não ocorrerá. A maioria dos leitores iletrados de hoje em dia, observo, deseja permanecer assim. Retomarei esse ponto mais adiante.

O que diferencia os leitores iletrados dos letrados? Basicamente, a diferença entre uso e apreciação. C. S. Lewis afirma que “muitos usam a arte e poucos a recebem”. Um quadro é mais do que a ideia que ele transmite e a música é mais do que a linha melódica. Contudo, o espectador que apenas usa músicas e quadros rejeita tudo aquilo que não satisfaz rapidamente suas necessidades. Assim, o que não pode ser imediatamente usado é ignorado e o espectador não se torna um apreciador. A apreciação requer receptividade e, mais ainda, requer, para C. S. Lewis, uma receptividade obediente. A apreciação não deve ser passiva, dado que o elemento imaginativo precisa estar presente. Porém a atividade imaginativa envolve uma propensão a obeceder aquilo a que a obra de arte conduz o espectador.

No caso da leitura, o leitor iletrado simplesmente não se interessa pela maneira como o escritor compõe as palavras para formar seu texto. Os elementos prosódicos são dispensáveis, as cacofonias não são percebidas e tudo o que importa são a mensagem e os acontecimentos. Observo que é isso o que faz com que os leitores literariamente iletrados não se sintam incomodados quando leem uma tradução (ou quando assistem a um filme dublado), mesmo tendo acesso ao original. É claro que não precisamos ser conhecedores de todas as línguas do mundo para poder apreciar a literatura universal. Entretanto, diante da Eneida, um leitor literariamente letrado que desconhece o latim pode pensar: “Ah, como eu gostaria de aprender latim para poder aproximar-me pelo menos um pouco mais de Virgílio, da maneira como ele compôs sua obra e assim entender melhor como ele escolheu cuidadosamente as palavras para obter uma certa cadência, uma determinada sonoridade”. Assim como o pintor utiliza-se das tintas, o escritor trabalha com as palavras, com a linguagem. Concentrar-se apenas nos acontecimentos narrados é tratar a linguagem como um meio transparente que proporciona o nosso acesso à realidade, é despi-la de seu contexto histórico e cultural.

Ler não é apenas mover os olhos, interpretar não é somente extrair a ideia central e reconstruir – seguindo uma sequencia lógica – os acontecimentos presentes na narrativa. Ler para apreciar requer um movimento de receptividade que resulta na abertura de todos os sentidos do leitor. É assim que sabores, odores, cores e texturas ganham vida durante a leitura. Italo Calvino explorou a dimensão sensorial do ser humano nos contos que compõem Sob o Sol Jaguar. O leitor iletrado não consegue, portanto, sequer entender a mensagem que Calvino deseja transmitir. Dificilmente, contudo, um leitor iletrado manifesta interesse por Calvino, pois ele prefere palavras e expressões que o coloquem em contato mais imediato com os acontecimentos narrados.

C. S. Lewis também discute por que os leitores iletrados não conseguem apreciar mitos e narrativas fantásticas. O impossível e o sobrenatural afastam os iletrados, que preferem ter contato com aquilo que eles consideram ser a experiência direta do mundo real. Assim, um romance de espionagem – repleto de clichés hollywoodianos, exageros e teorias conspirativas – pode chamar-lhes mais a atenção por parecer-lhes mais “realista” do que uma obra como As Crônicas de Nárnia, que consideram tola e infantil por ser fantasiosa. C. S. Lewis observa, ironicamente, que os iletrados “exigem a observância rigorosa das leis naturais tal como as conhecem”, isto é, não têm capacidade imaginativa para sair do balde de Newton. Dessa maneira, atribuem veracidade a narrativas ficcionais que satisfazem suas carências afetivas, porém que não são menos fictícias do que O Senhor dos Anéis ou Alice no País das Maravilhas. Indo um pouco mais longe, afirmo que grande parte do pensamento que estabelece a necessidade de separar entre ficção e não-ficção caracteriza-se pela mesma miopia imaginativa, que valida apenas uma determinada maneira de pensar, dentro de certos cânones de racionalidade, diante do julgamento severo da sabedoria das verdades eternas e em obediência a uma lógica específica e imutável – ainda que essa lógica seja insuficiente perante diversos fenômenos do mundo natural/real, que esses pensadores consideram um porto seguro para a elaboração de suas teorias.

Não entrarei, aqui, no mérito da questão de como definir o que é uma obra literária. Tampouco discutirei a relação entre a ficção e o real, ou como elementos valorativos e convencionais participam tanto da construção de uma narrativa imaginativa quanto da elaboração de diversas teorias que aspiram à cientificidade como ideal. O tratamento de tais questões demandaria muito mais espaço e prefiro reservá-las para outras ocasiões. É importante observar, entretanto, que C. S. Lewis dedica parte de seu livro para discutir tanto a maneira como o realismo aparece na literatura quanto as confusões interpretativas que transformam o realismo em uma exigência para satisfazer a necessidades terapêuticas.

Observei, anteriormente, que a maioria dos leitores iletrados de hoje em dia deseja permanecer nesse estado. C. S. Lewis escreveu seu livro em 1961 e, já naquela época, a sua rabugice elegante expressava uma nostálgica tristeza. Se tanto leitores literariamente letrados quanto iletrados tinham em comum ao menos uma coisa – o ato de ler, obviamente – o que temos hoje (e que já começava a perceber-se no início da década de 1960) é uma sistemática desvalorização da leitura. Assim, C. S. Lewis não estava apenas preocupado em chamar a atenção para o fato de que a maioria dos leitores não sabe ler; a crítica subjacente é a observação de uma deterioração progressiva do valor da leitura. Os resultados, algumas décadas depois, são palpáveis. O imediatismo que descreve o leitor iletrado de C. S. Lewis reflete-se, hoje, em uma geração apática e desinteressada.

Diversos fatores contribuiram para que chegássemos a esse estado de coisas, porém C. S. Lewis chama a atenção para o tratamento da literatura nas escolas e universidades. Ocorreu, por exemplo, uma proliferação dos Estileiros (style-mongers), que sacrificam a expressividade em nome de regras e padrões que pretendem configurar um ideal de perfeição estilística, eliminando assim o valor artístico e tolhendo a impressão estética. Ademais, os estudantes vêm sendo cada vez mais condicionados a uma postura de desconfiança, devido às pressões que enfrentam para produzirem críticas antes mesmo de saberem o que estão criticando. Esse tema também é explorado por Francine Prose em How to Read Like a Writer. Assim como C. S. Lewis, Prose também mostra preocupação diante da incapacidade que os estudantes têm, nos dias de hoje, de apreciarem uma obra literária.

C. S. Lewis apresenta um caminho para a crítica que evita a sacralização de convenções e certos modismos acadêmicos. Assim, classificamos um livro como bom quando ele nos proporciona experiências positivas, quando nos convida a releituras, quando provoca impressões que não são apenas passageiras. Porém não podemos afirmar que um determinado livro é ruim apenas porque não suscitou tais respostas de nossa parte, pois sempre podemos estar errados e outros leitores podem ter impressões distintas. A visão de C. S. Lewis reflete suas experiências de vida, sua formação pessoal, seus valores e suas crenças. Condená-lo por uma ou outra afirmação etnocêntrica seria perder a visão do conjunto, uma atitude típica de quem condena toda a obra de um autor por uma opinião particular, desconsiderando o contexto histórico e sócio-cultural mais amplo do qual essa opinião faz parte. Da mesma forma, seria virulência mesquinha afirmar que Um Experimento na Crítica Literária apresenta sugestões que, muito convenientemente, favorecem o tipo de literatura que o próprio C. S. Lewis produziu.

O livro de C. S. Lewis tem o mérito de apresentar um diagnóstico da relação atual entre as pessoas e os livros. Assim, apesar de escrito no início da década de 1960, trata-se de uma obra de importância atual. A perda progressiva da capacidade de apreciar a literatura nos leva a um distanciamento cada vez maior de nós mesmos. Através da valorização excessiva do imediatismo e das soluções práticas, em detrimento da reflexão cuidadosa e da contemplação, abandonamos paulatinamente o aspecto moral da literatura e das artes em geral, promovendo assim um modelo de intelecção baseado no isolamento e distanciamento, ao invés de no contato e aproximação. Abandonar a ficção imaginativa é, portanto, abrir mão da capacidade de pensar e de conhecer para além dos cânones reverenciados como a única maneira de produzir pensamentos e conhecimentos legítimos.

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Autor é quem tem autoridade

December 2nd, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Após várias semanas, hoje consegui reunir a paciência e a disposição para tirar a poeira do teclado e fazer algumas atualizações por aqui.

A página “O Autor”, que continha uma breve descrição deste que vos escreve, foi rebatizada como “O Autor e o Blog”. Assim, além de colocar os leitores a par de quem sou, esclareci também quais são os propósitos deste espaço. Considero importante fazer esses esclarecimentos e estabelecer alguns limites, pois a internet é uma verdadeira terra de Marlboro onde a facilidade do anonimato é um incentivo aos abusos.

Ampliei e – melhor ainda! - atualizei a minha descrição. Afinal de contas, no início deste mês, deixei de ser um mestrando e tornei-me mestre em Relações Internacionais. Assim, comentei brevemente a respeito de meus interesses de pesquisa, entrando em alguns detalhes.  Também comentei sobre meus interesses de maneira mais geral (música, literatura etc.).

O que talvez possa chocar um ou outro desavisado, já que vivemos em tempos de fetichização da democracia, é a minha afirmação de que este espaço não é uma democracia. Assim, há limites para a expressão e esses limites ficam a critério do soberano autor deste blog, isto é, eu. Afirmo, portanto, minha autoridade (pois sou o autor) e crio minhas próprias linhas de demarcação espaço-temporais (agora até imaginei o Rob Walker gesticulando!).

Decreto que comentários ofensivos não serão aprovados. Decreto, também, que este espaço não é plataforma para a militância patológica, como já cansei de ver por aí.

É claro que valorizo os debates, a troca de ideias e a diversidade de opiniões. Exatamente por isso, reservo-me o direito de limitar a expressão dos espertinhos que buscam amparo na desculpa da ”pluralidade e diversidade de opiniões” para tentar enfiar, a marretadas, seu dogmatismo monolítico. Já bastam as legiões de chatos que infestam o Orkut, o Facebook, o Twitter e assim por diante.

Entretanto, como pretendo dar uma aquecida neste blog, volta e meia farei comentários críticos a respeito de temas sensíveis. Diante desses temas, às vezes os ânimos se exaltam e os debates ficam acalorados. Não vejo nada de errado nisso e considero até saudável. Contudo, para o bom andamento dos debates, deve haver respeito às opiniões alheias. Há quem acredite que argumentar e ofender são a mesma coisa. Não sou dessa opinião e este espaço não comportará manifestações dessa espécie.

Não sou um paladino do politicamente correto, que considero basicamente como hipocrisia transvestida de respeito. Porém uma coisa é recorrer à ironia e ao sarcasmo para expressar uma opinião mais forte, sem prejudicar a solidez do argumento; outra coisa é praticar o bullying intelectual, exaltando o amadorismo anti-academicista e promovendo a prática do polemismo profissional.

Este blog está passando por uma renovação que reflete os resultados do exercício de perguntar e reperguntar “o que me faz sentir raiva?“ Não pretendo, com esse exercício, obter respostas. Pretendo definir melhor meus questionamentos.

Assim, diversas postagens tratarão de minhas reflexões críticas a respeito dos temas que ocupam a maior parte do meu tempo. Mas também pretendo enriquecer este blog com resenhas de livros, comentários sobre filmes ou assuntos do cotidiano, uma ou outra ironia ou piada, volta e meia uma reflexão de caráter mais pessoal e assim por diante. Deixo claro que este é um espaço informal e não uma página profissional. Um blog deve ser um blog, um lugar para ser menos contido e mais espontâneo. Deve ser, também, atualizado com mais frequência. Sei que tenho falhado nesse ponto e procurarei remediar isso, porém sempre na medida do possível, isto é, de acordo com as limitações impostas por meus compromissos acadêmicos, profissionais e pessoais.

Enfim, é isso. Este ano foi de muito aprendizado, em diversos aspectos da minha vida. Desejo apenas continuar aprendendo e, quando possível, compartilhar um pouco os resultados desse processo contínuo com as pessoas que me cercam e com os leitores que gostam de visitar este blog.

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Rob Walker – From Balancing Security to Dividing Freedom

November 5th, 2009 Claudio Tellez No comments

Quatro (breves) vídeos de Rob Walker.

Uma nota longa

October 1st, 2009 Claudio Tellez 1 comment

Começarei esta reflexão contando uma pequena história.

Eu estava dentro de um ônibus, esperando o motorista chegar, sem nada para ler. O ar condicionado estava ligado, as janelas obviamente estavam fechadas e, de repente, uma borboleta entrou pela porta.

Logo depois, uma criança entrou no ônibus, seguida pela mãe. Ao passar pela roleta, exclamou: “Olha, mãe, uma borboleta! Vou lá matar!”

Senti imediatamente a raiva se acumulando, em um ponto logo abaixo do meu umbigo.

Assim que o moleque passou por mim, falei bem alto: “Ô garoto, essa borboleta te fez alguma coisa por acaso?”

Ele não respondeu. Mas a mãe saiu em sua defesa: “Olha, ninguém merece uma borboleta dentro do ônibus.”

Ao que respondi imediatamente: “É? E ela vai fazer o quê, vai te picar por acaso?”

A mulher ficou sem graça e apanhou a borboleta, tentando ser cuidadosa. Ela me entregou o inseto, murmurando que seria impossível tirá-lo de lá.

Fui até o cobrador, expliquei a situação e ele abriu um pouco a sua janela. Problema resolvido. Podia ter acabado aí. Mas as pessoas dificilmente aproveitam as oportunidades de manter a boca fechada. Logo que voltei para o meu lugar, a mulher resolveu comentar: “Não precisava disso tudo, que besteira.”

Olhei para ela e respondi: “Olha, se uma pessoa não aprende a respeitar a vida enquanto ainda é criança, depois vira bandido e não sabe por que.”

Nesse momento, todas as pessoas começaram a olhar para a cara dela. Eu fiquei apenas sentado e comecei a olhar pela janela. Não aconteceu mais nada.

***

Por que agi assim? Talvez pelo peso das circunstâncias. Ou por estar questionando, à luz da minha vida presente, escolhas que fiz no passado. Como pode uma cultura que verdadeiramente valoriza a vida, em todas as suas formas, levar ao vazio moral, ao relativismo e ao niilismo? Tal acusação acaso não parte de uma outra cultura, que arroga ao ser humano o direito – por mandato divino – de vida e morte sobre todas as criaturas? Por acaso o cultivo da tolerância implica necessariamente no relativismo, enquanto a imposição de uma única forma legítima de pensamento representa o único caminho válido para a “salvação”?

Seria fácil atribuir determinadas posturas e preconceitos à pura e simples ignorância. Contudo, tais posturas e preconceitos derivam de elementos culturais e de interpretações morais que sustentam ordenamentos políticos, que legitimam práticas, que demarcam – em nome de um certo ideal de civilização – as fronteiras de uma humanidade comum, a partir da imediata definição de quem não merece pertencer a tal humanidade.

Claro, as fronteiras dessa “humanidade” abrigam tanto os justos quanto os que se divertem praticando tiro ao alvo em uma cadela, tanto as pessoas que trabalham para o bem de sua família quanto o meliante que atira em um bebê. São apenas exemplos isolados, estou ciente disso, mas é a partir da acomodação de diversas contradições internas que uma certa visão do mundo e do ser humano consegue perpetuar-se. Dessa maneira, os exemplos citados, assim como muitos outros, passam a fazer parte de algo maior, passam a refletir problemas muito mais profundos.

Felizmente, sempre é tempo de mudar, de querer retornar ao centro, de procurar o equilíbrio entre a força e a suavidade e de perceber que nunca estamos fora do tempo e do contexto. Sempre é tempo de admitir os próprios erros, tirar a venda dos olhos e voltar a buscar a perfeição em tudo o que fazemos. Sempre é tempo de não desistir e de não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.

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